Konono Nº 1 Meets Batida: Entre Alcântara e as Áfricas
Uma Partilha:  O Fado & Outras Músicas do Mundo/Terra Pura/Crónicas da Terra
[transcrição da entrevista áudio do podcast Terra Pura, de Luís Rei]
A Terra Pura recebe hoje Pedro Coquenão, mentor do projecto Batida que co-produziu conjuntamente com o belga Vincent Kenis o novo tomo da série Congotronics, isto é, o novo álbum dos congoleses Konono nº1. “Konono Nº1 Meets Batida” foi gravado em Lisboa, na garagem de Pedro Coquenão em Alcântara, e contou com vários ilustres convidados locais como Papa Juju (membro dos Terrakota), Selma Uamusse e o MC AF Diaphra. Durante esta hora vamos então conversar sobre a execução e produção deste disco e sobre as palavras de Luaty Beirão que aparecem aqui num dos temas deste disco.

 

Bom-dia Pedro! E bom-dia porque esta saudação é mesmo um dos temas que faz parte deste Konono Nº1 que se encontra com Batida. Que tema é este? É um bom-dia angolano?

 

Olha, a primeira vez que vi esse tema escrito até tinha um y, era “Bondya”. Foi o Augustin (Makuntina Mawangu) que escreveu esse título e ele tenta escrever em português algumas palavras, porque ele tem ligações a Luanda e o Congo fica ali muito perto e aquelas linhas que foram desenhadas pelos europeus em certa altura só fazem sentido em quem as desenhou. Mas lá essas linhas não existem na cabeça das pessoas nem nas línguas existem. Há muitas palavras que ele acha que são português e não são – tenho que lhe dizer que aquilo não existe – e outras, como no caso do “Bondya” ele escreveu com y, n e tudo agarrado. Eu perguntei-lhe se era essa a intenção, a saudação de um bom início de dia, e ele disse-me que sim. É o bom-dia deste disco, é o bom-dia do Augustin que há-de ser qualquer coisa de Kinshasa misturado com a ideia que ele tem de Luanda e de Portugal…

 

Seria um bom-dia para iniciar o disco mas aqui é o quarto tema.

 

Sim. Confesso que no meu alinhamento – porque depois todos propusemos alinhamentos – eu achei que era uma boa forma de começar. Mas depois há formas… Eu mesmo, como DJ, cometi esse erro: começares com uma introdução. E as pessoas não têm tempo para introduções e tens que começar logo com a carne toda no assador e depois logo te introduzes mais à frente.

 

Não deixa de fazer sentido: como isto é um disco para ouvir pela noite dentro, entretanto a meio amanhece e é o “bom-dia”.

 

Sim, pode ser um bom-dia, após. Ainda bem que me ajudaste a resolver esse problema de sequência de disco.

 

Tu estavas a falar do Augustin, que é o filho do fundador do grupo, que infelizmente morreu em 2015. Não chegaste a contactá-lo… O processo de te unires aos Konono Nº1 foi já depois da morte do Mingiedi.

 

Sim. Eu cruzei-me com ele há muitos anos atrás na Casa da Música, num festival que lá houve (Festival Mestiço, 2009) e em que estavam lá todos. Cruzei-me com ele num corredor e foi um momento muito fixe. Lembro-me que estava a sair do palco e o túnel estava cheio… Parecia que estava a sair ou estava a entrar numa competição e tinha vários “kononos” a ladear-me e nessa altura o mais velho ainda lá estava. Desse tempo para cá, acho que mesmo na última digressão, ele deixou de viajar por questões de saúde e passou a ser o Augustin a assumir a liderança da banda e o instrumento principal. E então, sim, todo este disco já foi feito nessa geração nova porque o pai já não aguentava o andamento das viagens.

 

Como é que se deu então este encontro entre Batida e Konono Nº1? Porque este é um novo disco de Konono Nº1, é um novo disco da série Congotronics iniciada também pelo Konono Nº1…

 

O convite foi inicialmente feito para eu produzir o disco novo de Konono, ou seja, este disco deveria ser um disco (assinado apenas por) Konono. Depois, pela forma como as coisas se desenvolveram… E eu também forcei um pouco isso porque quis falar com eles antes de aceitar o desafio; quis perceber se havia mesmo alguma naturalidade no convite ou se era um daqueles casamentos arranjados por conveniência de alguém que vê a coisa de uma outra maneira, o que é legítimo mas eu, pessoalmente e em termos criativos, preciso mesmo de perceber o que é que se passa. Preciso de perceber uma boa parte do que está a ser dito, qual é que é a intenção, qual é o sentimento por detrás.
E foi muito fácil entender-me com eles. Então, desde o início comecei por comer com eles, por estar com eles em dois concertos depois de eles virem a Lisboa. Inicialmente era para termos ido para um espaço — que não estava disponível nesse dia — e, se não corresse bem, iríamos mesmo para um estúdio formal para gravar. Só que, entretanto, nesse dia morto em que eles chegaram eu sugeri irmos para a minha garagem porque não havia nada para fazer e eu achei que era a melhor maneira de nos conhecermos. Eu já tinha conhecido os Konono na estrada e em palco fomos até à garagem para eles verem como eu trabalho.
Entraram, começaram a olhar para a garagem e, às tantas, lembro-me perfeitamente do Augustin dizer: “Não; é aqui que vamos gravar”. “Mas olha que isto não tem condições, só tenho dois microfones… Isto não é assim, Augustin. Vê lá bem o que estás a dizer; eu percebo e estou contigo porque também tenho esse espírito, mas não sei se isso vai funcionar”. E ele disse: “Não, não, não. É mesmo aqui que nós vamos gravar isto. Isto é tipo como a nossa casa”. Eu levei isto como um elogio e avisei a editora: “Atenção que acho que eles querem gravar aqui”. E não houve grande volta a dar porque eles são cinco, eu sou eu – e mesmo que eu me mantivesse neutro – mais os votos da editora, do manager e do Vincent, o outro produtor… O Vincent (Kenis) também achou piada ao sítio, também gostou, porque ele tem ali um lado qualquer, não se é hippie, se é punk, mas acho que é uma mistura dos dois, e então acabámos por ficar todos lá.
Um bocadinho amontoados, sempre em cima uns dos outros, a beber chocolate quente e com o aquecedor do meu avô no máximo o tempo todo. E acho que isso acaba por se traduzir no processo criativo: de repente, é inevitável as coisas misturarem-se porque estávamos, literalmente, em cima uns dos outros a gravar.

 

Houve então a vinda de equipamento adicional para gravar – equipamento de estúdio móvel – ou gravaram o disco com o equipamento que tinhas lá na garagem?

 

Sim, sim. Só com o meu era impossível. O Vincent tinha algum material dele que costuma usar quando está em Kinshasa, tinha alguns microfones… Tivemos que ir comprar coisas no próprio dia: cabos e outras coisas que faltava. Mas, sim, foi feito entre o meu material, o material dele, algum material que pedi emprestado e algum que tivemos mesmo que ir comprar no momento. Não estava nos planos mas também não me pareceu que alguém estivesse muito preocupado. Eles eram flexíveis e eu também não tenho propriamente grandes mariquices a gravar.
O mais importante é garantires que há alguma personalidade na gravação e que, acima de tudo, o que é gravado é gravado com a maior intenção possível. E isso aconteceu. Então, aceitámos desde o início que iria haver condicionalismos porque é um som de garagem e isso iria condicionar tudo o que viesse a seguir: há sons que podes gravar em directo: o likembé, gravado do amplificador e mexer no som mais tarde, mas, por exemplo, numa voz não há muita volta a dar ou o som da bateria, em que também não há muita volta a dar.
E então aceitámos isso como parte integrante da personalidade, o que me agradou porque eu pessoalmente gosto muito do som de garagem, do cimento, do som do sítio em que estás… Não gosto de inventar muito e parecer que estás num Jaguar quando estás numa Toyota Hiace.

(…)

Isto não podia dar dois discos diferentes? Os mesmo temas ou temas semelhantes mas em discos diferentes? Às vezes há aquela coisa de um artista africano fazer um disco local – por exemplo, o Youssou N’Dour fazia muito isso com um mbalax que se ouvia muito no Senegal e que era muito diferente de um mbalax que é feito para a Europa ou para o resto do mundo…
Não há aqui a possibilidade de, com as gravações que vocês fizeram, haver um novo disco proximamente, nem que seja daqueles discos que por vezes aparecem de construção dos temas?

 

Sim. Eu próprio também fiquei com “outtakes” meus que não explorei tanto aí, mas não muitos. Eu penso que houve o cuidado… E pelo menos tentei que existisse também um tema que se referisse a isso. Há um tema em que eu não tenho influência nenhuma que é o “Tokolanda” e achei que era importante haver um tema assim. Um tema que soasse aos outros discos de Konono. Para que quem ouve perceba que a diferença foi uma opção e que o fazer igual era muito fácil. É só fazer o que foi feito até aí: o Vincent tomar conta das decisões de produção e de mistura e a banda tocar como toca sempre. E tentar nos outros temas que este disco não fosse redundante, porque os Konono – também pela língua e pelo som tão marcado do likembé  — corriam o risco de, com mais um disco que fosse muito parecido com os outros, as pessoas desconsiderassem o disco por ser “igualzinho ao outro que já tenho lá em casa”.
Tirando os Congotronics, eles já tinham discos com esse tipo de sonoridade e nem toda a gente tem paciência para ir perceber as letras ou o que eles tinham de novo para dizer: iam estar só a ouvir o som. E o som, o som normal de Konono, é muito parecido com o dos discos anteriores. Não é tradicional; é o som deles, o som do pai do Augustin, um som muito particular e específico. E eu achei… E mesmo todos estavam nessa, mesmo os próprios Konono diziam isso, que queriam arriscar e descobrir coisas diferentes. Queriam um “input que achavam necessário porque as pessoas gostam de ouvir coisas diferentes. Porque se eles quiserem tocar como no “Tokolanda”, é só tocar mesmo. Eles tocam aquilo a qualquer momento e fazem-no quando têm que tocar três horas em Kinshasa num casamento ou num funeral. Não há produção ali; é o que é… Depois o que pode haver é, com as viagens e eles a ouvirem o próprio disco, e terem vivido aquele período, há de certeza coisas que, como houve em mim, tu aprendes e levas para ti, para a tua vida.
Por exemplo, numa das primeiras vezes em que estivemos a gravar eu perguntei ao Vincent porque é que não usava o bombo. E ele nem tinha bombo. Batia com o pé mas não tinha nada no pé. E ele disse: “Em Konono nós nunca usamos o bombo”. Porque o Jacques (Mbiyavanga), que está a tocar os tan-tans, as ngomas, está sempre a acentuar o tempo forte. E a mesma coisa com o baixo. Só que se tu libertares tanto umas como o outro dessa marcação tão mecânica que pode ajudá-los a chegar a estados de consciência mais elevados, etc, etc, mas se os libertares disso vais abrir espaço para outro tipo de criatividade, em vez de estar ali a fazer o trabalho da marcação que a caixa de ritmos faz normalmente. E também dá ao baterista uma motivação maior porque ele é que está a ser o coração da banda. E eu convenci o Vincent a usar um kick electrónico que eu lhe meti por baixo do pé.
Foi um bocadinho esse tipo de pequenas coisas e de pequenas interacções que nós fomos aprendendo ou partilhando uns com os outros: a introdução do kick e depois de elementos electrónicos na bateria. Fui eu que construí o kit de bateria para o Vincent e ele, ao fim do primeiro dia, dizia: “Eu quero isto”. Chamou o manager e disse-lhe para me pedir um igual.
Aquilo não é nada de especial: é essencialmente um sintetizador com triggers em que bates na tarola e sai um som associado, um som de pele mas há também um som electrónico, um bocado de lata que serve para a parte do timbalão, tens o kick e electrónico e um rim – a borda da tarola – que tem um som de madeira associado. E ele gostou daquilo tudo, de ter um som dele mas também ter um som qualquer por trás que lhe dava mais poder e presença na música. E acho que a banda beneficia com isso, porque eles fazem digressões que passam não só por festivais de world music mas também por clubes na Bélgica ou Londres em que eles podem ter um público “gourmet”, conhecedor de world music, mas também miúdos de 14, 15 ou 16 anos que gostam de indie ou electro, de trance ou de tecno, e acho que este tipo de elementos ajuda a banda a comunicar mais com esse público também. E porque isso já lá está: não é estares a pedir ao músico para acrescentar coisas que ele não faz.

(…)

konono_batida_2

Um dos temas do disco, “Nlele Kalusimbiko”, que é o tema inicial, é aquele onde se vê mais esta interacção entre Batida e Konono Nº1, sobretudo pela batida electrónica e também pelo MC que aparece aqui, AF Diaphra. Aliás, as vozes que foram convocadas para este disco – AF Diaphra, Papa Juju (dos Terrakota), Sacerdote, Selma Uamusse – penso eu que têm o teu dedo…

 

 

Sim, todos os convidados e todas as pequenas coisas que surgem neste disco foram ideias minhas e vontades minhas. Nunca tinha feito nada com a Selma mas era inevitável e acho que vou acabar por fazer sempre coisas com ela.  Porque há uma afinidade muito grande e também porque também não há assim muitas pessoas com o percurso dela. Ela tem um percurso fantástico: tanto toca e canta com o Rodrigo Leão como toca com WrayGunnn como depois faz teatro, e é uma performer incrível, e como tem vontade de fazer o disco próprio ou como depois, também, está num grupo de gospel. Poucas pessoas têm esse alcance. E tem um lado “idiota”, também, que é importante que todos tenhamos. Era inevitável e achei que era uma boa oportunidade para a ter.
O Biru – o AF Diaphra – é um bocado na sequência dele já ter estado no meu primeiro e segundo disco, com um tema em cada e achei que era fixe convocá-lo, porque ele não é o MC típico, é um MC que se ajusta, muito camaleónico… Achei que eles iam dar-se bem e não me enganei porque essa sessão de gravação correu muito bem. Também foi o último take que ficou. Gravámos vários, cada um com a sua cena, e depois o último – que é aquele da descompressão – foi o que ficou.

 

E é também o lado da poesia de que falavas há pouco.

 

Sim. É o lado da letra não ser só um tipo a gritar e a animar, etc. E o Biru tem a capacidade de gritar e animar mas não é isso que é a base do trabalho dele. Então, acho que isso dá relevo ao trabalho de letras do Augustin. O Papa Juju não entrou com voz; entrou com guitarra. Ele é um personagem muito valioso nestas coisas porque, onde chega, ele mistura-se. Tanto se mistura numa roda de djembés em Sines como no norte de África toca guitarra com não sei quem. Ele mete-se com toda a gente e é muito fácil introduzi-lo num grupo. Ele tem um lado infantil ainda muito forte, muito talento musical e tem um amor muito forte pela música africana e, então, foi muito fácil. Nós gostamos muito um do outro e nunca tínhamos feito nada juntos, então achei que – da mesma maneira que era natural haver um seguimento – haver novas influências, até mesmo para mim a trabalhar.
O Sacerdote, sim, é recorrente. Na realidade eu só usei um sample dele a dizer “somos bantu”, que foi uma letra que fizemos há já algum tempo. Ele participou no meu segundo disco com esse bocadinho e achei que era bom voltar a fazer esse “statement”, porque há uma espécie de versão pop do que é ser africano e passa muito por se falar no zulu. O zulu é sempre uma figura quase pop de África e, na realidade, aquela zona de África não é tanto zulu, é mais bantu.
E há uma ligação grande entre os países – antes das fronteiras –, transversal: rítmica, oral, das palavras, entre a tradição. Pelo menos para se falar do nome, para que se vá mantendo vivo e para que, na realidade, se perceba donde é que isto tudo vem e de onde vêm as afinidades entre o Sacerdote e o Augustin, que fisicamente até são parecidos e tudo.

 

E depois há aqui também, se bem que não fisicamente, o contributo das palavras do Luaty Beirão, no tema “Nzonzing Família”.

 

Esse tema não era para entrar no disco. Fui eu a desbloquear a banda e disse “olha, vamos fazer isto ao contrário; vou agarrar no microfone e vocês vão tocar. E começamos a cantar ou a tocar e comecei a desafiá-los. Isto foi uma gravação espontânea, não foi estruturado nem nada. Houve depois um segundo take que ficou muito melhor, mas foi esse (o primeiro) que ficou escolhido. Essa foi a única música que eu não escolhi porque não ia escolher uma música em que estava a participar dessa maneira… E eu lembrei-me das palavras do Luaty porque é-me fácil lembrar-me das palavras dele. E fiz aquele bocadinho da letra. Depois, mais tarde é que, da editora voltaram a insistir: então aquele tema? E eu, se insistirem mais vinte vezes, se calhar tudo bem. E ficou. Para mim seria sempre mais um “outtake”, uma coisa mais íntima. Para mim é um bocadinho íntimo demais esse momento. Mas acedi porque eram muitas pessoas a dizer para ele entrar: os kononos, o manager, o co-produtor e a editora. E então, tudo bem.

 

E será que este tema poderá, de alguma forma, servir para que se fale da situação do Luaty?

 

Sim, claro. Aliás, esta conversa (com os Konono) surgiu em Novembro (de 2015) e o que me fez desempatar e dizer “ok, eu vou ceder nisto” foi precisamente eu achar que era importante ter mais uma vez a presença do Luaty ou, como na conversa que estamos a ter agora poder surgir novamente, naturalmente e de uma forma artística (o seu nome). E foi isso que me fez desempatar. Olha, isto de certeza que vai fazer com que haja conversa à volta disto e, infelizmente eu não estava errado, isto ainda vai ser pertinente quando houver entrevistas e conversas.

 

Oiça esta entrevista na íntegra aqui:

http://cronicasdaterra.com/cronicas/?p=10123

 

E a sua continuação aqui:

http://cronicasdaterra.com/cronicas/?p=10132