Andanças : Vários Festivais dentro de um Festival
São vinte anos de histórias que marcaram a dança e a música em Portugal. Podia ser só um festival, podia ter sido sempre no mesmo sítio, podia ter uma programação semelhante todos os anos e podia ser só dança, como o nome sugere, mas não. A Pédexumbo, junto com todas as entidades a quem se associa para criar o Andanças, o festival internacional de danças populares, oferece em 2016 uma programação tão variada quanto apelativa, pelo menos para quem não gosta de estar parado, a não ser que o que procura seja a contemplação, e mesmo isso pode ser encontrado neste festival, que agora e desde 2013 encontra nas margens da Barragem de Póvoa e Meadas, em Castelo de Vide, a sua casa.

Se no início, ainda nos anos 90, o Andanças nos habituou a uma programação ecléctica em torno das danças de matriz rural europeias, vinte anos depois encontramos neste festival uma autêntica viagem por vários mundos. Não são só expressões artísticas, não é só uma preocupação crescente pela preservação do ambiente, não é só humanismo e não é só para um tipo de pessoas. O Andanças reflecte, através do programa sincrético que propõe, um caleidoscópio de perspectivas sobre o que é ser humano e como é que o mundo pode ser um lugar melhor. Se esta ideia parece demasiado ousada, nada melhor do que percorrer passo a passo a programação, que merece alguma atenção e pode alargar os horizontes de quem ainda não experimentou uma semana intensa de vida e de bem-estar.

Como o núcleo das actividades do festival está relacionado com dança, e como a dança bebe os movimentos na música, é importante destacar os bailes nesta deambulação pelo programa. O conceito é simples: os músicos tocam e os participantes dançam; durante o dia aprendem as coreografias; à noite, já com toda a segurança do mundo, dança-se. Para que isto aconteça, o Andanças partilha com o mundo várias bandas, portuguesas e não só, que permitem o dinamismo e a criatividade nos vários palcos onde os bailes decorrem.

 

Bailes em português

Logo no primeiro dia do Andanças, a Celina da Piedade, que, se houvesse tal conceito, seria a embaixadora do festival e dos bailes contemporâneos em Portugal, vai dar as boas-vindas com um concerto no Palco X (mas não será a única apresentação da Celina no Andanças, portanto deixem-se ficar). Logo a seguir, no mesmo local, a orquestra Ethno Portugal, composta por músicos que estiveram em estágio na semana anterior ao início do festival, vai trazer a multiculturalidade ao maior palco do Andanças.

A semana vai continuar com bandas que se sucedem nos vários palcos. São músicos amadores, profissionais, criativos, ousados, mais contidos ou expansivos, mas todos têm o mesmo objectivo, que é provocar a dança. Das bandas de baile portuguesas, sem nenhuma ordem que as distinga, podemos encontrar os criativos Douvidozo, que são só dois mas levam na bagagem mais de dez instrumentos para incutir a dança nos participantes.

Ainda em português, mas já a construir pontes para outras partes do mundo, os String Fling vão hipnotizar o público com um baile construído em cordas. Fora do universo tradicional europeu, os Stomping at Six, magníficos alunos do Hot Clube de Portugal, vão fazer as delícias de quem procura dançar ao som de swing. Os Aqui Há Baile, vindos de Évora, vão ensinar como é que se dança num Alentejo envolto em fado. Com um nome extenso mas inesquecível, os Batalha do Modesto Camelo Amarelo vão mostrar a fusão que fazem para baile europeu, com a orientação de Leónia de Oliveira. Quando falamos em tradições portuguesas, como a utilização de rabecas chuleiras em baile, os Bailómondo são o destaque fidedigno e sólido do festival. Na mesma onda, o NEFUP, um grupo etnográfico construído por alunos da Universidade do Porto, dá a conhecer ao Andanças a variedade musical e coreográfica do norte de Portugal.

Entre o jazz e outras coisas que ultrapassam rótulos, os Cindazunda, de Coimbra, não passam despercebidos com a sua energia contagiante. Com o humor a que o Matias já habituou o público, os JAM.PT mostram como é um baile europeu, variado, com muitas técnicas irlandesas e vários instrumentos avidamente explorados pelos músicos. Da mesma forma, com humor e com Matias, os Fulano, Beltrano & Sicrano estreiam-se neste festival. Quase que não precisam de apresentação, mas os Parapente700, o virtuoso duo de Eva Parmenter e Denys Stetsenko, merecem ser sublinhados pelas composições originais e as versões maravilhosas de temas tradicionais com que presenteiam o público. Já que falamos em Denys Stetsenko, o versátil violinista também leva ao Andanças os El Bocadito, um quarteto inevitável quando se fala em tango e milongas quentes.

Como Portugal é uma manta de retalhos, os Fogo Fogo vêm encher o festival com funaná e outros ritmos africanos tão indizíveis como intensos. E de fogo, ainda que calmo, é feito o baile das B’rbicacho, que mostra música totalmente no feminino e com um trabalho vocal irrepreensível. Do meio do Atlântico, também chega ao Andanças o baile de chamarritas, sempre acompanhado pelo timbre apelativo da viola da terra de Décio Leal.

 

De volta à origem

Em Portugal sempre houve bailes, desde que há registos históricos, mas o conceito dum festival dedicado à dança nasceu noutra zona. Assim, porque os nacionalismos são invenções e as culturas influenciam-se umas às outras, na vigésima primeira edição do Andanças vamos assistir às actuações dalgumas das melhores bandas de baile do mundo. Avidamente adorados por todos os públicos, vindos da Bélgica, vamos ter o duo Naragonia, que compôs alguns dos temas mais emblemáticos do universo dos bailes europeus. Ao longo da semana, também com Toon Van Mierlo, dos Naragonia, os Hot Griselda mostram a exactidão dum baile virtuoso com várias influências europeias. Dentro do universo francófono, mas sem fronteiras definidas e com grandes instrumentistas, ainda vamos poder ouvir Zlabya, Peut-être Jeanne, Geronimo, Broes, o acordeonista Bert Leemans a solo, Luna Rossa, o Duo Vandenabeele-Knapen, o projecto 1, 2, 3, Soleil, de Pascal Seixas, e a mestiçagem perfeita de Ormuz.

Claro que o universo latino também está representado no maior festival dedicado à dança em Portugal. Assim, não vão faltar os bailes de forró com Enrique Matos, as composições sonhadoras de Martina Quiere Bailar e o baile com o Forró Universitário, de Pablo Dias.

Como o mundo ainda é vasto e cheio de pequenos mundos por descobrir, a programação do Andanças ainda convida ao baile húngaro dos Vizeli Band e ao incansável baile italiano dos Terminal Traghetti.

 

O Andanças para lá da dança

Uma barragem, muita sombra e vários universos culturais por explorar não poderiam esgotar-se em bailes e oficinas de dança. Os iniciados poderão ainda experimentar o contacto com alguns instrumentos musicais, como os adufes, cujas técnicas serão partilhadas por Sebastião Antunes. Como se o programa não fosse variado à exaustão, ainda é possível encontrar a calma a explorar a gastronomia local, fazer passeios pela zona de Póvoa e Meadas, experimentar artes plásticas, teatro, cinema, relaxamento, quiromassagem, dança Sufi e Derviche e reflexologia.

A inevitabilidade de dançar é uma realidade em qualquer momento do Andanças, mas as regras coreográficas podem ser quebradas principalmente durante os concertos. Para que nem os corações nem as pernas estejam imóveis, a tentar acompanhar os braços no ar, o Andanças traz ao Palco X os concertos dos bascos Korrontzi, a energia contagiante das percussões da Nação Vira Lata, a viola campaniça de Pedro Mestre, a música perdida no tempo de Saoirse, com Joana e Rebeca Amorim, o poder mirandês de Galandum Galundaina e o virtuosimo dos Velha Gaiteira. Para que nem haja tempo para respirar, em qualquer canto pode ser encontrado um concerto inusitado.
A comprovar esta ideia, Alísio Saraiva vai partilha o seu conhecimento sobre a viola beiroa, durante uma conversa que a qualquer momento vai transformar-se num concerto. Sem fôlego é como o público vai estar depois do concerto vindo do leste europeu dos Dobranotch. Um dos grandes construtores do Andanças, desde o início, Winga Kan, traz este ano ao Palco X o projecto Orchidaceae Urban Tribal, que vai implicar grandes voos e ritmos perfeitos. Uma passagem rápida pelo programa, ainda nos transporta para as actuações de Alex Duarte e o seu Coração Analógico, os cordofones portugueses de Ricardo Fonseca, o espectacular ballet Kilandukilu, de Petchu, e o bem-disposto desfile de virtuosa música portuguesa dos Toques do Caramulo.

Se só a ideia deste festival, que são vários festivais, já deixa a respiração ofegante, nada melhor do que experienciar pessoalmente aquilo que as palavras escritas só podem descrever quando são partilhadas por poetas.

 

Vítor Cordeiro

NOTA DA REDACÇÃO: A equipa d’O Fado & Outras Músicas do Mundo lamenta profundamente os danos e transtornos, materiais e psicológicos, resultantes do lamentável incêndio que ocorreu no dia 3 de Agosto, na zona de estacionamento automóvel do Festival Andanças. Gostaríamos também de salutar o enorme civismo, espírito e entreajuda que floresceram deste infortúnio. Uma vez mais, a Redacção d’O Fado lamenta o sucedido, mas também deseja, acima de tudo, os maiores e melhores votos de felicidade e sucesso para esta e todas as futuras edições deste Festival. E que as danças e andanças não acabem!