Uma Antevisão : Festival Intercéltico de Sendim

Parto todos os anos, nos finais de Julho, para terras de Sendim e Constantim. Como quem obedece ao ciclo anual das estações, reincidindo com a festa intercéltica na pacata vila de Sendin (em mirandês escrevo), para celebrar as músicas do meu contentamento.

E muitas foram as que solenizei!

Desta festa, o Festival Intercéltico de Sendim (FIS) mais do que um festival é uma comemoração popular, que acompanho desde os seus primórdios, evoco, em especial, o memorável concerto do Hedningarna, em 2004 – regressariam em 2009 –, da Brigada Victor Jara, dos Dervish, dos La Musgaña, de Kepa Junkera, dos britânicos Oysterband e Four Men and a Dog e, das bandas de Terras de Miranda, dos Galandum Galundaina e Pica Tumilho, estes os “criadores” do rock agrícola nordestino.

E não esqueço os bailes improvisados, até ao cantar do galo, na Taberna Celta e das poções mágicas, particularmente do capitoso “Licor Celta”.

Sendim, onde se diz ter nascido a posta mirandesa pelas mãos de Ti Gabriela, prepara-se para receber mais uma edição do Festival Intercéltico de Sendim (FIS). Este evento, que irá decorrer de 4 a 6 de Agosto, vai na 17ª edição e é já considerado uma referência entre os festivais de música folk.

A organização – assinada pela Sons da Terra – optou este ano por dar protagonismo a grupos emergentes da música folk europeia, como são o caso dos irlandeses Full Set, dos galegos Pepe Vaamonde Grupo e dos Andarilho 2.0.

 

cartaz fis

 

O primeiro dia do FIS, dia 4, tem passagem por Miranda do Douro, no palco situado no Largo D. João III, com a presença dos Andarilho 2.0. e dos castelhanos Almez.

O projecto Andarilho 2.0, formado pelo duo aveirense Rui Oliveira e Rui Aires (Dj Deão), que contam, no FIS, com a colaboração do saxofonista inglês Robin Hevness, deu os primeiros passos em Madrid, quando Rui Oliveira conheceu Aires. “Foi engraçado conhecer um meu conterrâneo num outro país”, confessa Rui, que, na altura, dava a conhecer, no estrangeiro, o seu projecto Fado solo. O fadista, que viveu e cantou em Alfama, confessa que “o fado faz parte do meu imaginário musical, contudo, a música de raiz tradicional é uma paixão que vem da sua desde a sua adolescência”. Andarilho 2.0, “é uma viagem musical pelo sul da Europa a partir de uma voz e sentir portugueses”.

No dia 5, já por terras sendinenses, no Parque das Eiras, inicia-se, os festejos, pelas 22h00, com uma sinfonia de foles: A Orquestra de Foles, um novo projecto da Associação Gaita-de-Foles, constituída por um extenso leque de instrumentistas: gaiteiros e percussionistas. Uma hora mais tarde, sobe ao palco a “estrela” da noite, Pepe Vaamonde Grupo.

Oriundos da Galiza, o sexteto do gaiteiro Pepe Vaamonde, a que por vezes se juntam dois bailarinos, prometem agitar a noite com o seu reportório alegre e descomplexado de Xotas, Mazurcas, Muiñeiras e afins. O naipe de músicos, na sua maioria investigadores e professores de música, denotam grande virtuosidade instrumental, valorizando, nas prestações ao vivo, com a dança.

A encerrar o segundo dia do festival, os Almez fazem a sua segunda apresentação na edição deste do FIS. Grupo originário de Toledo prometem prosseguir, na animação, com a sua fusão de

danças tradicionais espanholas, e não só, com ritmos contemporâneos como o reggae, a soca ou o ska.

No terceiro, e último dia do Fis, sobem ao palco os mirandeses Trasga, repentes no FIS, que nos trazem as cativantes sonoridades das Terras de Miranda, sustentada por uma panóplia de instrumentos, como a sanfona, flauta tamboril, gaita-de-foles, caixa ou bombo.

Das ruas de Dublin vêm os cabeça de cartaz do FIS deste ano, os Full Set, um grupo de músicos muito novos que trazem um toque fresco sobre a música tradicional do seu país

À “boleia” de O’Riordain Traolach, director do Programa de Estudos Irlandeses na Universidade de Montana, “há dois tipos de músicos na Irlanda. Aqueles que aprendem a música tradicional na escola e aqueles que aprenderam dos seus pais e avós, como eles aprenderam de seus pais e avós. Os Full Set estão nesta última categoria”. Prosseguindo na peugada de O’Riordain, “o que temos aqui são jovens que vêm da tradição, incrivelmente talentosos e que foram desmamados, na música, a partir de suas casas, que interpretam, e reinventam, a tradição com a paixão e energia da juventude”.

Um poderoso e imaginativo grupo que garante mais um marco indelével na história do FIS.

O encerramento do festival acontece com os cântabros Naheba. Investindo no acervo montañes (Cantábria), o quinteto, fundamentalmente acústico (gaita, violino, flauta, bouzouki e bodhram), concebe uma sonoridade muito pessoal, em que os temas populares se fundem, na perfeição, com as composições próprias ou adaptadas.

Para além dos concertos, o FIS oferece um vasto e diversificado conjunto de actividades paralelas, como as oficinas das gaitas e danças mirandesas, apresentações de livros, exposições e as celebrações intercélticas na Taberna dos Celtas.

 

Orlando Leite