Entrevista: Raquel Tavares
Raquel Tavares fala sobre o novo disco, o Caixa Alfama e o seu bairro!

 

A fadista Raquel Tavares acaba de lançar o seu mais recente disco, “Raquel”, que após oito anos sucede a “Bairro”. Em entrevista ao Infocul abordou não apenas este novo disco como a sua presença no Caixa Alfama em Setembro, naquele que é de sempre e para sempre, o seu bairro.

 

Raquel Tavares é um dos nomes mais aclamados no Fado. Ao longo do seu percurso e fruto da sua voz e peculiar presença em palco, com grande interacção com o público, a fadista tem um estatuto consolidado na canção nacional.

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“Raquel” é o nome do seu mais recente disco, onde se pode “encontrar uma Raquel mais amadurecida que esperou oito anos para gravar um disco. Que durante oito anos adquiriu ferramentas de trabalho que não tinha, especialmente descobri-me enquanto cantora e intérprete, muito mais do que fadista que sempre foi e será a minha primeira identidade”, começa por nos revelar.

 

“Neste álbum não é a que salta à primeira vista mas é uma fadista a cantar canções em português. Não é um disco de fado tradicional mas tem fado. Conceptualmente não é um disco tradicional mas é um disco com uma grande portugalidade. Convidei alguns amigos para compor e escrever. Tenho alguns dos maiores autores contemporâneos: Miguel Araújo, Tiago Bettencourt, António Zambujo e Jorge Cruz. Tem participações do Rui Massena e do Carlão. É um disco que eu queria fazer, muito à minha medida e pessoal. Por isso é que se chama “Raquel”. Acho que sou eu agora” complementa.

 

Raquel Tavares relembra ainda que “já não tenho 21 anos como quando fiz o primeiro álbum. Ainda andava muito à descoberta. Sabia que era fadista mas não muito mais do que isso e agora descobri que sou muito mais do que isso. A minha identidade de fadista não deixou de existir. Ela mantém-se lá e será sempre a minha primeira identidade mas com mais um bocadinho e é isso que quero mostrar”.

 

A fadista revelou-nos que fechará um dos dias no palco Caixa, palco principal do festival, num espectáculo em que “vou apresentar o meu novo disco no meu bairro e para a minha gente. Para quem quiser visitar o bairro nesses dias. É claro que vai ser um concerto recheado de emoção, como é sempre que canto em “casa”. Como é óbvio, vão estar programadas algumas surpresas. No ano passado foi a marcha que entrou pelo palco a dentro. Este ano sabe-se lá o que vai acontecer! Ainda temos algum tempo para pensar nisso, até lá. Agora estamos numa fase de promoção. Tenho concertos marcados, como é óbvio, mas estamos muito focados na promoção. O disco está a correr muito bem, estamos a tocar bem nas rádios que têm sido um órgão de comunicação muito querido em relação com este disco e estou muito grata às rádios e restantes órgãos de comunicação social. As rádios têm um peso muito importante nesta indústria e o nosso disco está a ser muito bem recebido pela parte de rádios que nem sempre são aquelas que achamos que vão passar fado” diz visivelmente orgulhosa.

 

Dois dos concertos em que já apresentou este novo disco, aconteceram no Centro Cultural de Belém e no Caxa Ribeira, numa altura em que “ainda estava a fechar o alinhamento para ver se resultava ou não resultava. Percebi que sim. Resultou e estou muito confiante e orgulhosa deste trabalho” antes de acrescentar “o CCB e o Caixa Ribeira foram os dois primeiros concertos que fiz com este novo álbum e cantei ao vivo. Como deves imaginar, uma coisa é gravar um disco e outra é apresenta-lo em palco”.

 

Com 31 primaveras, a fadista é já uma das referencias no fado para quem agora se inicia. Esta situação, “deixa-me muito feliz. A nova geração revê-se um pouco no meu percurso. Eu comecei numa altura em que o fado era muito diferente. O fado acontecia de uma outra forma. Eu tento trazer essa forma, que se dissipou um pouco, para palco, e os jovens fadistas que estão a começar a conhecer um pouco dessa forma o fado um pouco mais comigo. Quero trazer um lado um pouco mais contemporâneo de mim enquanto artista. Sinto-me muito orgulhosa quando as miúdas novas dizem que cantam e adoram os meus fados. Eu acho isso uma ternura. Não era esse o meu maior objectivo, tornar-me uma referência mas fico muito feliz por perceber que já sou e incentivo, inspiro de alguma forma. Acho que é esse o legado que um artista deixa, inspirar outras pessoas. Então que seja assim. Que sirva para isso, também” confessa-nos.

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Para o Caixa Alfama, a fadista convida o público a ir ao bairro com a “mente aberta. Despirem-se de preconceitos sobre o que é o bairro de Alfama. Venham, divirtam-se e desfrutem de uma Lisboa antiga que aqui ainda reside. Uma Lisboa de tradição de gentes que recebem e querem receber de braços abertos. Nós estamos cheios de turismo, todos os dias, e, na verdade, é que gostamos de ver a nossa gente, a nossa cidade, a nossa terra no nosso bairro.

O Caixa Alfama é um óptimo pretexto para isso. Venham mais cedo. Venham à tarde. Comecem por almoçar umas sardinhas e percorram o bairro. Visitem as ruelas e pensem que se perderem é sempre a descer para dar ao Largo do Chafariz, que é o largo do Museu do Fado. Venham de mente aberta pois isto é Lisboa no seu melhor. Eu sou suspeita pois vivo Alfama como poucos. Acho que os portugueses deveriam visitar este bairro pois é uma Lisboa impecável com uma luz que encadeia e emociona. O fado faz-se sentir nesses dias ainda mais do que nunca. É lindo pois vês várias gerações. É um festival da família. Acho que é um dia muitíssimo bem passado e a terminar com grandes nomes do fado e com novos nomes que vão aparecer e acho que é óptimo descobrir. Sinto-me orgulhosa por fazer parte deste evento pelo terceiro ano.

Vim agora do Caixa Ribeira e vou para o Caixa Luanda. Disse por graça, no Porto, que “Ando de Caixa em Caixa. Ando encaixotada”, e ando orgulhosamente. Sinto que faço parte da família deste festival e sinto-me orgulhosa” remata.

 

Rui Lavrador

Uma Partilha: O Fado & Outras Músicas do Mundo/Infocul