Oh, Sines!

 

Oh, Sines!

Tenho alguma dificuldade em lembrar-me da vida antes do FMM. Não é que não consiga recordar-me das coisas que fiz, das pessoas que conheci ou dos concertos que vi, é que é difícil, literalmente, não tem graça nenhuma, não me apetece e faltam coisas.
Consigo traçar uma linha clara na minha vida entre pré-Sines e pós-Sines, com o espaço dedicado no meu peito ao que é bonito a encher-se, claramente e de forma absoluta, da riqueza das coisas que tenho trazido de lá ao longo de onze anos de presença assídua, mesmo quando não consigo estar todos os dias.

Ao longo destes 11 anos, perdi a conta ao número de concertos incríveis a que assisti mas guardo sempre comigo a aprendizagem. A amizade. As desventuras de alguns músicos, o triunfo de outros. A Erika Stucky e os Roots of Communication brilhantes em 2007, e a mesma Erika assustada antes de subir ao palco depois da assombrosa Rokia Traoré em 2008.
A generosidade exuberante de Omou Sangaré, a loucura de Hastrid Hadad e os gritos da bibliotecária Iva Bittová no auditório do Centro de Artes. A voz antiga da Lula Pena e o vira da Gisela João.

O descobrir que a minha mãe, pouco dada a estas lides, quando me disse de Paris “ó filha, cuido do filho de uma senhora que também canta” se estava a referir a Rokia Traoré e o momento em que encontrei as duas, no camarim, e a Rokia me diz “Ah! Já ouvi falar muito de ti”. As feiticeiras Ayarkhaan e o feitiço que nos lançaram, a comovente Mercedes Péon.
(Noto agora num pequeno parêntesis que só falei ainda das mulheres de Sines, sem querer, mas a verdade é que também é isto, o meu Festival: as incríveis Mulheres que o Carlos Seixas tem trazido ao FMM, muitas nascidas em países que as querem submissas e escondidas, como um carimbo invisível da igualdade que este festival promove e celebra.)

A humildade. O esforço. O trabalho de toda a equipa para que nada falhe e que tanto os músicos como o público se sintam em casa no Mundo que lhes é trazido. Todas, mas todas as bandas a agradecer pessoalmente ao Carlos e a alegria nas suas caras ao ver o público atento e receptivo, tão bem educado pela expectativa nunca defraudada do cartaz que apesar de desconhecido, é sempre brilhante. O sacrifício. O percussionista de Mandrágora a tocar com uma pedra nos rins até ter de sair do palco directamente para o hospital, o de Trio Joubran a continuar a tocar depois de cortar a mão num prato, ensanguentado e a ser ligado sem nunca, nunca, parar de tocar com a mão que lhe restava.

O Carlos Bica e o seu trio Azul, os Vikings Alaamailman Vasaarat e os seus violoncelos saturados, o theremin de Barbez e o tex mex do Marc Ribot, a primeira passagem de Hermeto no Castelo, a alegria de Staff Benda Billili, o pedido de encore cantado no concerto do Cyro Baptista, a loucura de Gogol Bordello e a calma oposta de Danças Ocultas em Porto Covo, o abraço do Rachid Taha ao Carlos Seixas em palco, os Gaiteiros de Lisboa e o ano em que perdemos o Ali Farka Touré, todas as minhas datas já baralhadas, 2005, 2009, 2007 – eu sei lá.

O cheiro a hortelã no Castelo à noite. O fogo-de- artifício. A Avenida cheia de corpos dançantes ao nascer do Sol e os olhos cansados mas felizes de toda a incrível equipa de produção e dos voluntários que a apoiam. Os abraços e o pequeno-almoço nos Galegos. Aquela queda monumental e que o meu amigo Vítor insiste em teimar que foi de cabeça (Vítor, desiste, não foi!) e o desalento de pensar nos 300 e muitos dias que nos separavam da próxima edição. A amizade, tão profundamente enraizada em Sines, porque todos os caminhos que me separam dos meus amigos ao longo do ano se cruzam naquela pequena baía, onde já vi crescer os seus filhos, onde já chorámos tanto quanto rimos, onde já nos perdemos e zangámos, dançámos e fizemos as pazes.

Todas estas coisas e tantas outras que o espaço e a cabeça não me permitem lembrar agora representam o meu festival, visto sempre do lado do público, mas Sines é muito mais que a soma destas partes para mim, é toda uma história de gratidão, respeito e admiração. Foi lá que em 2005, alguns meses antes do Festival, gravei na Capela da Misericórdia o concerto que se tornou a primeira edição da Nobody’s Bizness, quando ainda não pensávamos sequer que queríamos editar discos.
Acredito que sem esse concerto, não teríamos existido para além dos amigos que nos viam no Bairro Alto, no desaparecido Catacumbas, e nunca teríamos chegado até ao mundo inteiro, como continuamos – para surpresa de todos – a chegar até agora, metidos em publicidades para agências de viagem em Itália ou em programas de rádio no Nebraska.

São muitas as razões para que um músico queira tocar em Sines, mas algumas são só minhas e do coração que não posso dissociar daquela cidade. Em 2007 escrevi, no rescaldo do Festival:
“Um dia, vou pisar aquele palco. Nem que seja para afinar guitarras.” (ou, relembrou-me entretanto o meu querido António Pires, para afinar os machados da Erika Stucky!). Esse dia chegou e o que foi comigo para o palco é um novo projecto (Hearts & Bones), mas foi muito mais do que isso. Foi um desejo antigo e as memórias e a gratidão por tudo o que aprendo, ano após ano.
Foi a alegria incontida de estar finalmente no cartaz mais bonito do planeta, de fazer parte da história e do percurso do Festival que me ensinou a ouvir outras músicas e foram todos os meus amigos, que celebraram tanto como eu no dia em que vi o concerto anunciado oficialmente e mais ainda dentro da sala, quando a voz da Raquel Bulha nos embalou no escuro até ao palco.

Foram os nossos dois corações a bater tão depressa que pareciam parados e foi, mais que qualquer outra coisa, jogar em casa, foi sentir que estávamos com a nossa gente – é que se há coisa que aprendemos aqui, é que também o público é a nossa gente quando estamos em Sines. É-me difícil colocar em palavras o que representa para um músico receber um convite destes mas é fácil explicar-vos que enquanto pessoa, tocar em Sines foi sentir que o Festival me abraçava de volta, um abraço profundo de 11 anos e dezenas, centenas de concertos.

Não sei falar do FMM de outra forma que com o coração e este ano, precisamente por esta razão, não vou falar dos concertos que vi (mas posso deixar uma nota para a Quadrilha do Sebastião Antunes e para o enorme David Murray Infinity Quartet com o Saul Williams porque, oh zeus, como não deixar?).
Nesta 18ª edição do mais bonito dos festivais, um dos concertos resumiu tudo, mas absolutamente tudo o que não só o FMM representa mas também o que é ser músico, ser melómano, ser pessoa num mundo cada vez mais estranho. Billy Bragg. Billy Bragg. Billy Bragg. Posso repeti-lo até que fique gravado na pedra.

Billy Bragg. Não foi só a música, com Bragg nunca seria afinal, foi a generosidade do homem em palco e acima de tudo a mensagem que nos deixaria sempre mas que não tínhamos a certeza a que seria dirigida. Tivemos muito Brexit, muito desgosto pela derrota inglesa no Euro (“Bring Ronaldo, bring your moths!”), tivemos a sugestão de que cada banda na próxima edição se fizesse acompanhar pelo clima do seu país, transformando o festival em (dito em português e tudo) Festival Climas do Mundo e tivemos a beleza da pedalsteel de CJ Hillman.

Tudo isto seria perfeito só por si, mas a grande mensagem que nos deixou Bragg é a mesma que tenho sentido desde que descobri o FMM: é a música que nos salvará sempre do nosso próprio cinismo. É através dela que baixamos a guarda, que acreditamos ser capazes de construir mais e melhor. É da nossa responsabilidade que esta mensagem não tenha apenas a duração de uma canção ou de um concerto, relembrou-nos várias vezes que se deixarmos que nos façam esquecer que conseguimos, juntos, mudar o mundo, o trabalho que tem feito nos seus 33 anos de carreira não fará sentido.

Billy, cerramos contigo o punho e acreditamos. Acreditaremos sempre. Enquanto existir FMM, enquanto existires tu, enquanto tivermos a coragem de aceitar a vossa generosidade e de descobrir a nossa no processo, o cinismo continuará a fazer parte de nós, mas não será mais forte que a vontade de sermos melhores e maiores.
É por noites como a de Sábado que direi sempre que Sines não é um festival criado para que o público venha ver bandas, é um festival onde o público vem ouvir música, descobri-la, celebrá-la. Por isso seremos todos, os que partilhamos a alegria do FMM, sempre muito profundamente gratos.

 

Petra Pais

(Cantora e Guitarrista dos Hearts & Bones, que actuaram este no no FMM, e da Nobody’s Bizness)