FMM Sines: Um Festival Que Se Instalou Nas Nossas Vidas

Ano de 2006, último domingo de julho, viagem de regresso a Lisboa depois de mais um FMM. A minha amiga Petra só me dizia, do lugar do pendura, “faltam 300 e tal dias para voltarmos”. Assim era na altura, assim continua a ser para muitos de nós, para muitas das pessoas que fui conhecendo dentro ou fora das muralhas do Castelo de Sines. O ano, todo aquele tempo que a Terra demora a dar a volta ao Sol, divide-se em duas partes. A parte boa, aquelas quase duas semanas de festival. A parte menos boa, o resto dos dias em que aguardamos por mais uma edição do FMM. É uma hipérbole, claro. Ou não. Já aqui volto.

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Conheci o festival pela primeira vez em 2001, já este ia na terceira edição. Queria ver os Taraf de Haïdouks, a família de músicos ciganos da Roménia. Já vinham a perder algum do sucesso conquistado no final dos anos 90, o FMM ainda era desconhecido de muitos e, como resultado, as cadeiras (sim, havia cadeiras no castelo!) estavam pouco preenchidas. Ir dançar lá à frente e tapar a vista dos que estavam nas primeiras filas, só em momentos especiais, como neste concerto dos Taraf. Ou como no encerramento, em que apanhei com a surpresa do fogo-de-artifício num concerto que me ficou marcado desde então, o dos Black Uhuru apoiados na potente secção rítmica dos históricos Sly & Robbie. E eu que até nem sou muito dado ao reggae.

Voltei dois anos depois, para ver Skatalites e Simentera e, pelo meio, ser surpreendido pelos rabos das Mahotella Queens ou pelo baião de barba rija de Totonho & Os Cabra. Nessa edição, acompanhava-me uma ansiedade permanente. Ia por música junto à praia, na última noite, na companhia do Mário Dias. Correu bem, a malta gostou e a festa até à manhã de domingo viria a repetir-se por muitos dos anos seguintes, a maior parte dos quais com o Bailarico Sofisticado.

 

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Nunca mais podia cortar esta ligação ao FMM. Ali fiz amigos e amores, ali desfiz amizades e amores. Ali soube, a meio de um concerto em Porto Covo, que o meu pai tinha morrido, ali levei o meu filho mais novo com apenas mês e meio de idade. Revejo esta fidelidade entre os muitos amigos com quem tenho vindo a partilhar quartos e casas durante estas últimas semanas de julho, ou naqueles com que me vou encontrando todos os anos na praia, no castelo, no Centro de Artes, nos cafés e nas ruas de Sines ou de Porto Covo. Há uma comunidade imensa viciada no FMM e, já levando alguns anos disto, perdi a conta aos estreantes serem picados pela mesma vontade indómita de regressar edição após edição. Daqui a dias sei que vou encontrá-los por lá.

Nem sempre é fácil explicar a quem nunca foi as razões que sustentam todo este magnetismo. Vou tentar refletir naquela que, entre muitas outras, me parece a principal. Quando começou, o FMM não era o único festival de músicas do mundo. Nem o é agora. Mas ajudou a quebrar com um certo hermetismo que reinava no circuito de então, mostrando que o conceito de músicas do mundo pode e deve ser aberto, desde que saiba ter uma programação inteligente, instruída e persistente, como tem sido aquela que o diretor artístico, o Carlos Seixas, tem desenhado desde o início, com a liberdade de ação que a Câmara Municipal de Sines lhe tem dado (e que, se calhar, faltou a tantos outros projetos iniciados por esse país fora). É a principal marca do festival. Atrai os curiosos e surpreende o público em geral.

Mesmo que não conheçam um único nome do cartaz, têm a garantia de que vão ter boas surpresas. Em pouco tempo, passámos a ter um festival de músicas do mundo que já não atraía apenas os nerds que sabem quantas cordas tem o morin khuur da Mongólia, mas grandes romarias de grupos de amigos e de famílias provenientes de todo o país e de além-fronteiras.

 

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O FMM esteve para as músicas do mundo como os primeiros Paredes de Coura ou Primavera Sound de Barcelona estiveram para o rock. Pés no chão e cabeça para sonhar. Música com espírito de aventura trazida por gente com espírito de aventura, que gosta muito, mas mesmo muito de música. Por aqueles palcos vi passarem gigantes como Trilok Gurtu, Tom Zé, Marc Ribot, Master Musicians of Jajouka, Mahmoud Ahmed, Toumani Diabaté, Orchestra Baobab, Cyro Baptista, Gaiteiros de Lisboa, Cordel do Fogo Encantado, Carlos Bica, Femi Kuti, Asha Bhosle, Vitorino, Janita, Hugh Masekela, Vishwa Mohan Bhatt, Rachid Taha, Debashish Bhattacharya, Lula Pena, Uxía, Hermeto Pascoal, Orlando Julius, Roberto Rodriguez, Mário Lúcio, Waldemar Bastos, Rão Kyao, Salif Keita, Gisela João, Jacky Mollard ou Lee ‘Scratch’ Perry. Por ali vi passarem alguns dos novos valores que hoje fazem grandes palcos por esse mundo fora, como Rokia Traoré, K’Naan, Amadou & Mariam, Konono nº 1, Mor Karbasi, Staff Benda Bilili, Bombino, Aline Frazão, Tinariwen, Le Trio Joubran, Seun Kuti, e tantos, tantos outros.

E outros ainda que esperaria antes encontrar numa ZDB ou em qualquer outro espaço mais restrito e nunca o das músicas do mundo (lá está, o velho preconceito dos anteriores festivais), como Barbez, L’Enfance Rouge, KTU, Dead Combo, Osso Vaidoso ou Secret Chiefs 3. Repito, música com espírito de aventura trazida por gente com espírito de aventura, que gosta muito, mas mesmo muito de música.

É verdade que também as músicas do mundo se agigantaram nestes últimos anos, mordendo com os calcanhares à hegemonia anglo-saxónica. Os Tinariwen e os Mbongwana Star vão a Glastonbury, há mais músicos de todo o mundo a viajarem em digressões, multiplicam-se os projetos de fusão entre rock e ritmos de outras paragens, surgem editoras, nascem bandas, formam-se novos agentes, os jornais estão mais atentos, saem a toda a hora coletâneas carregadas de velhas pérolas de lugares e tempos quase esquecidos, bloguistas como o do Awesome Tapes From Africa tornam-se famosos, propagam-se as pequenas festas de cumbias e música africana pelos grandes centros urbanos. Ufa. Nada que tenha a ver com os anos 90. Mas até nisto o FMM, que a Songlines têm destacado regularmente como um dos melhores festivais da Europa, teve o seu papel. Está tudo interligado.

 

Vítor Junqueira