Há Bons Sons Que Valem 300 Soldos : Uma Memória de Carlos Norton

 

Cem Soldos não será porventura o lugar mais idílico deste planeta (perdoem-me os 1000 habitantes, que talvez discordarão), nem fica num grande centro urbano, nem num fabuloso destino estival, nem num fantástico lugar medieval. Fica numa aldeia igual a outras milhares de aldeias por este país fora.

O Bons Sons não terá certamente um cartaz de luxo que faça inveja aos melhores festivais do mundo. Não existem grandes estruturas, nem grandes marcas a apoiar o evento e nem há sequer grande ênfase no apoio ou promoção pela comunicação social.

Então porque será este um dos melhores festivais que temos? Para perceber é preciso conhecer, já que o Bons Sons é muito mais que um festival. Tive o privilégio de o conhecer como comunicação social, como músico, como público e como público com família. Misturam-se de forma indiferente as sensações dos diversos pontos de observação, já que neste festival tudo se funde e confunde.

O lema adoptado “vem viver a aldeia” diz tudo, não apregoa à música, ao entretenimento, ao cartaz nem a outros aspectos directamente ligados ao festival, mas sim à própria aldeia. Essa é a genuína força do Bons Sons, a Aldeia. Porque este é um projecto comunitário, porque é feito de forma simples e honesta. Por pessoas que ali vivem todo o ano numa vida quotidiana de aldeia. E são eles que estoicamente (agora) anualmente levantam um festival que atrai milhares de visitantes (35000 o ano passado) e vêem o Bons Sons reconhecido e premiado. Confesso que este é um dos melhores exemplos que já vi de trabalho comunitário. Toda a aldeia participa activamente e isso sente-se durante o festival, nos sorrisos e no suor dos habitantes que tão bem acolhem a enchente. E isso reflecte-se no espírito de quem participa, sejam músicos, espectadores ou jornalistas. Porque durante estes dias todos se misturam.

 

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É um dos festivais mais curiosos que já conheci. O público, ao contrário do de muitos outros festivais, não tem qualquer estereótipo. São milhares, muitas vezes amontoados nalguns palcos, mas nunca vi a menor zaragata ou escaramuça (apenas no campismo alguns ébrios perturbam o descanso de muitos, mas resolve-se sempre a bem). Todos sorriem, inebriados pelo espírito da aldeia. Os músicos deixam-se contagiar e embarcam na mesma vontade colectiva. Olhamos à volta e vemos músicos pelo recinto sentados a ver os concertos dos colegas, a beber e a pagar uma cerveja a um admirador, de permeio com um jornalista aos abraços. Não há vedetas, não há estratos, tudo é simples, tudo é partilha.

E o registo de sucessão de concertos ao longo do dia (começam logo depois de almoço), permite-nos passear pela aldeia, de concerto em concerto, tranquilamente, sem correrias, encontrando amigos, conhecendo pessoas de todo o país, cruzando na fila para a cerveja com músicos que actuaram noutras edições, porque todos voltam, porque ninguém fica indiferente a tão excepcional ambiente.

Tudo isto seria já suficiente para designar o Bons Sons como um excelente festival, mas falta logicamente a génese de tudo: a música. O cartaz, além de extenso, é abrangente e sem preconceitos. É um festival de música portuguesa, mas construído sem espírito comercial, ignorando as correntes, as modas e permitindo vários géneros que normalmente não encaixam em cartazes de outros festivais. Por isso encontramos de tudo um pouco, ninguém conhece tudo e muitos não conhecem quase nada. Mas é para isso que serve o Bons Sons, para dar a conhecer a música portuguesa. E ela agradece, a música e os músicos, que em todas as edições comprovam a enorme qualidade da nossa música.

Em ano comemorativo dos 10 anos de Bons Sons, vai ser bom rever nomes como Desbundixie, Kumpania Algazarra, Danças Ocultas & Orquestra Filarmonia das Beiras ou Sopa de Pedra. Vai ser bom poder ver Fandango, as Adufeiras do Paúl, Sensible Soccers ou Tim Tim Por Tim Tum. Acima de tudo, como em todas as edições do Bons Sons, vou querer ver tudo, porque a tal magia da Aldeia é transportada para o palco e isso faz com que os artistas se transfigurem, originando um espectáculo quase sempre único. Por isso, mesmo com artistas que já perdi a conta às vezes que os vi ao vivo, tenho a certeza que serei surpreendido. Tenho também a certeza que irei descobrir novos e interessantes projectos de música portuguesa.

Alguns conselhos para quem for pela primeira vez. Procurem a (lagar)Tixa, divirtam-se com frases e trocadilhos muito bem conseguidos, frequentem os cafés da aldeia, brinquem com quem passa, digam bom dia ao pastor quando saírem da tenda.

É uma aldeia e durante uns dias portamo-nos como se fossemos vizinhos. Com toda a amabilidade, respeito e até uma certa intimidade. Acabado o Bons Sons, regressaremos a casa. Cerca de 1000 pessoas continuarão nas suas casas da aldeia de Cem Soldos, primeiro a arrumar a casa e depois a preparar 2017. Até porque não é só de Bons Sons que Cem Soldos (culturalmente) vive.

Rematando, para explicar o valor das parangonas, 100 soldos pela Aldeia, 100 soldos pelo público e 100 soldos pelo cartaz, fazem com que o Bons Sons valha 300 soldos.

Lá estarei!

 

Carlos Norton