José Luís Gordo : Um Tributo ao Poeta do Fado

O poeta José Luís Gordo, com cerca de 50 anos de carreira — 420 poemas cantados em disco por dezenas de fadistas e mais de 350 publicados em livro — foi  homenageado dia 6 de Agosto, numa cerimónia/concerto que decorreu no Fado no Mercado, em Cascais. Segundo a edilidade local, esta foi “uma pública e justa homenagem a José Luís Gordo, um dos nomes incontornáveis da cultura e música portuguesas”. E, segundo o jornalista Rui Lavrador, foi assim que aconteceu:

Numa noite de altas temperaturas em Cascais, José Luis Gordo, enquanto homem e poeta, foi homenageado num espectáculo que contou com algumas das melhores vozes do fado, tendo a produção deste evento estado a cargo de Miguel Capucho e a organização da Câmara Municipal de Cascais. No renovado e agradável Mercado da Vila (onde decorreu o Fado no Mercado), em Cascais, o público respondeu em massa à homenagem a um dos maiores poetas nacionais, José Luis Gordo, autor de textos cantados durante a última metade de século por dezenas de fadistas. Elogiamos a iniciativa de homenagear um símbolo da cultura nacional em vida, ao contrário do que habitualmente se faz em Portugal.

O elenco fadista nesta noite de homenagem reuniu diferentes gerações. Pelo Mercado da Vila, em Cascais, passaram Miguel Capucho, Rita Gordo, Francisco Salvação Barreto, Joana Amendoeira, Fábia Rebordão, Jorge Fernando e Maria da Fé. Foram acompanhados por Paulo Parreira na guitarra portuguesa, Rogério Ferreira na viola de fado e Daniel Pinto (Didi) no baixo. Nas actuações de Fábia Rebordão e Jorge Fernando subiu também a palco Ivo nas percussões.

Miguel Capucho como anfitrião, filho da terra e produtor do espectáculo, foi o primeiro a subir a palco interpretando “Fado Loucura”, ” Meu Bairro Alto” e “Lisboa Antiga”. Miguel é considerado um dos melhores fadistas da sua geração e a actuar em casa não deixou créditos por mãos alheias, na sempre difícil missão de abrir um espectáculo.

Rita Gordo

A segunda artista a subir a palco foi uma das filhas do homenageado da noite, Rita Gordo. Trouxe a Cascais os temas “Sete Pedaços de Vento”, “Fado José Maria dos  Santos” e ” Contra Ventos e Marés”. Com uma voz limpa fez dos temas amor que distribuiu pelo público cascalense que por si enamorado retribuiu com aplausos. Francisco Salvação Barreto fez da afinação e alma empregue na interpretação duas das mais fortes características da sua actuação. Em Cascais interpretou o Fado Corrido, o Fado Versículo e o Fado Lopes.

 

Joana Amendoeira12

Joana Amendoeira é das mais conceituadas fadistas da actualidade, principalmente no estrangeiro onde esgota salas regularmente. “O que é que eu digo à saudade”, “Meu Portugal Meu Amor” e “Sete Colinas” (“Senhora do Tejo”) foram os temas por si correctamente interpretados. A sua presença em palco cria facilmente empatia com a plateia, sendo isso notório em Cascais. Em declarações ao Infocul destacou o facto de “durante cinco anos ter cantado no Sr. Vinho. E poder cantar os poemas de José Luís Gordo naquele seu espaço foi algo muito importante para mim” recordando ainda a “enorme sensibilidade” do poeta.

Numa noite extremamente quente surgiu em palco um vendaval de talento e garra de seu nome Fábia Rebordão. Quiçá motivada pelo seu novo disco prestes a sair, mostrou-se imperial em palco conquistando o público logo no primeiro tema “Porque Teimas Nesta Dor”, seguindo-se ” Falem Agora” e um suculento e poderoso ”Limão”. Fábia Rebordão tem potencial para uma ser das melhores artistas femininas em Portugal, fruto do talento natural, poder vocal e uma presença em palco contagiante. O Infocul falou com Fábia antes de subir a palco, que nos disse que “José Luís Gordo é um marco na história da música portuguesa, a sua obra é muito importante não só para os fadistas mas para todos aqueles que gostam do Fado. É algo de precioso”.

 

Jorge Fernando

O penúltimo artista a prestar a sua homenagem a José Luis Gordo foi Jorge Fernando. É talvez dos maiores génios que a música em Portugal conheceu e conhece, e em Cascais contou com um coro a acompanhar os seus temas, o público. Ainda mal tinha pisado o palco e já recebia estrondosa ovação, que se repetiria no final dos temas interpretados: “Pode Ser Saudade”, “Boa Noite Solidão” e “Quem vai ao Fado”. “Quero elogiar Cascais por homenagear uma das maiores figuras do fado” disse em palco.

 

Maria da Fé

Um dos momentos mais arrepiantes da noite foi conseguido com Maria da Fé, um monumento vivo do Fado. A sua interpretação é visceral e comovente. Ouvi-la cantar “Valeu a Pena” ou “Cantarei até que a Voz me Doa” é uma experiência única, pela alma com que o faz. Em palco agradeceu aos mentores da homenagem feita ao “meu marido, pai das minhas filhas e avô das minhas netas. É o homem com quem estou casada há mais de 50 anos”, elogiando ainda o poeta, mesmo dizendo que poderia ser “suspeita” para o elogiar.

 

Jose Luis Gordo1

No final do espectáculo José Luis Gordo subiu ao palco para ser homenageado pela autarquia de Cascais. Mostrou-se emocionado e ainda pudemos ouvir, pela sua voz, “Senhora do Livramento”, momento no qual os artistas que actuaram esta noite se lhe juntaram para cantarem todos juntos numa despedida em festa. Uma festa merecida a um poeta que tanto deu, e dá, a este país.

Cascais teve ontem uma noite de emoções fortes, quer pela temperatura que se fazia sentir, quer pela qualidade do espectáculo que recebeu. Destacamos aqui algumas palavras do produtor Miguel Capucho ao Infocul nas quais relata que este elenco foi “escolhido tendo em conta que eu sei que hoje virão pessoas muito novas mas também idosas, e portanto tentei trazer artistas que são referências para as gerações mais novas e também para as mais antigas”, destacando que “não tenho a certeza, mas penso que esta seja a primeira grande homenagem feita de forma tão directa ao José Luis Gordo”.

Rui Lavrador

Fotografia de Topo: João Gouveia (Arquivo José Luís Gordo)

Fotografias da Reportagem: Alfredo Matos

(Uma Partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Infocul)