Fado, Futebol e Fronteiras : Três Éfes Esmiuçados por Carlos Norton
  1. Onde passam férias os algarvios? (Fronteiras)

Somos pouco mais de 400 mil no Algarve, ou seja representamos menos de quatro por cento da população nacional, e todos os anos acolhemos os milhões de portugueses (e não só) que vêm para este Sul. Atrevendo-me a etiquetar os estratos sociais consoante o destino de férias, agrupo-os em três: Os que não têm dinheiro que permita sequer a menor deslocação e ficam por casa (número infelizmente grande); os que têm dinheiro em abundância e escolhem destinos exóticos; e os que estão num patamar intermédio (e que representam a maioria) e vêm para o Algarve. Há ainda outros grupos pequenos, marginais, com estilos de vida alternativos, mas desprezáveis pela dimensão (atenção que utilizei um A e não um I). Por isso é normal que durante uns meses todos os holofotes apontem para aqui.

Mas e nós, algarvios, para onde vamos? Pergunta que nunca se porá a alguém de fora, imagino. Estes 400 mil, terão destinos de férias? Metade trabalha o Verão inteiro e por isso nem tem férias. Para os restantes mantenho a mesma tipologia dos grupos: os que não têm dinheiro ficam em casa e vão à praia ali ao lado (felizmente aqui há sempre uma ao lado, ao contrário dos de Beja, da Guarda ou de Sendim); os de nível intermédio viajam dentro do Algarve, com trocas entre Barlavento e Sotavento, com os de Silves a irem para a Ilha de Tavira, os de Faro a irem para Aljezur; e depois há os outros, abastados, que vão para o estrangeiro para sítios exóticos.

Agora que me tornei colaborador deste magnífico pasquim digital, pertenço obviamente à última categoria, por isso fui de férias para fora, para a excentricidade e exotismo da costa alentejana. Fantástica sensação atravessar a ponte que separa Odeceixe de Baiona, o Algarve do Alentejo, a minha terra do resto do mundo. Pareço o Infante D. Henrique, cacete!

Imoral da história: a noção de fronteira é tão volátil ou real quanto o ensejo de a atravessar.

 

  1. O meu clube é o maior! (Futebol)

Durante as minhas estupendas férias por terras alentejanas, calhou estar num parque de campismo e calhou um dia haver jogo de futebol da selecção olímpica, mais propriamente o Portugal-Alemanha, quartos-de-final. Uma hipotética passagem daria a estatística probabilidade de 75 por cento de conseguirem uma medalha (para fazer companhia à solitária de Telma Monteiro).

1ª Nota do Autor: por favor leiam em tom de discurso narrativo futebolístico, que é de bola que se trata:

Vou para o bar do campismo. Na dianteira, o ecrã. Ele está lá, meus amigos, ali, grande, enquadrado, brilhante. Ali onde tudo acontece, a nossa selecção sofre um golo. O público está nervoso, quer gritar golo de Portugal. A selecção das quinas sofre outro, já vão dois e o público sofre. Uma nação inteira sofre. Inteira? Não. É o momento do jogo ao minuto 60. Pela porta lateral do café entram os adeptos suplentes. Têm orgulho na camisola verde que envergam. E eles gritam, meu povo, gritam a quem de direito “Muda de canal”, “Queremos ver o Sporting”. Dos adversários há quem se insurja. Ouve-se de um banco “Isto é a Selecção”, rapidamente driblado com um “Exacto, é só a selecção dos miúdos, nós queremos ver o Sporting”. De um canto é magistralmente arremessado para o miolo da sala, num passe milimétrico um “Está 2-0, já perderam, não vale a pena ver mais”.

O dono do bar hesita e dá a lei da vantagem. Continua o esférico a rolar com os miúdos. E eis que quando o duelo nas bancadas está num impasse, ouve-se a euforia dos adeptos verdes. A Alemanha marcou golo e eles festejam como se tivessem conquistado uma Liga dos Campeões. “3-0, agora é que já não há mesmo hipótese; muda!”. E o dono do bar mudou. A selecção olímpica de futebol continuou o jogo no Brasil, enquanto algures no Alentejo jogava um Sporting verde.

Imoral da história: A noção de nacionalidade e do espaço territorial é moldável às necessidades momentâneas e a conveniências fortuitas.

2ª Nota do Autor: De futebol, gosto simplesmente da selecção e do meu clube, um dos que não tem direito a capa de jornal. Percebo pouco e gosto ainda menos de discutir futebol e nunca me passaria pela cabeça escrever sobre tão mundano assunto. Mas aqui é outro Fado.

 

  1. A cantar nos (des)entendemos (Fado)

A música é outra quando se fala de futebol, mas assemelham-se aos olhos dos estrangeiros. Há uns tempos, Eusébio e Amália eram os nomes que corriam pelas bocas do mundo. Hoje o Ronaldo substituiu Eusébio e a Amália foi trocada pelas novas gerações. Mas será o Fado a nossa selecção?

É o género musical mais exportado, é o que tem mais destaque na imprensa internacional e na opinião pública. Há artistas estrangeiros que cantam fado, exemplos do Japão com Kumiko Tsumori ou dos Países Baixos com Nynke Laverman (e ela canta em Frísio) entre tantos outros por esse mundo fora. É essencialmente o que nos traz o maior orgulho “nacional”. É criado um espaço chamado “O Fado & Outras Músicas do Mundo”. Isso faz com que seja o género que mais simboliza o país.

O Fado é a música portuguesa, mas o vice-versa já não funciona. Até porque aqui entra em jogo a questão territorial, ou seja, cultural. Somos um país pequeno e uno, mas ainda assim, felizmente, culturalmente diversificado.

Imaginem soar por terras de Monchique o “Lisboa Menina e Moça”, por Serpa o “Fado da Mouraria” e em Bragança a “Nova Tendinha”. Da mesma forma imaginem ecoar pelas ruas de Alfama um Corridinho, Cante Alentejano ou um grupo de Gaiteiros. Tudo é possível, tudo é válido, mas será tudo genuíno? Ou remetemos para a origem cada tradição? De onde vem o Fado, então? Ou o cante alentejano, ou a chula, o corridinho, o vira ou o diabo a quatro? E vamos mais longe e saber de onde provém o fandango, o tango, o mango, a morna, o samba, o ska, o se-queres-que-te-diga e o diabo a sete, a nove ou a onze?

 

Imoral da história: Um gaiteiro de Mafra que gosta de vira, toca um corridinho quando baixa de Odemira!

3ª Nota do Autor: Cuidado ao atravessarem a ponte de Odeceixe, pois do lado Sul, na vila de Odeceixe apenas poderão ouvir e/ou tocar um corridinho, e na parte Norte, em Baiona, só vai de Cante. Está lá a fronteira a delimitar musicalmente a escolha.

 

  1. Fado, Futebol e Fronteiras

À pergunta do ponto anterior, respondo simplesmente: DO MUNDO. E é isso que é belo. É por isso que se chama Música do Mundo. A música enquanto expressão artística, mesmo sendo manifestação cultural de uma tradição local, é música, é universal. É de todos e para todos.

As fronteiras políticas são baseadas em decisões, acordos, guerras, conflitos, discussões, negócios. Existem ou não as fronteiras da Escócia, Catalunha, Bretanha, Córsega (certo, é uma ilha mas…), Algarve? Talvez, talvez não. Talvez não hoje, talvez amanhã.

Quanto ao futebol, já nem discernimento existe para poder haver alguma lógica na razão. Para muitos é meramente um combate de uma territorialidade selvagem, primitiva. Reminiscências dos tempos em que representantes da cidade mediam forças com outros de cidades vizinhas, panos com as cores embandeirados em todas as casas, defesa aguerrida da “nossa” terra. Hoje os miúdos já não pertencem ao clube das suas cidades. Querem ser do que está na berra, mesmo que o estádio esteja a setecentos quilómetros de distância e onde falam de maneira esquisita. E discutem com os colegas de primária “O meu clube é melhor que o teu!”.

Felizmente na música poucas ofensas ocorrerão (sabendo sempre que a estupidez humana é ilimitada, mantenhamos o nível razoável do ser humano). Alguém no Algarve se importaria se aparecesse em Tavira um grupo de adufeiras da Beira Baixa? Alguém ficaria ofendido? Alguém insultaria e começaria uma luta?

Às tradições musicais pouco importam as fronteiras institucionais, cívicas e políticas. Não há ódios, rivalidades nem invejas. Há música.

Há música de todos que é música do planeta, no conjunto de todas as regiões, cantinhos, vales, aldeias. Há Música do Mundo. Sem fronteiras construídas pela repulsa.

E não é só de fronteiras que estamos livres, até mesmo na estética musical, nas melodias e nos ritmos, há pluralidade, diversidade e acima de tudo LIBERDADE!

Mas isso são assuntos para outras narrativas…

 

Imoral da história: Magnífico pasquim digital, abençoado pela mensagem de harmonia que transmites a quem te alcança, fadado pelo Fado que nos fada.

4ª Nota do Autor: Para terminar, depois do colchão alentejano acabei as minhas férias no Algarve, na Feira Medieval de Silves. Durante o jantar, no meio de imensa multidão, a minha pequena grande amiga de sete anos, francesa, pergunta se com tanta gente poderá haver um atentado. A mãe responde-lhe que não,” estamos em Portugal”. Vinte minutos depois, ouve-se do alto da torre uma voz em árabe, qual Almuadem que chama para as orações do alto da almádena. É homenagem a Ibn Qasí. E eu penso: “estamos no Algarve”…

 

Carlos Norton

(Nota final: a imagem que encabeça este texto foi retirada do cartaz do filme “The Music of Strangers – Yo-Yo Ma & The Silk Road Ensemble”)