Amália… Canta Portugal : Canção a Canção, por Frederico Santiago

Foto Augusto Cabrita/Valentim de Carvalho

Frederico Santiago é o incansável investigador da obra de Amália Rodrigues que tem enquadrado, explicado e dado sentido a muitas das mais recentes edições em CD, através da Valentim de Carvalho, da obra da maior das fadistas. Depois de “Amália no Chiado”, “Fado Português”, “Tivoli” e “Someday”, é ele também o coordenador da edição de “Amália… Canta Portugal”, que chegou há duas semanas às lojas. O duplo-CD reúne todas  as canções de Amália baseadas na música tradicional portuguesa e inclui temas dos LPs “Amália Canta Portugal” (1965), “Amália Canta Portugal II” (1967), “Amália Canta Portugal III” (1972), de vários singles e EPs – nomeadamente os que dedicou a temas de José Afonso -, gravações ao vivo no Hollywood Bowl (Estados Unidos) e no Mosteiro dos Jerónimos, versões inéditas em disco de “Tia Anica de Loulé” e “Verde Limão” e ainda algumas raras gravações de ensaios e outtakes das sessões de estúdio. O Fado & Outras Músicas do Mundo publica aqui as notas de Frederico Santiago sobre todas as canções incluídas no CD. Valiosas notas em que se revela, por exemplo, como um engenheiro-de-som (o lendário Hugo Ribeiro), um maestro (Joaquim Luiz Gomes) e um dos maiores cantautores nacionais (o já referido José Afonso) ajudaram a moldar a obra da lisboeta-beirã-cidadã do mundo Amália Rodrigues.

 

 

amalia_canta_portugal_capaO Cancioneiro Popular de Amália
Quem conhece os estudos do folclore português anteriores a estes discos de Amália, facilmente pode julgar o cancioneiro popular aqui reunido uma espécie de “contrafação folclórica” – expressão usada por Fernando Lopes Graça, n’A Canção Popular Portuguesa, de 1953, quando critica os “fornecedores do repertório musical ligeiro [que] inundam o mercado com os seus ‘arranjos folclóricos’” e a forma como “as vedetas da rádio brilham no ‘estilo folclórico’”. Mas na voz de Amália o folclore nunca é uma falsificação.

“Se fosse de um rancho folclórico cantava exatamente como canto e ninguém me mandava cantar de outra maneira (…) Canto como uma pessoa que anda a cantar no campo, ou na rua. É mesmo cantar cantando”. E Amália também se diferencia: “As autênticas cantoras de folclore têm aquelas vozes lá em cima. As cançonetistas não têm nada a ver. É um cantar cantado. “ (Vítor Pavão dos Santos, Amália Uma Biografia, 1987).

Se o “cantar cantando” de Amália conserva a emissão natural e o despretensiosismo do canto popular, o seu gosto leva-a por vezes a modificar, e até criar, repertório, misturando quadras de diferentes regiões e ousando novos andamentos em melodias tradicionalmente cantadas doutra forma – nada que os “verdadeiros” intérpretes do folclore não façam. Amália, segura das suas raízes e da sua autenticidade num género que nunca viu a uma distância científica, criou um cancioneiro seu, que sem precisar de selos de legitimidade levou ao grande público, tal como tinha feito com o Fado. Se Amália não os tivesse cantado, ter-se-iam tornado o “Malhão de Águeda” ou a “Tirana de Paços” tão universais, e ao mesmo tempo tão identificáveis com Portugal?

Algum deste folclore foi também um surpreendente impulsionador de alegria nos seus recitais – a genial concepção de espectáculo que Amália sempre teve inventou alinhamentos perfeitos de dramatismo e euforia. E, se no início foi sobretudo a canção espanhola a fazer esse contraste, a partir dos anos setenta seria o folclore português a conseguir a comunhão rítmica com o público, que tão bem preparava ou desanuviava toda a tragédia que atingia no Fado. O folclore também foi, cronologicamente, o último género conquistado por Amália. Depois do fado tradicional e das marchas de Lisboa; depois das canções e dos fados musicados, trazidos do teatro; depois do flamenco, cantigas brasileiras, rancheras e dos outros “cancioneiros” estrangeiros que foi experimentando; e depois do “fado erudito” de Alain Oulman, Amália graças ao folclore, encarnou de forma ainda mais sedutora a alma musical portuguesa.

“A minha família vem da região da Beira-Baixa, onde os camponeses, ao trabalhar a terra, entoavam cantos populares transmitidos de pai para filho, e descendentes directos da escola gregoriana. Transmissão pelo sangue com influência da melhor modulação. Acredito que aprendi a cantar antes de falar.” (entrevista Oggi 5.9.1972)

Canção a Canção:

Canta Portugal I

Amália sempre sonhou fazer um disco de folclore com a mãe. “O folclore da Beira-Baixa, seguido imediatamente do alentejano, para cantar são os melhores. Andava há imenso tempo para gravar um disco com a minha mãe com folclore da Beira-Baixa, [mas] a minha mãe quando ia para cantar envergonhava-se toda e já não cantava” (entrevista de Bruno de Almeida, 1994). Seria em 1965 que Amália (sozinha e com orquestra) gravaria o tão ansiado primeiro disco de folclore: “os arranjos foram bem feitos, bonitos e o folclore escolhido daquela vez foi o melhor folclore que havia para cantar” (entrevista de Bruno de Almeida, 1994). As orquestrações e a direcção de orquestra foram de Joaquim Luiz Gomes e de Jorge Costa Pinto, e a maior parte das versões usadas foram adaptadas do álbum Cantigas de Portugal, de Alexandre Rey-Colaço. Esse álbum para canto e piano de 1922, no qual o famoso pianista compilou trechos populares, foi trazido por João Belchior Viegas, para que dele se aproveitassem “versões estruturadas e facilmente orquestráveis” de algumas cantigas conhecidas por Amália.

amalia-canta-portugal-hugo-ribeiro

 

Tirana

Em 1958, Hugo Ribeiro (foto ao lado), no extenso registo de grupos folclóricos feito pela Valentim de Carvalho, gravou esta “Tirana de Paços”, pelas Cantadeiras de Paços de Brandão. É o primeiro exemplo da importância que o técnico de som teve na escolha de algum deste repertório. Foi Hugo Ribeiro que apresentou a Amália muitas das cantigas destes discos. Voltaria a gravar “Tirana”, com guitarras, para o seu terceiro disco de folclore, em 1972.

Senhora do Livramento
Esta cantiga foi recolhida no Fundão por Armando Leça, embora seja conhecida também por “Rogativa de Portel” e a primeira estrofe apareça no Cancioneiro de Serpa. A versão usada vem do referido álbum Cantigas de Portugal, de Alexandre Rey-Colaço (n.o 6).

Malhão de Cinfães
Em 1949 Augusto do Amaral, quando fundou o Grupo Folclórico de Cantas e Cramóis de Pias, criou também este “Malhão” – ex-libris do Rancho de Cinfães. Em 1956 seria gravado por Hugo Ribeiro, que o levaria depois a Amália. Gravou-o de novo em 1972, com guitarras, para o seu último LP de folclore.

Don Solidon
Esta cantiga estremanha foi também adaptada da versão do álbum de Alexandre Rey-Colaço (n.o 25).

Nós Atrás das Moças
Tomás Borba recolheu esta cantiga em Oliveira de Cunhedo (actual Oliveira do Mondego). Generalizada por todo o país, era decerto conhecida por Amália desde muito nova, pois era cantada também na Beira-Baixa.

O Trevo
A “Cantiga Bailada de Aviz” foi recolhida por Rodney Gallop, no Alentejo, e por Armando Leça, na Beira-Baixa. Orquestrada por Jorge Costa Pinto a partir, mais uma vez, da versão do álbum Cantares de Portugal (n.o 8), viria a ser um dos êxitos maiores do folclore cantado
por Amália.

Mané Chiné
Cantada em Trás-os-Montes e nos Açores, foi levada para o arquipélago, ao que parece, por migrantes do continente. Logo no mês desta gravação, Fevereiro de 1965, já Amália a cantava, à guitarra e à viola, na televisão francesa.

Rapariga Tola Tola
Era cantada na Beira-Baixa e no Alto Alentejo esta cantiga de belíssima melodia ornamentada (quase “belliniana”), que aparece também adaptada do álbum Cantigas de Portugal (n.o 43).

Minha Mãe me Deu um Lenço
Cantiga alentejana, adaptada também da versão de Alexandre Rey-Colaço (n.o 14).

Lá Vai Serpa Lá Vai Moura
Outra cantiga alentejana, cuja primeira estrofe aparece no Cancioneiro de Serpa. Foi também adaptada do álbum Cantigas de Portugal (n.o 44).

Rosa Tirana
Esta cantiga vem no Cancioneiro Popular Duriense. A primeira estrofe, recolhida em Leça da Palmeira, em 1887, era cantada pelas mulheres ovarinas. Mais uma vez se usou a versão de Alexandre Rey-Colaço (n.o 20).

Erva Cidreira do Monte
Nesta cantiga usou-se mais uma vez a versão de Alexandre Rey-Colaço (n.o 41). Foi certamente o brilhante contraste de andamento entre a primeira e a segunda secção que a tornou abertura de todos os concertos de Amália com orquestra, em 1966 e 1968, nos Estados Unidos.

Tia Anica de Loulé
Esta famosa cantiga algarvia, recolhida em diversas regiões do Algarve por Armando Leça, foi gravada por Amália nas sessões de 1965 mas ficou até hoje inédita.

 

Canta Portugal II

O segundo disco de folclore, gravado em 1967 e publicado apenas em 1971, seria o mais “sinfónico” de Amália, o que parece não a ter entusiasmado: “Eu canto só metade das cantigas e o resto é tudo orquestra. A orquestra anda ali a passear-se muito tempo.” (Vítor Pavão dos Santos, Amália Uma Biografia, 1987) Apesar desta opinião – justificável talvez pela complicada roupagem dada a muitas “cantiguinhas” da sua infância –, é um disco do auge vocal de Amália, de orquestração envolvente, com momentos notáveis e até ousados, onde Joaquim Luiz Gomes (foto em baixo) mostra a sua enorme experiência.

amalia-joaquim-luis-gomes

 

Malhão de Águeda
Este Malhão, gravado antes pelo Rancho Típico Cancioneiro de Águeda, seria o trecho de folclore mais cantado por Amália até meados dos anos setenta. Em muitas interpretações ao vivo, Amália trauteava também o hipnotizante acompanhamento entre as estrofes, que repetia por vezes até ao delírio.Voltaria a gravá-lo em 1970, com guitarras, para um single.

Martírios
Amália canta apenas o primeiro verso de uma cantiga do concelho do Fundão, recolhida mais tarde, em 1970, por Michel Giacometti na freguesia de Alcongosta.

Oliveirinha da Serra
Esta cantiga alentejana foi recolhida também noutras regiões (na Beira-Alta, por Armando Leça, ou na Estremadura, por Rodney Gallop). Das mais generalizadas pelo território, estaria certamente nesse “primeiro cancioneiro” de Amália.

Quando Eu Era Pequenina
Mais uma cantiga que nos leva às raízes de Amália. “Cantiga Bailada Cantada com Adufe na Romaria de Nossa Senhora da Póvoa”, assim a designa Rodney Gallop, que a recolheu na Beira-Baixa, onde também seria recolhida por Armando Leça, ou, com ligeiras diferenças, por Fernando Lopes-Graça.

Senhora d’ Aires
Nesta cantiga juntam-se dois temas do Alentejo. A primeira estrofe foi recolhida por Armando Leça, no Baleizão, e por António Marvão, na Vidigueira. No Cancioneiro Popular Português, de Michel Giacometti, é designada “Canto de Romeiros”. O segundo tema foi recolhido por Armando Leça, em Cuba.

Maçadeiras
Esta “Cantiga para maçar o linho” – assim a chama Michel Giacometti –, foi recolhida na Póvoa de Lanhoso, por Gonçalo Sampaio, que a intitula “Coro arcaico de mulheres”, no seu Cancioneiro Minhoto. Existe uma terceira estrofe, que Amália não gravou.

Lírio Roxo
Cantiga alentejana, do Cancioneiro de Serpa. Amália canta apenas duas das quatro estrofes presentes nesse cancioneiro.

Todos me Querem
Esta cantiga minhota, depois generalizada por todo o território, sempre foi cantada e dançada por vários ranchos.

Senhora do Amparo
Em 1994, Bruno de Almeida filmou uma enorme conversa com Amália no Brejão para o documentário Estranha Forma de Vida. Num momento que depois não seria usado, ela trauteia esta cantiga da Beira-Baixa e comenta: “Ouvia a minha mãe cantar. Esta aprendi logo. A minha mãe tinha um vozeirão que acabava com tudo o que cantava.” Ainda a propósito destas cantigas, que ouvia desde criança, tal como o “Nós Atrás das Moças”, diz: “O Frederico de Freitas, o maestro, disse que eu trouxe para o Fado os melismas, que é essa coisa da Beira-Baixa.”

Rosa Branca ao Peito
Esta cantiga, recolhida por Armando Leça no Douro Litoral, e que aparece também, com variantes, no Cancioneiro de Serpa, é um dos mais conhecidos e divulgados temas populares portugueses. Joaquim Luiz Gomes já a tinha harmonizado em 1949, em versão para coro e orquestra.

Trovisqueira
Esta melodia está normalmente associada à quadra que começa com o verso “ao passar o ribeirinho”, do cancioneiro do Alentejo. No entanto, Amália insere outras quadras. A última foi recolhida na Beira-Alta.

Passarinho
Esta cantiga, de entre Douro e Minho, foi recolhida em Famalicão, em 1936, pelo maestro Afonso Valentim.

Caracóis
Mais uma cantiga do folclore com a qual Amália fez um sucesso imenso. O tema, proveniente do Rancho da Casa do Povo de Almeirim, é gravado por Hugo Ribeiro em 1959, que o leva depois a Amália. Esta sua primeira gravação, com orquestra, e que mantém o rapidíssimo
andamento original do rancho, permaneceu até agora inédita. Voltaria a gravá-la, com guitarras, em 1968.

(…) Nos anos sessenta, Amália levou para o seus recitais, à guitarra e à viola, algumas cantigas de folclore. Esse repertório, sempre em união com o Fado, seria ainda mais frequente na década seguinte. A partir de então, Amália ocupa um lugar cimeiro na música Folk do século XX.
Dona de uma vocalidade sem rival noutro cantor desse género, e de uma experiência de palco avassaladora, pode seguir amplamente o seu instinto improvisador, graças  também a um notável quarteto de acompanhadores. E assim, com toda a liberdade que as “suas” guitarras lhe permitem, grava um novo álbum de folclore, no Verão de 1972.

Fadinho da Ti Maria Benta
Tal como “Caracóis”, esta cantiga foi criada pelo Rancho Folclórico da Casa do Povo de Almeirim, e tinha sido gravada por Hugo Ribeiro em 1959, que a levou depois até Amália. O imenso êxito destas duas cantigas na voz de Amália segue o sucesso desse rancho folclórico, que chegou a ganhar o 1.o prémio, no VII Festival Internacional de Folclore de Agrigento, na Sicília, em 1960.

Abana
Com ligeiras variantes, estas quadras vêm no Cancioneiro Geral dos Açores, de Armando Côrtes-Rodrigues.

Malhão de São Simão
Também esta cantiga do Douro chegou a Amália através de Hugo Ribeiro, que a gravou em 1968, pelo Rancho de São Simão da Junqueira.
Estaria em quase todos os recitais da década mais “folk” de Amália, a de setenta.

Maria Rita Cara Bonita
Cantiga alentejana, executada por vários grupos corais, e que tinha já sido gravada por Tonicha com orquestração de Joaquim Luiz Gomes.

Rosinha da Serra d’ Arga
Esta cantiga minhota, gravada em 1960, pelo Grupo de Dem, foi também levada a Amália por Hugo Ribeiro. Uma sexta estrofe, cantada pelo rancho, não foi gravada por Amália.

Valentim
É mais uma cantiga trazida por Hugo Ribeiro, que a tinha gravado, pelo Rancho Folclórico de Barcelinhos, em 1961. Amália não gravou a última estrofe cantada pelo rancho.

O Pézinho
Também esta “Moda do Pézinho” tinha sido gravada primeiro por Hugo Ribeiro, em 1958, pelo Grupo Folclórico de Rebordões, de Santo Tirso.

Verde Limão
Este tema, cantado no Minho e na Beira-Alta, foi gravado em 1959 pela irmã de Amália, Celeste Rodrigues. Foi uma das cantigas de folclore mais interpretadas por Amália ao vivo, sempre com duas estrofes apenas, e muitas vezes a abrir os seus recitais. É um inédito absoluto, que se julgava nunca ter sido gravado por Amália em estúdio.

 

Amália canta José Afonso

amalia_jose_afonso

José Afonso (foto ao lado) não terá gostado, mas anos depois, interrogado pela própria Amália, dirá: “Se a senhora não canta bem, quem é que canta bem?”. “Grândola” não era a primeira canção de José Afonso gravada por Amália. Em 1970, apaixonada pelos dois primeiros temas do LP Cantares do Andarilho, tinha experimentado “Natal dos Simples” e “Balada do Sino”, em versões até agora inéditas, com guitarras, bem ao jeito do álbum original do autor.
Ainda nesse ano gravaria as versões com orquestra que seriam publicadas na
época, e uma segunda voz para “Natal dos Simples”, que não chegaria a ser usada
(presente nos extras desta edição).

Natal dos Simples
Esta canção deu título ao single de Amália, com canções de José Afonso, publicado no Natal de 1970. Tinha sido, também, o primeiro tema de Cantares do Andarilho – o já referido LP, de 1968, onde “Zeca alia a sua criatividade à mais genuína inspiração popular, quer através da utilização de melodias tradicionais (…), quer tomando-as apenas como um ponto de partida para a criação de novos temas” (Viriato Teles, As Voltas de Um Andarilho, 2009). Nesta canção, que se diz ter sido inspirada em parte no canto da Guerra Civil Espanhola “Los Cuatro Generales”, José Afonso remete para o humilhante costume de mendigar pão à porta dos “grandes senhores”, enquanto se cantava as “Janeiras”.

Balada do Sino
Era a segunda canção em Cantares do Andarilho, de José Afonso, e o lado B de Natal dos Simples, de Amália. Esta máscara natalícia talvez tenha afastado dúvidas, fossem elas de conotação política (tanto dentro do moribundo regime, como na oposição), ou de apropriação de repertório – não se esqueça a embirração que parte do público de Zeca tinha por Amália.

Grândola, Vila Morena
A primeira versão do poema foi escrita, em Maio de 1964, por José Afonso no “rescaldo” da sua ida à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Entre ela e a gravação de 1971 – para o álbum Cantigas do Maio –, não só compôs a música como escreveu uma nova segunda estrofe. Gravaria esta canção à maneira do Cante alentejano, repetindo as quadras com a ordem invertida dos versos – estrutura respeitada por Amália. A solene e visceral versão de Amália potencia toda a tragédia mediterrânica da canção e o seu lado ritual, tão próximo do canto popular. Amália chegaria a cantá-la ao vivo nesses primeiros tempos de esperança do pós-revolução (que depressa se tornariam de desilusão e de amargura para ela). Ao vivo, e em coro com o público, acentuava ainda mais esse sentido de hino, liderado pela voz que melhor encarna o povo português.

Alecrim
É uma das cantigas populares mais generalizadas pelo território, embora seja provável ter origem no Alentejo.

Malhão
O “Malhão de Gulpilhares” – a versão mais conhecida do Malhão – foi o último a aparecer no repertório de Amália e rapidamente se tornou no mais cantado ao vivo. É a única versão de estúdio.

Bailinho da Madeira
Esta cantiga foi criada, em 1938, por João Gomes de Sousa (o “Feiticeiro da Calheta”), para o Rancho Folclórico do Arco da Calheta. Mas seria Max, em 1949, que a tornaria célebre, com o seu arranjo do tema. É esta a versão cantada por Amália.

Frederico Santiago