Coisas do Arco da Velha (III) : Brian Eno & David Byrne – “My Life In The Bush Of Ghosts”

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Brian Eno & David Byrne

My Life In The Bush Of Ghosts

LP/CD Sire Records, 1981

 

Escapando a cada tentativa de catalogação, “My Life In The Bush of Ghosts” é como uma serpente que desliza e se contorce,  devido à riqueza de ideias e de estímulos que lentamente se acumulam na mente do ouvinte, e que desconcertam e desestabilizam pelo seu contraste. Na verdade, é difícil descrever com facilidade este disco. Poderíamos chamar-lhe, por exemplo, uma das variantes mais bem-sucedidas de uma época única na história da música pop grosseiramente intitulada de “rock”, no caso do pós-punk, ou uma ousada tentativa de criar “nova” música edificada nos alicerces da música de cariz regional, neste caso África, e misturá-los com sugestões e fragmentos de sons mais conhecidos, a fim de alcançar algo mais, num processo de criação e fruição puras. Por mim baptizo-a como etno-avantgarde, ou a erupção pós-moderna, nos anos 80, de estilos e técnicas tribais e funky esterilizado ao “abrigo” da Aldeia Global vaticinada por Marshall McLuhan.  

A colaboração entre Brian Eno e David Byrne inicia-se em 1978 quando Eno produz o segundo álbum dos Talking Heads, “More Songs About Buildings and Food”. De imediato é visível a sua influência na música do quarteto nova-iorquino, ao ponto de o apelidarem de “o quinto Talking Head”. Eno e Byrne são duas mentes brilhantes que gostam de músicas do mundo, de vários géneros musicais de vanguarda – Eno considerava a música avant-garde uma espécie de música de investigação – e de  brincar com conceitos, ritmos e harmonias virando-os do avesso.  

O primeiro vislumbre de etno-avantgarde (está baptizado!) acontece emFear Of Music” (1979): “I Zimbra”, um impressionante tribal-funk com Byrne recitando um poema dadaísta de Hugo Ball, com desenvolvimento naquele que é provavelmente o melhor álbum dos Talking Heads: “Remain in Light” de 1980. No ano seguinte, e assinado por ambos, acontece este deslumbrante “My Life In The Bush of Ghosts”, título de uma novela do escritor nigeriano Amos Tutuola, um registo enigmático de sinuosas trajectórias, com passagens por África, Médio Oriente e Nova Iorque, e que, até então, explorado anteriormente nas incursões étnicos de John Cage, no experimentalismo de Holger Czukay ou no minimalismo de Steve Reich (“Music for Pieces of Wood”,1973).

Intencionalmente, Eno e Byrne, criaram um trabalho fronteiriço pois “My Life In The Bush of Ghosts” move-se, a vários níveis, entre mundos aparentemente opostos: Oriente e Ocidente, o vanguardismo e o tradicional. Recuperaram gravações de pregadores evangelistas, sermões, canções tradicionais, como são o caso das cantoras libanesas Dunya Yunis e Samira Tewfik, e, inclusive um exorcismo, para conceber ambientes sonoros imprevisíveis de funky e música tribal, “assessorados” por uma panóplia de guitarras, sintetizadores, percussão (congas, bodhrán, etc) executados por músicos de excepção, como o são Bill Laswell, Robert Fripp, Busta Jones, David Van Tieghem e ainda Chris Frantz e Tina Weymouth (Talking Heads/Tom Tom Club).

No LP original, a primeira parte é uma surpresa contínua, abrindo com a espavorida “America Is Waiting” em que um radialista indignado debita palavras que se desvanecem num frenesi de soluços, em oposição ao ritmo metódico e implacável. “Mea Culpa” tem ritmos densos que sugerem uma cerimónia de feiticeiros africanos no Central Park ou no South Bronx; e “Regiment” é o arquétipo de todos os etno-pop que se seguiriam, em que os sintetizadores evocam o Simun, o vento forte do deserto, sob a arrebatadora e exótica voz de Dunya Yusin, e com o baixo de Busta Jones em destaque. Dose igual acontece na terceira faixa do lado B, “The Carrier”. E o que dizer de “Somebody Help Me”, um sermão do reverendo Paul Morton, convertido numa frenética canção de múltiplos ritmos em que o pregador mais parece um Little Richard a tripar. E por fim “The Jezebel Spirit”, um exorcismo real, que também o é no ritmo avassalador das guitarras.

O nostálgico lado dois, para os melómanos do vinil, tem como abertura “Qu’ran” (Corão), tema com base nos cantos do Corão e que viria a ser substituída, nas edições posteriores, por “Very Very Hungry”, após os veementes protestos de uma organização islâmica britânica que a considerou blasfema. A «suplente» ” Very Very Hungry” é uma curiosa experiência na reprodução in vitro de uma noite na selva, com a peculiaridade da voz ser fragmentada em poucas sílabas, e “Come With Us” a visão da América mais intolerante e extremista.

Acontece, repetidamente, ler numa recensão: Um dos maiores álbuns jamais lançados. Normalmente tais julgamentos revelam-se exagerados mas de vez em quando, como no caso desta obra-prima, a frase faz todo o sentido. E quer se goste ou não, a verdade é que a influência de “My Life In The Bush of Ghosts” na música futura foi determinante para as técnicas de produção, para o desenvolvimento do hip-hop, os devaneios etno-pop e para a revalorização da denominada world music.

Discos similares: João Aguardela – “Megafone”; Dissidenten – “Sahara Elektrik”; Roberto Musci – “Water Messages on Desert Sand”

Orlando Leite