A Moda da Desmoda : Uma Rubrica de Carlos Norton

Começa o Outono e para trás ficaram os muitos festivais de Verão. Houve festivais para todos os gostos, idades, credos e fantasias. Festas de aldeia, eventos de grande envergadura, pequenos apontamentos locais, megalomanias camarárias, cartazes para a tia finesse e para o Zé Povinho. Denominador comum? Neste ano de 2016: Fado. Fado com fartura, a torto e a direito, em tudo o que foi evento neste país. Fado para todos, a pontapé, à mão cheia e às carradas.

Ai Fado, Fado, quem te viu e quem te vê. Já ficaste na glória das casas de fado ou em cerimónias solenes, em festivais temáticos ou por selectos palcos estrangeiros. Agora cantas para labregos, saloios, bimbos, surdos, finórios ou aventesmas. Vais para todos, quer te ouçam ou não. Porquê? Porque o Fado está na moda! Louvados sejam os tempos!

Tão curiosa a moda na música, tão fascinante quão herética. Um contra-senso per si à própria arte musical, mas enfim, fiquemos pela parte lúdica do som.

Por isso qualquer festa que tenha palco conta obrigatoriamente com um grande nome do Fado. Tem acontecido assim desde há uns anos e não deixa de ser curioso ver públicos heterogéneos (incluindo malta do punk, do rock, do metal, do pop ou do pimba) sentados a ovacionar os artistas e a cantar os temas mais conhecidos. São famílias que se sentam e aguardam horas para ficarem em primeira fila, à espera dos fadistas. E os fadistas são estrelas, fazem digressões, dão autógrafos, andam permanentemente em jornais, revistas e televisões.

Há uma ou duas gerações atrás nada disto era assim…

Havia algum pejo no Fado, talvez pela libertação após o excessivo carinho do Estado Novo, talvez não. A verdade é que desde que apareceram as Armas de Difusão Massiva, cada vez mais as modas, geralmente ditadas externamente, conduzem a uma uniformização gritante do gosto do público. Por isso durante umas décadas só se consumia música de origem anglo-saxónica e os artistas nacionais tinham vergonha de cantar em português, nessa impositiva tentativa de seguir a moda e acompanhar os tempos modernos.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e hoje a vergonha passou para o lado de quem canta em inglês (nunca percebi porque não havia bandas portuguesas de rock ou de pop a cantar em norueguês, esloveno ou árabe). À excepção de alguns géneros musicais específicos, já são uma minoria as bandas que versam em inglês.

Será uma consequência reflexa da globalização que nos torna cada vez mais iguais e como retaliação, o indivíduo procura cada vez mais a sua própria identidade. Por isso regressamos à nossa língua, às nossas tradições, às nossas músicas. Pelo menos uns quantos de nós, pois outros continuam nas modas internacionais. Assim, o mundo divide-se em dois géneros: os que seguem a corrente e os que nadam contra a corrente. Aí entra o conceito de Música Alternativa, onde encaixam até as músicas de origens seculares, pois são literalmente uma alternativa ao que domina. Felizmente, para nós que seguimos este Fado, que as músicas tradicionais, as músicas do mundo, o Fado e outros tantos, foram conseguindo recuperar o seu espaço e estão de novo na Moda. E a prova é o típico cartaz de música que vimos este Verão.

Seguindo as tendências e estando a par destas modas, qualquer programador, qualquer pessoal de uma câmara municipal ou junta de freguesia, soube que era imperativo ter um nome de Fado no cartaz.

É a moda! Mas moda tem por norma um sentido pejorativo, pelo menos para quem como eu está habituado a nadar contra as correntes. Certo é que a moda reflecte a tendência, mas induz geralmente a uma estilização do fenómeno. Se a “coisa” vende, é no ponto ideal, por isso o que está a vender mais é o alvo e objectivo dessa moda. Tudo o que está à volta terá que seguir esse modelo, com o risco de ser ignorado se não o fizer. Quer isto dizer que a música que era alternativa deixou de o ser e passou a ser moda. E tudo o que fuja à corrente passará a ser alternativo.

Se o Fado passou a ser moda, então acabará por estereotipar o modelo. Funciona se for cantado de determinada maneira, com arranjos, instrumentos – ena, tantas baterias! -, discursos e figurinos que estejam na moda. Qualquer fadista que não siga estas indicações, não vende, está fora da moda, é alternativo. E assim a moda que traz o Fado para os grandes palcos, grandes públicos e grandes vendas, poderá empobrecer e castrar a diversidade e a criatividade dentro do Fado. Irónico?

Agora vamos sair do Fado, que muitas modas há por este país fora. Desde a moda da influência da música irlandesa nos anos 90, à actual moda da campaniça, às modas das músicas a metro para danças tradicionais, à moda da recolha local, é só escolher qual a moda, só escolher qual a banda. Assim o fazem os programadores, os ouvintes e os próprios músicos. Uma banda de folk transmontano com vibrofone, trombone-de-varas, didgeridoo e violoncelo? Cante Alentejano com saxofone e bateria? Fado à guitarra eléctrica? Senhores…

Tão curiosa a moda na música, tão fascinante quão herética. Um contra-senso per si à própria arte musical, mas agora deixemos a parte lúdica do som. Porque a música é isso acima de tudo: Arte, manifestação cultural, sentimento, criação. E isso não encaixa em correntes. Não temos que nadar a favor ou contra a corrente. Deveríamos largar a corrente e avançar para o oceano, onde podemos seguir qualquer sentido, sem preconceitos. Aceitar a música tal qual nos seja oferecida. Conhecer as várias músicas, explorar novas sonoridades, experimentar, evoluir, inovar, crescer. Ter mente aberta e disponível para receber. Esse deve ser o espírito de quem verdadeiramente ama a música. Que bom seria conseguirmos ouvir a música assim, sem preconceitos, como só as crianças o conseguem fazer.

Carlos Norton