Bob Dylan e As Sardinhas Douradas : Uma Reflexão Sobre a Importância das Letras na Música Popular

Olhando para o título, poderia ser o nome de uma banda rockabilly, um título de um livro juvenil de aventuras ou uma reportagem cor-de-rosa sobre a estadia do Roberto no Algarve. Nada disso. Aliás nem há nenhuma razão particular para ter escolhido este nome, talvez tenha sido apenas uma forma alternativamente poética de atrair atenções. Ou não.

Não vou escrever propriamente sobre o Nobel, mas a coincidência obriga-me a referir o músico eleito, já que comecei a escrever este artigo horas antes da divulgação do escolhido pela academia sueca. Como um dia me chamou o António Pires,  vinha eu armado em Frei Norton pregar sobre a importância das letras nas músicas do mundo quando horas depois dos primeiros rabiscos o Nobel da literatura era atribuído a um letrista. Ou, se quiséssemos ser ainda mais actuais, poderíamos ter dado como título a esta crónica “Leonard Cohen e O Clube dos Poetas Recém-Mortos”… Só pretextos mas que caem que nem ginjas para falar sobre a importância da letra na canção popular.

E podemos olhar de uma perspectiva histórica para a evolução do cantar. No início vinha sozinho, depois acompanhado, com outras vozes ou com instrumentos. Mas cantavam-se cantigas de trabalho, ou religiosas, com um propósito muito directo, acompanhar o ritmo do trabalho, das orações. Depois vieram os romances e aí deram-se asas à imaginação, inventando histórias, ou na maior parte dos casos, funcionando como relatos de eventos reais, se bem que convenientemente adulterados ou enfabulados. Os temas foram mantendo uma lógica no conteúdo, incidindo em lugares-comuns. Se olharmos para a questão amorosa, ou será a história (bela) de amor bem sucedido, ou o caso de infortúnio com desgraça dos amantes ou a questão do adultério. E o conteúdo é quase idêntico dentro de cada género. Veja-se o típico exemplo do tema tradicional irlandês “Seven Drunken Nights”:

– Quando chego a casa numa terça-feira à noite, bêbado quanto bêbado poderia estar, vi um casaco atrás da porta onde deveria estar o meu casaco

– ah seu bêbado, não consegues ver? É um cobertor de lâ que a minha mãe me enviou

Em tudo idêntico ao tema “Laurinda” recolhido em Monchique:

-De quem é aquele casaco? De quem é aquele casaco, Que ali vejo pendurado?

-É para ti meu marido, Que o trazeis bem ganhado

Para além das cantigas religiosas, de trabalho e dos amores, outras falavam sobre o quotidiano da vida, os ciclos da natureza, o pasto, os animais. Mas tudo isto refere-se a tempos antigos, entretanto chegaram os tempos modernos, entrámos no séc. XX e aqui tudo muda, com correntes artísticas bem definidas e rígidas. O ritmo da cidade, da tecnologia, obriga a músicas de curta duração e de consumo rápido. São tempos frenéticos e a música não fugiu à regra.

Na maior parte dos casos a letra perdeu a importância, apenas existe porque há cantores, mas é a melodia que manda. Por isso temos no topo das vendas, músicas em que a letra é

“Querida, quero estar contigo”

ou “Je t’aime”

ou “Baby I love you”

E repete-se 37 vezes na música e está feito.

Se for para ser feliz, a frase é dita com alegria “querida, quero estar contigo”, sorriso nos lábios, ancas baloiçantes, chama-se Rock’n’Roll. Pelo contrário, a frase pode ser dita melancolicamente, como algo que não acontecerá mas que é desejo de quem canta “Querida, quero estar contigo”. Por isso a voz arrasta-se, a cabeça tristonha baixa, ecoa uma harmónica. Chama-se Blues…

Mas, cantando as mesmas palavras, se quiserem façam movimentos repetitivos com o pescoço, fazendo com que a cabeça ande para cima e para baixo lentamente (reggae) ou rapidamente (metal). Podíamos continuar nesta brincadeira, pois a verdade é que os géneros musicais estão mais dependentes do ritmo e da sucessão de acordes, do que propriamente da letra.

As excepções vêm normalmente dos cantautores, livres de preconceitos e estéticas e que abordam a escrita de forma poética. Foi isso que fizeram Bob Dylan e Leonard Cohen, mas não só. Muitos optam pela liberdade criativa na escrita e conseguem fascinantes músicas que fazem o ouvinte sonhar em vez de dançar, tal é a importância da palavra.

Regressemos então à nossa “casa”, ao Fado e às (outras) músicas do mundo.

Começando pelo Fado. Simples se olharmos para uma tese de doutoramento defendida em São Paulo, por Marcelo Casarini, sob o título “Lisboa Menina e Moça: a personificação da cidade nas letras de fado”. (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8150/tde-17042014-105628/pt-br.php) Neste trabalho académico o autor pesquisou entre mais de mil fados e descobriu que cerca de 600 falavam sobre Lisboa, ou seja, mais de metade. Por isso é que mesmo os fadistas do Algarve ou do Minho cantam sobre Alfama, Mouraria e afins. Certo é que o fado tem uma temática muito própria, mas então alarguemos os horizontes para as músicas tradicionais, do mundo. Sobre que versam os temas?

Muitos parecem provenientes directamente da época medieval ou pré-medieval, abordando o trabalho, a religião, os amores, como mostram muitos dos temas mais tocados pelas bandas portuguesas de raíz tradicional:

Lavra boi lavra e torna a lavrar, pedi ao meu amor que me venha ajudar, ai boi a lavrar

ou muitas vezes sobre quotidianos da vida de outrora:

a minha saia velhinha toda rotinha de andar a bailar. Agora tenho uma nova feita na moda para estrear

São temas que viajaram ao longo dos tempos, são músicas tradicionais, com letras que foram também elas transmitidas ao longo dos tempos. Mas e as músicas compostas neste séc. XXI? Por bandas que utilizam sons do passado, que tocam gaitas, sanfonas, concertinas e adufes? Curiosamente, utilizam quase sempre o mesmo imaginário, a mesma temática de há uns séculos atrás. As letras são escritas num ai-pede ou ai-pode, enquanto agendam um evento nas redes sociais e actualizam o perfil da banda e dos músicos. Mas o teclado digital é pressionado para compor palavras que serão cantadas para falar sobre ofícios extintos, lugares perdidos no tempo ou modas de antigamente.

Tudo soa a passado, a arqueologia musical, a nostalgia, lamúrias da inevitabilidade do avanço dos tempos. Poderia (ou poderá) ser diferente? Pode uma banda trad/folk cantar sobre uma viagem de avião, o aquecimento global, um jogo de computador ou algo realmente actual?

Na enorme gaveta das Músicas do Mundo, com a gigantesca liberdade estética, há espaço para tamanha ousadia? Será assim verdadeiramente livre a música, quando se libertar dessas amarras?

Ou será que apenas ninguém encontra qualquer romantismo nestes tempos modernos, nada que mereça ser cantado. Mais vale o sonho e a lembrança de outros tempos…

Carlos Norton