Silêncio… Que Vai Cantar o Elevador : Uma Rubrica de Carlos Norton

Uma bateria, uma guitarra ritmo, uma guitarra solo, uma voz e um baixo. O suficiente para fazer muito ou pouco barulho, mas é receita primordial para ruído musical. Tal como se grita tanto nos palcos “Façam barulho!…”.

Andando um pouco para trás…

No início dos tempos era o silêncio. Depois o homem começou a cantar. De seguida inventou instrumentos para acompanhar o canto. Então apareceu a música erudita e deixou de ser uma mão cheia de instrumentos, para serem dezenas ou centenas de instrumentos em cima de um palco. Finalmente veio a electricidade. Aí o ruído nunca mais parou. Amplificados, os instrumentos berram até ao limite dos tímpanos. Longe dos tempos em que apenas as infernais gralhas, gaitas e afins incomodavam ouvidos. Agora até o mais subtil dos instrumentos pode ser incomodativo com o melhor dos amplificadores.

Concertos, festivais, festas, são na maior parte das vezes concursos de decibéis. Impera a ideia de que quanto mais alto o som, melhor, mais o público vai apreciar. Mas já não nos ficamos apenas pelos palcos. Temos auto-rádios a bombar, sistemas de som caseiros que parecem estúdios de som profissionais, os cinemas emitem sons que fazem vibrar as solas dos sapatos dos espectadores. E claro, agora como temos colunas bluetooth, basta um caramelo na rua para chatear muita gente! Que isso dos auscultadores é para meninos!

Há uns dias atrás encontrei numa caixa perdida o meu walkman de adolescência. Fez parte dos meus gloriosos tempos de rebeldia, permitia-me fugir ao mundo que me rodeava e não largar os meus álbuns preferidos, naquelas cassetes personalizadas que me demoravam horas a preparar. Tudo isso para não enfrentar o silêncio. O pior dos medos.

Certo é que há receios do silêncio, normalmente sinónimo de solidão. Não é preciso o extremo de uma câmara anecóica, onde o silêncio (quase) absoluto pode conduzir à loucura, mas o silêncio pode ser simplesmente opressivo. Por isso ligamos a televisão assim que entramos em casa, o auto-rádio assim que nos sentamos ao volante e damos música nos espaços públicos, até nos elevadores! Que a festa nunca pare, que o mundo continue a girar, o dinheiro a rodar, o coração a bombear, as pessoas a circular. Urbanos, cada vez mais, até nos confins do isolamento, solidão já não existe quando se tem um ai-pode ou seja lá o que for. O nosso quotidiano está repleto de ruído, de som, de música, de forma cheia e contínua. Exemplo disso é a rádio, com o estilo de emissão onde imperam os radio-edits e onde as músicas não acabam sem antes outra começar e isto se não houver um separador a sobrepor ambos. O resultado é uma valente exaustão a quem ouve durante algum tempo uma rádio de conteúdo musical.

Daí a necessidade de escape que leva pessoas estranhas a fazerem caminhadas, passeios, subir montanhas, descer rios, sentarem-se à beira-mar e a ficarem simplesmente repousadas a escutar a natureza. Longe de ser silêncio, muito longe disso, o som natural é ao menos isso mesmo: natural!

A ausência de música, de voz humana, de ruído urbano, leva à introspecção, à meditação, ao pensamento puro. A nós próprios. E nem todos estamos preparados para nos enfrentarmos. Por isso fugimos ao silêncio. E encontramos os elevadores, os centros comerciais, as salas de espera dos consultórios médicos, as ruas pedonais dos centros históricos, as lojas, os cafés, as estações de transportes colectivos. Tudo bem munido de um belo par de colunas (normalmente de má qualidade e que dá um som arrepiante e inaudível) para dar música a toda a gente. Tão simpáticos em querer alegrar o povo. E nesta época, logicamente, aturamos as 35 músicas anglo-saxónicas de Natal que repetem até levar ouvidos sensíveis ao desespero. Tudo canta, tudo grita, tudo berra. Música sem parar, aos gritos, sem pausas, sem silêncios, para não termos oportunidade de pensar muito. Escrito assim, parece o argumento de um livro de Kafka. A opressão da música!

Regressando à música…

Tal como na crónica anterior, podemos olhar para a história e evolução da música, e se pegarmos nas primordiais canções de trabalho, elas seguiam a cadência do esforço físico, por isso eram compostas de canto, intercalado com silêncio para respiração. Da mesma forma os hinos religiosos eram intercalados com o silêncio meditativo para introspecção. Se avançarmos para a música erudita encontramos o melhor exemplo do uso do silêncio na música. Centenas de instrumentos em palco e há por vezes longos momentos onde nenhum toca, ou apenas pequenos grupos ressoam baixinho. Com a chegada da electricidade e do séc. XX tudo mudou. Em alguns géneros musicais o silêncio é muito bem usado, caso do Blues, ou noutros como o Jazz, as variações permitem um respirar da música. Mas no caso da Pop, do Rock, do Punk, do Metal e outros e outros tantos, o tal formato Guitarras-Baixo-Bateria-Voz abusa das potencialidades do som eléctrico para produzir ondas sonoras intensas e constantes.

E no que nos toca, o que acontece com as músicas do mundo? As tradições continuam lá, os instrumentos são muitas vezes os mesmo, mas mais do que a electricidade, as novas tecnologias dão novas oportunidades criativas. Em estúdio e ao vivo, já não é meramente uma questão de captar instrumentos acústicos e amplificar. Estamos na era digital e isso permite um mundo de sons acoplados, multiplicados, desvirtuados, encadeados, aldrabados, magnificados e poderia continuar nisto com mais umas dezenas de adjectivos, mas não tem fim. Um só músico pode adicionar instrumentos sem limite. O conceito de homem-banda mudou radicalmente. Já não são precisos fios e arames e adaptações dos instrumentos. Uma loop-station e transformou-se numa orquestra. Mesmo os trios, quartetos, ou outras formações, fazem uso das tecnologias para multiplicar o som, as melodias, os ritmos. E muitos acabam por cair na tentação do “quanto mais melhor”. A simplicidade, a beleza do simples é muitas vezes descuidada e ignorada. Em busca do glorioso, do majestoso, é moda partir em busca do som grandioso, cheio, complexo. E perdem-se tantos, nos caminhos da complicação sonora. É óptimo aproveitar as novas oportunidades que os avanços tecnológicos nos oferecem. Mas é bom não esquecermos quem somos e o que queremos.

A música é em primeiro lugar uma forma de arte, uma manifestação artística. Como tal deve ser viva, deve ter alma, respirar, pulsar. E para ser genuína, é tão importante o silêncio. O silêncio da pausa, da respiração, da meditação. O silêncio que é também música!

Carlos Norton