Hugo Ribeiro (1925 – 2016) : A Homenagem por David Ferreira

David Ferreira – desde sempre ligado à editora Valentim de Carvalho, fosse por questões familiares ou profissionais – escreveu no dia 3 de Dezembro o mais sentido epitáfio em memória do engenheiro-de-som Hugo Ribeiro. Um texto que, com a devida vénia, aqui transcrevemos:

Esta noite, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, morreu, aos 91 anos, Hugo Ribeiro, herói da gravação sonora e colaborador da Valentim de Carvalho desde há mais de seis décadas.

Hugo Ribeiro nasceu em Vila Real de Santo António, em agosto de 1925. Com vinte e poucos anos, conheceu o comerciante e editor Valentim de Carvalho que o ouviu interpretando canções napolitanas e chegou a pensar convidá-lo para gravar. Em vez disso, acabou por contratar o rapaz bem disposto e conversador para a sua empresa.

É aí que Hugo encontra o sobrinho do patrão, Rui Valentim de Carvalho, seis anos mais novo do que Hugo. Rui adora máquinas e sabe consertar rádios. Hugo gosta de música e aprende depressa. No início dos anos 50, ou mesmo antes, os dois estão a gravar discos num dos andares dos Estabelecimentos Valentim de Carvalho, na Rua Nova do Almada, em Lisboa.

No Chiado, a partir de 1951, gravam a voz de Amália, que há-de dizer, mais tarde, que nunca ninguém soube registá-la tão bem. Dirá o mesmo Carlos Paredes acerca do som da sua guitarra nos discos gravados por Hugo Ribeiro nos anos 60 e 70.

Sem verdadeira formação, Hugo Ribeiro encontrou as soluções na sua própria musicalidade, num ouvido apurado e no gosto com que se dedicava ao trabalho. Sabia quando Amália ia cantar mais forte e adaptava o volume da gravação às suas inflexões, sem necessitar de compressores que nos privariam do som verdadeiro daquela voz. Recorria a truques: colocava-lhe dois microfones e dizia-lhe que só estava ligado um, mais perto dela, captando-a de facto com o outro. Repetidamente, passava da sala onde ficavam cantores e instrumentistas para a sala de controle, até ter a certeza de que ouvia nas duas o mesmo som.

Hugo Ribeiro viveu ainda o tempo em que grandes artistas torciam o nariz à ideia de gravar. Obrigou-se a dar-lhes o som verdadeiro. Em 1961, esperou que Alfredo Marceneiro acabasse a sua ronda pelas casas de fado para conseguir finalmente registar um LP do fadista que já tinha mais de 70 anos. E, mesmo assim, ou ele ou Rui Valentim de Carvalho ainda tiveram de se lembrar dum expediente para Marceneiro, que ao chegar ao estúdio queria cancelar o projecto, gravar sem o “ambiente” das casas de fado: vendaram-lhe os olhos.

Durante mais de dez anos, Hugo Ribeiro gravou em locais que não eram estúdios construídos de raiz: uma sala na Valentim de Carvalho, depois o Clube Estefânia e finalmente o Teatro Taborda, na Costa do Castelo. Aqui habituou-se a gravar só depois de não haver eléctricos a passar na rua – e mesmo assim não se livrou de algum grito de pavão vindo das bandas do Castelo. No Clube Estefânia, onde só era possível gravar quando não se jogava bilhar, viu-se obrigado a mandar reforçar um estrado, não fosse ele abater na gravação duma (pesada) banda da Polícia.

Ribeiro correu o país para registar o folclore esquecido e ajudou Amália a escolher trechos de música tradicional para ela mesma cantar. Gravou nos teatros do Parque Mayer e nas casas de fados. Naturalmente curioso, encontrou tempo livre para gravar os últimos pregões.

Numa época em que não se usava a expressão Engenheiro de Som nem havia uma separação rigorosa de funções, actuou mais de uma vez como director artístico da Valentim de Carvalho: por volta de 1960, foi ele quem contratou o Duo Ouro Negro acabado de chegar de Angola e se lembrou de confiar os arranjos e a direcção musical do disco a um músico brasileiro que viera trabalhar para o Parque Mayer, Sivuca, de grande talento e nenhuma notoriedade na altura. E, ainda uns dez anos mais tarde, seria a teimosia de Ribeiro a levar a editora a contratar o desconhecido Paco Bandeira.

Ao longo de mais de quatro décadas, Hugo Ribeiro gravou quase todos os grandes do seu tempo: Amália, Marceneiro, Hermínia Silva, Paredes, Max, Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, Carlos Ramos, Fernando Farinha, António dos Santos, Celeste Rodrigues, Fernanda Maria, João Ferreira-Rosa, Maria da Fé, Teresa Silva Carvalho, Vicente da Câmara, Tristão da Silva, Alberto Ribeiro, Milu, João Villaret, Trio Odemira, Eugénia Lima, Júlia Barroso, Maria Clara, Maria de Lourdes Resende, Maria de Fátima Bravo, Rui de Mascarenhas, António Calvário, o Conjunto Académico João Paulo, Luiz Goes, Simone, Tony de Matos, o Duo Ouro Negro, Thilo’s Combo, José Afonso, os Sheiks, Marco Paulo, Carlos do Carmo, Frei Hermano da Câmara, José Cid, Paco Bandeira, António Mourão, Beatriz da Conceição, Jorge Palma, Rão Kyao, Opus Ensemble, Tantra, UHF, GNR, Trovante, Carlos Paião, Vitorino.

Ninguém como Hugo Ribeiro esteve presente em tantos momentos inesquecíveis da gravação fonográfica em Portugal. Os nomes citados falam por si e por muito do que foi a nossa Música Popular durante mais de meio século. Mas podíamos acrescentar-lhes as gravações de música erudita e em particular as muitas vezes em que Hugo Ribeiro registou as obras de Fernando Lopes-Graça. Ou as gravações de trechos do teatro e da comédia, por artistas como Raul Solnado, José Viana, Ivone Silva e tantos outros. Ou as de poesia, fosse ela declamada por actores como João Villaret ou pelos próprios poetas – e foram muitos os grandes poetas que tiveram a voz gravada por Hugo Ribeiro.

Este técnico de som, como então se dizia, realizou na segunda metade dos anos 60 e no princípio da década seguinte alguns dos seus trabalhos mais difíceis de esquecer: “Guitarra Portuguesa” e “Movimento Perpétuo” de Carlos Paredes ou “Com Que Voz” de Amália Rodrigues são exemplos que ocorrem logo ao recordar esse período dourado da sua carreira e da empresa a que o seu nome ficou para sempre ligado.

É que só por volta de 1963 foram inaugurados os estúdios da Valentim de Carvalho em Porto Salvo, então no meio do campo, nos arredores de Paço d’Arcos. Eram agora outras as condições de trabalho e o estúdio atraiu intérpretes estrangeiros de nomeada como Cliff Richard, Joan Manuel Serrat ou Julio Iglesias. Aí Hugo Ribeiro gravaria muitos dos discos mais importantes da sua distinta carreira, até à primeira metade dos anos 90: as últimas gravações de estúdio de Carlos Paredes foram também as últimas que fez. E aos estúdios continuou a deslocar-se até ao fim da sua vida, ajudando com a sua sabedoria os mais novos, identificando melhor velhas gravações, fascinando meio mundo com a sua memória prodigiosa e o colorido das suas narrativas.

Ao respeito pelo enorme profissional e à saudade pelo amigo seguro, junta-se um sorriso, teimoso, na recordação dum homem com imenso sentido de humor e que gostava muito de viver. E que gostava tanto de música e dela sabia tão bem gostar que continua vivo em muitos dos melhores momentos da história da Música Portuguesa.

David Ferreira