Terrakota : Sete Vidas e Mais Alguns Fôlegos

A Terra Pura – numa entrevista que O Fado & Outras Músicas do Mundo aqui partilha – conversou com Alex e Gonçalo Sarmento, representantes de duas gerações distintas da família Terrakota, que acaba de lançar novo álbum de originais, “Oxalá”, seis anos depois de “World Massala”. Um colectivo de grande resiliência, que soube renovar boa parte da sua formação e com os elementos mais jovens tem sabido encontrar novos ingredientes para este cozinhado africano, que mistura reggae, dub, mbalax, afrobeat, blues rock do deserto do Saara, mangue beat, kuduro progressivo, especiarias indianas, entre outros, com a mesma postura político-social de sempre.

Os Terrakota regressam aos discos em 2016. O vosso último álbum de originais, “World Massala”, foi mais ou menos editado em 2010. Claro que depois editaram umas “Re-Cooked Sessions” mas álbuns mesmo de originais há seis anos que não editavam um disco. Pelo meio aconteceu muita coisa: vocês estiveram parados cerca de dois anos e, entretanto, regressam em 2016 com uma energia revigorada e uma família já com alguns “filhos” a tomarem as rédeas dos Terrakota…

Alex – Sim, exactamente. Tivemos aqueles anos muito intensos, doze anos sempre a bombar sem parar, depois a Romi (Anauel, vocalista original dos Terrakota) deixou de estar connosco e sentimos necessidade de dar um tempo para nós próprios, etc… E aí decidimos fazer a paragem para decidir se, e quando, voltaríamos. Mas com uma certa rapidez o bichinho começou a crescer e decidimos voltar e tentar recuperar a energia natural de Terrakota. Já vimos muita coisa: já vimos palcos grandes, pequenos, triangulares, redondos.

Mas esse regresso, com uma outra formação – pelo menos, quatro elementos que surgem aqui na renovação dos Terrakota -, o Gonçalo Sarmento que toca guitarra e kora, a dançarina, Diana Rego), e mais percussão e bateria: o Paulo Cavernas e o Márcio Pinto. Isto é metade da banda remodelada, não é?

A – (Mas) isso não foi tudo de uma vez. A Diana já estava connosco um ano antes de pararmos. Ela é irmã do Nataniel (Rego) e já viajava muito, mas sempre que estava cá (Nota: Diana Rego é do Porto enquanto os Terrakota são de Lisboa) entrava nos nossos espectáculos, principalmente aqueles de carreira – Lisboa, Porto. Ou seja, há aqui duas situações distintas: a Diana e o Cavernas são dois velhos amigos da banda que sempre participaram um bocadinho, quando possível, e naquelas circunstâncias em que nós voltávamos, achámos importante ter a energia deles. O Márcio e o Gonçalo são um bocado como tu dizes, de uma geração abaixo da nova, que começaram a ouvir Terrakota bastante jovens, iam aos concertos, e hoje em dia estão na banda. É um processo natural. Pode ser até que alguns filhos dos filhos…

E o Gonçalo tem aqui um papel importante e toma até um certo protagonismo na banda. Por um lado tem a guitarrinha à soukous, à Zaire, e por outro, toca kora… É pouco comum vermos um branco a tocar kora, ainda para mais não africano. E ainda canta em alguns temas de Terrakota, tendo portanto um papel activíssimo. Gonçalo, como foi a tua integração na banda?

Gonçalo Sarmento – Foi bastante natural. Eu comecei-me a dar muito, especialmente com o Alex, na altura da paragem (dos Terrakota). Juntávamo-nos muito, criávamos, compúnhamos músicas sem saber ainda para o quê… Depois acabámos por fazer uma viagem juntos a África, que era suposto ser até ao Burkina Faso e acabou por ser até Marrocos e, depois, eu segui para a Guiné-Bissau e foi lá que eu estive a aprender o kora, em Casamance. Quando voltei já tínhamos esta relação de amizade, um gosto muito parecido, quase similar. Conhecia muito bem a energia de Terrakota porque, como ele disse, desde pequenino que era a minha grande banda de referência em Portugal e moldou-me muito não só a nível de estilo musical como enquanto pessoa, através das suas ideologias, utopias, etc. E foi um processo muito natural da parte deles. Para mim não foi assim tão natural porque estranhei o convite mas, claro, depois o enquadramento foi super-natural, quase óbvio.

Essa aprendizagem de kora levou quanto tempo? Foste para lá já adulto e é mais fácil uma criança começar a aprender do que um adulto pegar no instrumento…

A – Ele ainda é uma criança (risos). Desculpem interromper, mas ele teve uma evolução espectacular, foi muito rápido. Ele precisa de aprender muito mais mas (…) eu também já tentei e não consegui. É um instrumento que precisa de muita dedicação.

GS – Qualquer instrumento precisa de dedicação mas, especialmente, o mais importante aqui é: eles nascem naquela linguagem, não é? Eles ouvem aquilo desde pequeninos e pegam sempre ali… Se calhar, o filho de um djeli (griot), pega no kora e está sempre a brincar com aquilo. Para um branco que chega lá é fácil tocar aquilo como uma harpa, porque se calhar ouves mais uma harpa do que um kora quando és pequeno, por causa da tua cultura. Então, é fácil tocar; difícil é fazê-lo soar como eles o fazem soar, pô-lo naquele contexto.

Daí, o Toumani Diabaté nos seus concertos dar sempre aquela aula em que ele explica as três funções que o kora faz em simultâneo: o ritmo, a melodia, o improviso. Tu ão estás a esse nível mas esperas lá chegar…

GS – A vida é uma escola. A grande beleza da vida é aprender e estamos cá para isso.

Alex, este é talvez o álbum (dos Terrakota) que tem menos reggae. Os outros álbuns já eram muito africanos, mas há aqui um lado muito mais forte de ritmos africanos – o afrobeat, blues-rock do deserto – e não há assim tanto reggae declarado…

A – É engraçado dizeres isso porque não sinto isso assim. Pelo menos em relação ao “World Massala”, que só tinha um reggae…

GS – Mentira, tinha dois reggaes… Se considerares o (tema) “World Massala” reggae.

Ou então é uma condição natural da banda, que de um início muito marcadamente reggae foi-se demarcando… À medida que foi entrando em África a base reggae foi sendo mais afastada, talvez.

A – O nosso ponto de partida sempre foi África. A questão é que eu e o Júnior somos fanáticos de reggae… e o Sarmento também é. E, portanto, sempre houve essa coisa porque o reggae é um ritmo muito interessante para misturar tanto com os ritmos trenários como com os quartenários e múltiplos que a música africana – grandes grooves – nos oferece. E então somos sempre levados a misturar reggae com mbalax, reggae com a cena do blues do deserto, etc, etc. Se calhar tu sentiste, se calhar por causa da linguagem dos novos elementos – do Cavernas, do Sarmento e do baterista – que está lá o reggae mas não está feito como reggae, com as pecinhas todas do reggae. Talvez estejamos a apurar a tal cena de misturar as coisas e isso é exactamente o que a gente quer: criar sonoridades em que nos surpreendemos a nós próprios e a quem nos ouve. Este álbum, à partida, tem dois reggaes declarados: o “Heartist” e o “Cegueira”, só que se transformam, não é? E até o “Deserto Amanhã” tem um bocado de reggae, portanto tem mais ou menos… Nunca fomos uma banda de reggae, sempre fomos muito mais afro.

Esta é a evolução natural dos projectos, não é? E olhando aqui para o vosso disco, há uma enorme diversidade de ambientes sonoros de tema para tema. E há aqui um tema muito curioso, o “Oxalá”, em que há uma miscigenação de Brasil, do universo árabe e de Portugal, em que tens o Vitorino a cantar cante alentejano, mas com um coro que também se parece um pouco com os dos mineiros de África. Faz-me lembrar um pouco Ladysmith Black Mambazo.

terrakota-pose1A – Sim, essa é a nossa trip. É exactamente isso: descobrir os pontos de encontro e brincar com eles. O “Oxalá” é engraçado, porque é uma canção que não estava feita mas que já existia – é do Gonçalo – e tínhamo-la experimentado de várias formas. Essa forma que se ouve no álbum não foi a primeira forma, é tipo a segunda ou terceira forma, e já depois do álbum (gravado) continuamos a tentar dar-lhe várias vidas. Depende das músicas, mas esta por acaso é muito elástica e permite, agora, ter… Desceu mais para baixo, desceu um bocadinho para o Mali e foi integrando outros elementos. Acho curioso que tenhas sentido também a cena brasileira, porque não é nada óbvia. Mas isso tem a ver também com o próprio imaginário musical do Gonçalo: ele ouve imensa música brasileira, de raiz mesmo, profunda.

E o Vitorino como é que aparece aqui no meio disto?

A – Como sempre aparecem os convidados em Terrakota: de uma maneira natural, quando a música pede. Eu sempre ouvi essa música e sempre imaginei (a voz do Vitorino). E estou a esquecer uma coisa: o Júnior, na abordagem da música, propôs que ela começasse com cante alentejano, que não existia na música, foi uma ideia do Júnior… A partir daí surgiu-me a ideia do Vitorino, que é uma pessoa com quem tenho contacto muito fácil, que conheço deste puto. Foi assim, uma coisa muito fluida…

Falavas há pouco da influência brasileira, da raiz brasileira, e aqui o tema marcadamente (mais brasileiro) é “Entre o Céu e a Terra”, que navega muito pelo nordeste brasileiro, pelo mangue beat, desde Chico Science a Mestre Ambrósio, Siba e a Fuloresta. Faz lembrar aquelas referências do nordeste brasileiro dos últimos dez, vinte anos, e com uma mensagem comum a outras vossas do passado: as grandes empresas de agro-química que patenteiam as sementes continuam a ser uma das vossas principais preocupações, ainda para mais agora quando a Monsanto se fundiu com a Bayer…

A – Isso é a base da vida, não é?

GS – E essa é uma temática que a mim me toca muito. Bem, na verdade toca-nos a todos, é aquilo que nós comemos, é a nossa base alimentar, aquilo que podemos cultivar… Referiste a Monsanto a juntar-se com a Bayer, mas (posso também acrescentar que a Syngenta, que era quem actuava mais na Europa, juntou-se com a ChemChina, e isto (que está a acontecer) com a Bayer tem um precedente: é que já há uma multinacional gigante a juntar-se com outra multinacional gigante de agro-químicos, de farmacêutica, etc, e então esta junção da Monsanto, que estava mais sediada na América, a juntar-se com a Bayer cria outra multinacional gigante, não é? Então, há já aqui uma luta de titãs sobre o nosso alimento, sobre as coisas de base. E não só sobre o nosso alimento, sobre a água que nós bebemos (também). Falaste do Siba, e já ele referia isso, qualquer dia sobre o ar que respiramos também.

Há quem diga que a água não devia ser gratuita. E nós pagamos a água de casa, compramos garrafas de água em máquinas… Isso vem de uma empresa de alimentos suíça que considerava que a água deveria ser sempre paga. Isto é alarmante…

A – O que eu posso dizer-te sobre isso é que há guerras por causa das melhores fontes que o planeta Terra tem, porque já se sabe que daqui a uns anos a água vai ser paga e bem paga, sobretudo a boa, a que vem lá de cima da montanha. Já tiveste a guerra da água na Bolívia, que foi um caso completamente abafado mas para quem se quiser informar, foi uma grande barracada…

GS – Os americanos entraram por lá adentro…

A – E tens o caso que toda a gente sabe do genocídio no Tibete, cuja razão principal é essa. E acho que não é preciso dizer mais nada. As pessoas gananciosos, as grandes estruturas financeiras continuam a prever o que é que vai ter valor mais à frente e a alienar completamente tudo.

GS – O que é curioso é que são as mesmas empresas que contaminam a água, com os glifosatos, etc, que depois vão à procura da melhor água para vender. Isto, no fundo, é sempre a receber: recebemos porque vendemos o químico que contamina a água e vamos depois buscar a água melhor para assim a podermos vender. è aquela ganância cega e, para nós, enquanto músicos sabemos que estamos a tomar parte de uma coisa maior do que nós, de uma coisa que é mais importante do que nós. Estamos a criar música não só para entreter, estamos preocupados com uma coisa que se está a passar com nós todos e queremos falar sobre isso. Queremos usar a nossa arte para (com ela) fazer a nossa missão neste planeta.

Neste tempo de pausa, de pousio, dos Terrakota passou por aqui a troika e, claro, a troika foi também um dos assuntos aqui abordados no vosso disco, seja através de afrobeat, seja através de blues-rock do deserto, aqui no “Social Insecurity”, no “Bankster”…

A – E no “Wari”. O “Bankster” também, embora este esteja mais direcionado à maneira como o “branco” entrou pelo terceiro mundo a explorar os recursos minerais e os recursos naturais de todo o lado, do tipo… entra, sai genocídio e guerra, segue para o próximo. O “Bankster” é mais sobre isto e sobre a realidade actual, que eu conheço bem melhor, que é a de África: pensar como reorganizar isto, como ganhar força enquanto continente, estrutura, etc, etc. Como criar políticos conscientes, como criar uma sociedade. É um problema que eles atravessam bastante. Os países do terceiro mundo, depois dessas crises, ficam completamente devastados em muitos aspectos e depois é fácil perceber o que tem que ser feito, mas não é fácil encontrar as estruturas e a forma e lá chegar. Hoje em dia, e o Tiken (Jah Fakoly) fala muito disso, de como é que África se pode reconstruir. E então, essa música é uma coisa bem-disposta tipo a dizer ao branco: “Pá, já estás muito gordo; a tua barriga vai explodir. Já chega; come lá mais um bocadinho mas vai-te embora”. O input inicial da música é esse. Depois, claro que entram lá muitas outras coisas dentro.

Aqui também foram buscar sons de noticiários, em italiano, em inglês, em francês. Dá um ar mais realista à coisa?

GS – Essa foi uma compilação aqui feita pelo Alex, dos políticos que nós mais admiramos pelo lado mau. Quem é que tem lá?

A – Tem os grandes todos. Tem o Berlusconi, o Bush, o Cameron – este gajo inglês que é particularmente… -, tem o Obama, que é perfeito; nunca pestaneja, não é? E tem o Sarkozy. Ah, e tem a Merkel; a Merkel não podia faltar.

Voltando aos ritmos do disco e, portanto, ao momento actual de Terrakota, penso eu que o epicentro actualmente… Claro que falamos de miscigenação, mas há aqui um lado afrobeat muito forte em vários temas. Isto tem a ver também um pouco com as sessões que vocês foram fazendo com outros músicos? Deu para criar uma dinâmica, uma energia, em termos de afrobeat?

A – Sim, por um lado sim.

Pergunto isto porque, nos últimos anos vocês faziam várias orquestras com vários músicos, no Musicbox…

A – Mas o que acontece é que eles (alguns dos novos membros dos Terrakota) lá no Porto também faziam. Por acaso, o Gonçalo também é um apaixonado de afrobeat gigante que não estava nessas mas que, se fizermos mais algumas, vai estar. E o que acontece é que entraram dois elementos em Terrakota – três, porque o Cavernas também participava numa orquestra lá de cima – têm isso. E eu acho que tu sentiste isso mais por causa da bateria.

GS – Eu acho que isso se sente, sobretudo, mesmo mais por causa do Márcio. Tu falaste do reggae, ou que sentias que tinha pouco reggae…

E que o reggae é, talvez, absorvido pelo afrobeat…

GS – E isso, no fundo, é uma questão de beat. O reggae tem uma bateria muito forte, muito terra; está cá à frente, sempre por ali certinho, os pratos de choque sempre certinhos… O afrobeat tem uma bateria muito hard, está sempre a brincar, os breaks são todos para trás. São linguagens completamente diferentes. Digamos que o Márcio, o nosso baterista, adora afrobeat e reggae, ele gosta mas não adora. E isso passa na música. Mesmo que nós façamos um reggae, se calhar aquilo que passa para fora… Imagina: eu vou fazer aqui um reggae, mas ele vai interpretá-lo na bateria e já está a fugir para o afrobeat. E é essa a beleza da coisa.

Até mesmo as vozes da Selma Uamusse e da Anastácia Carvalho fazem também lembrar muito aquelas back vocals do Femi Kuti ou do Seun Kuti…

A – Sim, isso sem dúvida. Quando fazemos arranjos para coros, e elas têm muito essa vivência, vai lá dar ao afrobeat e ao reggae bastante, são as nossas referências para criar linhas de coros.

Depois, há aqui um tema… Penso eu que é até aquele tema em que vocês nem sabiam o que fazer com ele, que é o “Mexe Mexe”. E que é, talvez, o tema mais Angola, meio kuduro progressivo que faz lembrar Batida, faz lembrar também Buraka… É o tema aqui um bocado mais satélite, ou a girar à volta, da constelação Terrakota? Penso eu que não é o ADN Terrakota mas é também Terrakota e talvez, digamos, um momento explosivo no concerto?

terrakota-foto-ao-vivo-bruxelasGS – Oh pá, o “Mexe Mexe”… Eu sempre que ia a um concerto de Terrakota eu sabia que eles acabavam com uma coisa assim explosiva. Estou-me a lembrar, por exemplo, do “Curruputu”, que sempre foi uma das minhas músicas preferidas e que penso ter sido durante muitos anos a música final dos concertos, e havia essa malha de guitarra, essa malha que já só por si dizia que aquela música era a música de festa. E eles nunca tinham experimentado gravar a música de final de festa e lançá-la como single. É engraçado teres pensado isso porque é verdade: era a música explosiva de concerto mas quando íamos gravar o álbum nós íamos deixá-la de fora. Mas, pouco a pouco, começámos a pensar na música e surgiu uma letra, surgiu uma ideia, surgiu um refrão… E pronto, vamos experimentar registar e vamos experimentar lançá-la, à música de festa, porque não? É o primeiro single (deste álbum) e é giro porque foge um bocado ao álbum por isso, por ser a música-surpresa. Mas, doutro modo, também está bastante integrada e está bastante despreocupada. E eu gosto bastante disso nela: é uma música despreocupada, que não está tão pensada, tão teorizada… É mais livre, mais espontânea.

A – Mas há aqui um contexto, que é: a gente, durante muitos anos, fizemos gravações e trabalhámos com o Bruno (Lobato), que é o Beat Laden e também é a pessoa que fez o primeiro álbum de Batida com o Pedro (Coquenão), etc. E ele também trabalhou connosco neste álbum, portanto era uma coisa que até no “Re-Cooked” já tínhamos um bocadinho experimentado, que era deixar o Bruno fazer uma coisa que, aqui há uns anos, em Terrakota seria blasfémia, não é?, e que é meter uns beatzinhos de surra, assim sem exagerar muito. E foi isso. Mas a música, na realidade, era tocada ao vivo com outra letra, era a música final do concerto e era a típica música de final de concerto que está inacabada e que é tocada de maneira diferente em cada concerto. E depois não se faz nada com elas, como já aconteceu com outras, mas (desta vez) acabou por acontecer isto. E eu, pessoalmente, gosto bastante.

As “Re-Cooked Sessions” já foram a abertura à electrónica…

A – Era várias coisas: era uma abertura ao dub, que não é electrónica, mas mesmo o acto de “dubar”: tirar, etc…

E aqui o disco acaba com o “Kutch Nahi”, que é Bollywood Dub…

A – Sim, e é a continuação desse espírito de “Re-Cooked” que está aí no fim. Aliás, essa música foi gravada como uma música flat, normal, com montes de overdubs e muita coisa, e depois foi toda cortada, escortinhada, virada do avesso e foi feito um dub com ela, Voltando ao “Re-Cooked”, que era três coisas: uma pequena abordagem electrónica, uma pequena abordagem ao dub e a possibilidade de tirar as vozes do Júnior e da Romi e explorar os instrumentais com outros vocalistas que a gente tinha conhecido, daí aparecer lá o cantor indiano (Mahesh Vinayakram), o mesmo que volta a aparecer aqui, o cantor de Ponto de Equilíbrio (Hélio Bentes), o Florian Doucet, que também volta a aparecer. É um espaço que vai continuar a existir em Terrakota: fazer experiências, “dubar” as músicas, convidar outros cantores. Porque, lá está, é super-interessante e são instrumentos novos. Nós somos músicos ávidos de instrumentos novos.

Estávamos a falar em Batida e um dos temas do disco, “Wari”, tem palavras do Ikonoklasta (Luaty Beirão). Como é que vocês viram a sua situação nos últimos tempos? Isto é uma homenagem àquilo que ele passou?

A – Não. A gente já conhece o Ikonoklasta desde 2006 e ele já tinha escrito letras para o “Oba Train” (2007). Acho que o “World Massala” não tem nenhuma, mas a verdade é que ele, na altura, escreveu-nos duas ou três letras e deixou-nos os rabiscos de outras, uma das coisas era essa, “Wari”. Portanto, isso já está connosco desde essa altura: 2008 ou 2009. O Luaty fartou-se de participar em espectáculos nossos: era um gajo que vivia entre Angola, França, e é nosso grande amigo. Isto não é uma homenagem: essa música, nós já a tocávamos antes da paragem, quando a Romi saiu, e já tinha a letra do Luaty. Era uma realidade nossa. E era o momento de editá-la ou não? Também era uma das músicas que esteve vai-não-vai para entrar no álbum ou não entrar. Portanto, não tem a ver com o Luaty, mas a letra é do Luaty, sim. E provavelmente vai haver mais letras do Luaty, porque é um grande letrista. Em relação à forma como vivemos (a sua detenção e o que se passou entretanto), eu pessoalmente vivi com uma intensidade quase exagerada. Aqueles meses, para mim, foram uma experiência nova. Fez-me lembrar o que os meus pais passaram, porque os meus pais emigraram para França e também tinham muitos amigos presos e em greve de fome aqui em Portugal. E saltou-me tudo o que eu vivi quando era criança: parecia que eu já sabia o que tinha de fazer e, então, fui uma das pessoas que se envolveu fortemente no movimento que houve cá em Lisboa de tentar tornar público tudo o que se estava a passar lá (em Angola). Felizmente, a cena está agora um bocadinho mais calma, mas pode virar a qualquer momento.

Luís Rei

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Terra Pura/Crónicas da Terra)

Oiça a entrevista integral aqui:

As sete vidas dos Terrakota [podcast Terra Pura 24OUT16]