Batida : Dez Anos de Caminho (e Alguma Lata) Celebrados com Pedro Coquenão

Pedro Coquenão inventou a Batida – ou a Batida inventou-o a ele – em 2007. Foi há dez anos, mas já antes disso o luso-angolano Pedro se tinha apaixonado por muitas e desvairadas músicas. É essa história pouco conhecida – a da pré-história da Batida – que contamos aqui, acrescentada de algumas referências a estes dez anos do seu alter-ego e identidade artística que, ao lado de outros, ajudou a transformar decisivamente o universo da música portuguesa, angolana e mundial. É uma longa conversa com Pedro Coquenão, em que se fala de merengue e de punk hardcore, de Herbie Hancock e de Malcolm McLaren, de António Sérgio e da Rádio Fazuma, de drum’n’bass, kwaito, funk carioca e kuduro, de Luaty Beirão e de Bonga, de Damon Albarn, de Stromae ou de como um DJ pode atirar com pastéis-de-nata ao público e, embora isso não seja compreendido, até nem é insultado… Uma conversa em que a intelegência, o sentido de humor, o conhecimento profundo de vários géneros musicais e alguma lata nunca se sobrepõem ao imenso amor que Pedro Coquenão tem pela sua música e pela música dos outros.

Nasceste em Angola mas vieste muito novo para Lisboa. Podes contar-nos essa história de uma primeira infância passada lá e como foi o regresso? E como é que se mantém tão viva essa ligação que poderá estar lá, algures, perdida?

Não me lembro. Era bebé. Já me fizeram tantas vezes essa pergunta. Mesmo no que toca às músicas do mundo – e não sei exactamente o que isso é – há sempre uma procura do que é o genuíno e pergunta-se muitas vezes qual é a legitimidade para se fazer um determinado tipo de música. Lembro-me de uma vez, num festival em França, me ter chateado porque seis ou sete jornalistas me fizeram mais ou menos essa pergunta. E ao fim de sete perguntas iguais – “afinal, qual é a tua ligação a Angola?” -, depois de ter respondido sempre (educadamente), como a minha mãe a minha avó me ensinaram, respondi ao último num francês péssimo, que é o meu: “É vaginal”. Eu não tenho que me justificar. Posso tentar fazer perceber aos outros, como eu próprio tento perceber às vezes, mas nesse festival (Nota: Festival Rio Loco, em Toulouse, 2012) também tocaram o Paulo Flores e o Conjunto Angola 70 e eu senti que estava a ter um tratamento diferenciado. E, realmente, a ligação que eu tenho a Angola é a minha mãe, nascida em Angola, e a vivência com a minha família. E, musicalmente, até foi uma tia minha, que me acabou por incutir o merengue e a manter a ligação ao longo dos anos enquanto a guerra não acabou.

Tu fizeste parte daquela vaga de pessoas a que, na altura, se chamaram “os retornados”…

Sim. Eu, um bebé e os meus pais que nunca cá tinham estado. Nem sei muito bem quem é que era mesmo de cá nessa altura. Se calhar, os latifundiários, os donos dos bancos. Mas o resto anda aqui de trás para a frente, de cima para baixo. Este tipo de questionamento geográfico foi de tal forma insistente, por parte de quem às vezes tentava analisar e procurar (de onde vinha a minha música) que, uma vez, apareceu-me uma oferta de exame de DNA por mail…

E fizeste-o?

Eu fiz! Nunca falei sobre isso publicamente, mas achei muita piada porque os resultados foram mais ou menos o esperado…

Deves ter chegado à mesma conclusão a que todos os portugueses, ou descendentes de portugueses, que fizessem esse teste chegariam: todos nós devemos descender de árabes, judeus, negros africanos, franceses, celtas… e/ou tudo misturado (risos).

É mais ou menos isso. Quando me mandaram o mapa das minhas origens, vinha com uma nota de que não estava dividido por países, mas estava dividido por zonas do globo e parecia o mapa das viagens – conhecidas como descobertas – que os portugueses fizeram há quinhentos anos e das migrações, a maior parte forçadas, que existiram depois. Eu tinha a Península Ibérica, a zona toda de Angola e arredores, sem os cortes geométricos do mapa e vestígios da Índia. E tudo isso faz sentido. O Coquenão é claramente um encontro entre dois nomes ou uma tradução que correu mal no registo (risos). Do lado Coquenão há traços mais angolanos que fui encontrando mais recentemente. Quando tive a minha primeira namorada, o meu pai disse-me: “Se um dia te nascer um filho branco com carapinha ou um preto com cabeleira loira, é perfeitamente natural…”. Tenho muitas cores de cabelos, olhos, pele e partidárias na família.

O monge que inventou a genética moderna, Gregor Mendel, tinha aquela teoria das ervilhas que já no Séc. XIX explicava essas coisas…

Sim.  Porque, no meu caso, um dos meus avós de origem portuguesa terá viajado para Angola, onde se apaixonou por uma das minhas avós, de origem angolana. Do lado da minha mãe a família vinha daqui de mais perto, não sei se da Beira se também de Espanha. Anos mais tarde, nasci na cidade do Huambo, que na altura se chamava Nova Lisboa.

Tu vens de Nova Lisboa para uma nova Lisboa…

Sim (risos). E depois é bom descobrir encontros. Por exemplo, lembro-me de ter feito uma música quando fui convidado para um  tributo ao (realizador de rádio) António Sérgio na Radar, um ano depois dele ter morrido – eu sempre me identifiquei muito com ele. Acho que toda a gente que gosta de música se identificava. Ou, se não com ele, com o que ele fazia, com o que ele representava. Porque ele também era a mulher (Ana Cristina Ferrão) – e ter descoberto que também ele tinha vindo de Angola ((Nota: António Sérgio nasceu em Benguela, Angola, cidade próxima de Huambo, onde nasceu Pedro Coquenão).

O Sérgio foi das primeiras pessoas em Portugal a passar grandes nomes das músicas do mundo, nomeadamente da música africana. Lembro-me, por exemplo, de ter sido no “Som da Frente” que ouvi pela primeira vez Salif Keita ou soukous do Congo, se não me engano o Kanda Bongo Man…

antonio sergio pose

A ligação com o Sérgio que eu tinha era viver na Amadora, num sétimo andar e passar as noites na internet da altura, que era ouvir rádio, à procura de coisas interessantes. E, muitas vezes, parava naturalmente nos programas do Sérgio. E gravei muitas coisas dos programas dele que, à semelhança do que eu ouvia da minha tia e dos meus tios, não me lembro de todos os nomes mas marcaram-me. E, mais tarde, oiço coisas que me parecem familiares que, por causa deles, reconheço que já me tinha sido dadas a conhecer por alguém anos antes. No caso dessa minha tia que já referi e dos meus tios, eles deram-me a ouvir muita música a que chamavam merengue. Foi o nome que me ficou.

Na altura, tudo o que era música angolana, principalmente para dançar, era merengue.

Sim, e todos os géneros eram encaixados no merengue. Até nas capas dos discos. É tipo a salsa, que dá para tudo. E cresci com o merengue na cabeça.

Contextualizando: tu nasceste em que ano e quando é que vieste para Portugal?

Nasci em 1974 e, passado um ano e tal, parte da minha família veio para cá. Há uma parte da família que ficou em Angola, a parte de Luanda, porque esta cidade era na altura e, veio-se a provar, até hoje, onde as guerras não chegavam de forma tão directa. Luanda acabou por ficar sempre nas mãos do MPLA e a guerra (civil) só chegou à porta, nunca entrou. Quer dizer, a guerra sentiu-se em todo o lado, até cá… Mas do ponto de vista da ameaça física, Luanda conseguiu-se aguentar. Huambo é outra história: foi completamente devastada. E então, a decisão – acho que do meu avô – foi aproveitar algo que foi oferecido a quem lá estava, a possibilidade de virem para Portugal. Tanto a quem tinha emigrado para lá há poucos anos como a quem tinha nascido em Angola e que nunca tinha estado em Portugal. Há “retornados” que, na realidade, nunca retornaram porque nunca cá estiveram… (A propósito do choque que foi esse regresso) Crescer na minha família era diferente de crescer numa família Portuguesa de cá: as músicas eram diferentes, as comidas eram diferentes, o sotaque e as palavras eram diferentes, o estado psíquico era diferente; as pessoas estavam cá mas estavam sempre num condição precária e para muitos temporária, porque tinham sempre a esperança de um dia voltar para Angola (assim que um dia essa oportunidade se proporcionasse), mas isso nunca chegou. O pensamento era: “Havemos de voltar”. Entretanto estávamos sempre à espera que chegasse o contentor com as nossas coisas, ou parte delas. Eu cresci numa cama que tinha vindo de lá mas houve coisas que nunca chegaram. Muitos foram desistindo e adaptando-se mas outros mantiveram-se firmes na esperança do regresso e até numa certa recusa em aceitar que íamos ficar por cá por muito tempo. Uma vez vi um filme, “Good Bye, Lenin!”, que se passava em Berlim (já depois da reunificação alemã) e em que o filho mantinha a sua mãe que estava doente, a pensar que ainda vivia na Alemanha comunista, porque ela era feliz assim. Nós crescemos um bocadinho assim. O exemplo mais flagrante na minha família, era um tio-avô meu, o tio Horácio – e eu sou um bocadinho como ele -, que se recusava a aceitar o frio de Lisboa. E então, andava sempre de camisola de alças e de calção. Mesmo no Inverno, ele ficava por casa com todos os aquecedores acesos e com uma temperatura ainda superior à de Luanda, de onde ele era. Lembro-me de ouvir queixas dos outros adultos, por estar quente demais.

Vieste especificamente para onde?

Vim para o Monte Estoril. Vivi numa estalagem de onde tenho as minhas primeiras memórias e depois num quarto na Rota do Sol, em Carcavelos. Fiz a escola primária em Cascais e, apesar de haver lá uma comunidade, não era o sítio mais africano dos arredores de Lisboa. E então, na escola, juntei-me a um rapaz que também tinha vindo de África como eu, o Adérito, e a um espanhol que era o Pedro. Ficámos os melhores amigos porque éramos os forasteiros, os estrangeiros. Fomos logo identificados pela malta toda, porque nessas idades os miúdos são tramados. Levámos com alcunhas como o Feijoada ou o Iarne (Nota: I.A.R.N. era o acrónimo do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais). Mas uma das coisas mais fixes de que eu me lembro é que depois nos integraram porque o Feijoada era o melhor jogador da bola de toda a escola – mas de longe – e também dançava bem; mais tarde, os primeiros movimentos de break dance que eu vi foi nele e num primo. Depois, eu e o espanhol dividíamos a meias o facto de sermos os melhores alunos da escola inteira e éramos usados como demonstrações noutras escolas. Portanto, os três tipos ostracizados de repente eram os maiores da escola. Safei-me porque não era só o nerd que sabia as coisas todas, mas também tinha esta ligação ao Adérito e ao segundo melhor jogador da escola, o Pedro Espanhol. Eu não era tão bom como eles mas criou-se ali um team e a coisa correu bem. Nessa fase, nem os meus avós, nem a minha mãe tinham casa e eu andei muito de tio em tio. Vivia aqui mas estava rodeado de pessoas que estavam constantemente a dizer, e à frente das crianças que os adultos pensam que não ouvem as conversas mas ouvem, quem iam voltar para lá.  Iam retornar.  Com o tempo foram-se habituando ao facto de poderem não regressar mas continuei a ouvir coisas como a minha mãe que sempre que ia ao Alentejo, dizia: “ah, isto faz-me lembrar a nossa terra…”.

O Alentejo, por ventura, será aquilo que nós temos mais próximos de um “deserto”, com as nossas cegonhas a fazer ninhos nos postes da electricidade à semelhança dos ninhos do tecelão nos postes do deserto do Namibe…

Isso. Lisboa terá sido uma cidade estranha para eles. Lisboa, aparentemente, era uma cidade mais conservadora do que eram Nova Lisboa/Huambo ou Luanda naquela época. Cresci com os adultos a queixarem-se de uma certa tacanhez, de as pessoas não serem tão afáveis e confiáveis como as pessoas de lá. Quando comecei a ir ao Alentejo ou à Beira percebi que as pessoas das aldeias daqui eram mais parecidas com essa ideia de porta aberta e do tal quintal de que tanto falavam. Eles passaram um mau bocado. Foram mal recebidos, não por toda a gente, claro. Lembro-me de um dia o meu avô chegar a casa e contar – eu estava ouvir mas ele não se apercebeu – que o tinham chamado algo do tipo “selvagem” ou “vai-te embora para a tua terra” e que tinha havido quase pancada. Cresci com esta dissonância, portanto, durante muitos anos eu não estava cá; estava algures num sítio de que os adultos falavam e onde deveríamos estar. Só quando cheguei à escola naquela fase idiota dos treze, catorze anos, que são um desperdício… Um dia vou transformar isto numa poesia mais bonita, mas é mesmo um desperdício, com muita distorção – nem é punk-rock, é só distorção mesmo -, muita hormona, muitas borbulhas e muita parvoíce. E, muitas vezes, uma fuga para a frente na tua vida social. É que tentei fazer parte do rebanho.

Integraste-te nalguma tribo musical, de moda?

censurados

Eu tentei, mas não consegui. Na Amadora, mais tarde, já havia um ambiente mais misturado… Havia uma Amadora antiga que era mais rural, de pessoas que não eram bem de Lisboa (porque tinham vindo do interior), e depois havia uma Amadora que era de toda a gente, em que não importava se se era de Cabo Verde, Angola, Moçambique ou de uma terrinha em Portugal. Nós, em crianças, não pensávamos de onde cada um vinha. Era irrelevante. Queríamos era jogar à bola, andar de skate e ir a concertos dos Vómito, dos X-Acto e dos Censurados, ali no Parque Central da Amadora. Passear no Babilónia ou ir ao Lido.

Há bocado falaste de punk-rock e começaste mesmo por aí, pelo punk e pelo hardcore, não foi?

Sim, também. Lembro-me de ir comprar uns Doc Martens porque era complicado andar com uns ténis levezinhos no meio do moche. Não era para agredir… Era, como alguém me explicou: “Tu aqui tens que ter umas botas com uma biqueira não sei quantas para não te pisarem”. Tentei entrar nessa tribo.

Mas também já havia uma cena hip-hop a nascer na Amadora nessa altura, finais dos anos 80, não havia?

Sim, na minha rua havia de tudo. Tinha amigos no prédio que eram mais Joy Division e outros eram mais punk, mas nas ruas do lado já havia hip-hop, que ia do duvidoso MC Hammer aos Public Enemy. Mas também herdei muita coisa de um primo meu que, já uns anos antes disso, era DJ e que era o hip-hop quase em pleno: ele pintava (grafittis), era DJ, tinha microfone e ainda dançava (breakdance). Só não era MC, era mais um animador…

Como é que se chama esse teu primo?

É o Carlos, que na altura assinava como DJ C. C de Carlos. E ele marcou-me muito. A primeira vez que vi o estaminé de DJ dele montado, tinha eu para aí uns nove anos, eu pensei “não sei o que isto é, mas eu quero isto para a minha vida”. Aqueles botões todos, as músicas a fundirem-se e a dança… Ele era mais velho do que eu, já tinha mesada – coisa que eu não sabia o que era – e comprava muitos discos, muitos deles importados. E eu tive essa sorte, que é sorte, de ter contactado com isso tudo durante o meu crescimento. Quando eu ia ver as colecções de discos dos pais dos meus amigos, aquilo era só os ABBA, as colectâneas do Reader’s Digest, as “Super Bombas” ou o “Top Genius”. Mesmo hoje, quando vais ver sítios que vendem discos de vinil em segunda mão, na Feira da Ladra por exemplo, a memória que encontras desses anos é essa.

O que é que a tua família mais próxima ouvia em casa?

Eu também tive a sorte de a minha mãe não ouvir nada disso. Ela, ainda em Angola, já ouvia rock, música psicadélica… A Censura não chegava lá de uma forma tão eficaz e isso daria uma maior liberdade aos jovens, tanto ao nível da música como na forma de estarem… as mini-saias, as liambas e outras coisas. Da maneira como a minha cabeça funciona ainda hoje, estou convencido que caí num caldeirão de qualquer coisa quando era pequenino. Não sei; não quero responsabilizar a minha mãe (risos). Mas se há coisas que eu nunca experimentei mas que me são muito familiares no processo mental, lá isso há. A cena do psicadelismo bate-me. Também devo à minha mãe ter ouvido coisas da Stax, Motown e essa cenas. Depois, da parte do meu padrasto herdei ali uma zona toda de prog-rock e de fusão. Ele era músico de jazz e também fez parte de uma banda que eram os Ananga-Ranga… Eu e o meu padrasto não nos dávamos bem e, também por isso, no meu quarto ouviam-se coisas distintas do que se ouvia na sala, que era mais os Herbie Hancocks da vida. Lembro-me de o único disco que eu lá fui buscar do Herbie Hancock ser precisamente aquele que o meu padrasto disse ser já um esticanço dele: o “Future Shock”, que tinha o “Rockit”. Ele não mo deu mas emprestou-mo e eu levei-o para o quarto para ouvir. Bateu-me forte e feio porque me soava aos discos de Break e cenas Electro do meu primo. Grandmaster Flash, Neucleus, mas também o Malcolm Mclaren. Ainda hoje, acho aquele disco do Malcolm McLaren, o “Duck Rock”, das coisas mais fixes que já ouvi na vida. Adorava o ambiente rádio do disco e o som do scratch.

E também apanhaste com muita música africana, suponho…

Sim, primeiro através dessa tia que eu já referi e que só ouvia merengue mas também a música de carnaval e de passagem-de-ano, que tinha tanto de música de Angola como de Cabo Verde, do Brasil como daquelas músicas de baile tipicamente portuguesas. E isso, tudo junto, marcou-me de certa forma. Na adolescência depois queres fugir disso, nem queres ter nada a ver com aquelas pessoas e achas aquilo tudo um embaraço: adultos a dançar daquela maneira, a suar! E então comecei a ir mais para essa zona 4ad, mas também dance e electrónica… A questão das tribos na Amadora: sim, tentei encaixar-me, sempre tentei e até hoje ainda tento. Mas é tramado quando o teu caminho é feito de vários caminhos. Não há ninguém que te acompanhe do princípio até ao fim e não há muita gente que te reconheça como fazendo parte do caminho em que estás: “Eh pá, tu chegaste agora?”, “Não, já cheguei há uns anos”. “E vais para onde? Para o mesmo sítio para onde vou?”, “Não, por acaso vai haver um momento em que vou virar à direita”. E um tipo aí já fica naquela: “Ah, então tu não vais estar comigo o tempo inteiro”. Agora só me ocorre a vida partidária ao estar a falar nisto (risos). Há a cena de se fazer um caminho próprio e depois há a sobrevivência – que é uma coisa física e visceral – e que te agrupa naturalmente. Não há elefante na selva que ande sozinho porque quer. Normalmente é porque foi mandado embora, ou porque está a morrer, porque doente ou está numa fase em que aparvalhou e eles mandam-no embora. E os leões fazem o mesmo e nós fazemos isso. Mas eu sempre tive essa sensação de não conseguir encaixar em lado nenhum e de muitas das vezes que eu passava o tal teste… Chumbava mais à frente. Revia-me muito naqueles desenhos-animados do Patinho Feio…

E do Calimero, não?

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Sim, o desgraçado do Calimero (risos). Também gostava muito da Mosca Soca (personagem dos desenhos-animados da Abelha Maia) que eu achava que era uma personagem mais oblíqua. Também tinha óculos, como eu, uns óculos que depois o Bono veio mais tarde a usar. A Abelha Maia era fixe mas a Mosca Soca era muito mais fixe. Lembro-me de chegar à Secundária da Amadora e de estar com os meus Doc Martens, umas calças de ganga que também não eram aquelas do “fixe” e de ter uma T-shirt fluorescente que dizia Califórnia ou Surf e ainda lhe juntar um penteado parecido ao do Elvis ou do Morrissey. E aquilo, os sapatos com o cabelo mais ou menos, mas “pá, essa T-shirt aí, oh Pedro, o que é que é isso?”. “Oh pá, não sei…”. E quando ia ter com os surfistas era a mesma coisa: “Hei, essa T-shirt é muito fixe, onde compraste?”. “Oh pá, trouxe da África do Sul e aquilo lá, a cultura do surf, é incrível”. “Hei, estiveste na África do Sul? Fixe. Mas esses sapatos pá!”. Ires para a praia de Doc Martens não batia. E quando comecei a ouvir música de dança, aquilo a que se chamava a “música das bolinhas”, o acid-house, ainda pior. Eu ia no autocarro a ouvir aquele som do (Roland TB)303 e a achar um piadão. E um amigo meu, do pessoal mais “vanguarda”, a perguntar-me: “Então, mas tu também gostas disto?”. A coisa boa é que as pessoas que ficavam minhas amigas eram mesmo minhas amigas. Mas era complicado, porque eu estava constantemente a trair a fidelidadeque uma tribo exige… Não aprecio a disciplina de voto.

Mas isso também significa, obviamente, que és uma pessoa aberta a variadíssimas e diferentíssimas sonoridades. E isso é bom, não é?

Eh pá, eu gosto de tudo o que gosto. O português percebe melhor isto se lhe falares de comida: “Pá, o que é melhor? Uma vichiçoise ou um tremoço?”. E o que já comeu vichiçoise diz: “Eh pá, isso é bom mas o tremoço ninguém me tira” (risos). E então percebe que há a possibilidade democrática de gostar de coisas altamente rebuscadas e de coisas mais simples. Com bola e comida, o pessoal entende logo. Mas com arte, cultura ou questões de  identidade é um bocadinho mais complicado. No geral temos uma falta de cultura e de cultivo de nós mesmos muito grande. Não dá nem para ser nacionalista nem para ser o tipo que está sempre a falar mal. E depois também há essas tribos: “Mas tu és dos gajos que não gosta disto e gosta só do estrangeiro e dos ‘amaricanos’ ou és dos gajos que adora e é quase já nacionalista e a resvalar já para outro lado?”. Ali, naquela fase dos Doc Martens e cabelo curto também havia isso: “Então, tu és dos fixes ou és um filho da mãe de um fascista?”. Foi uma adolescência sofrida a esse nível. Quando voltei para Carcavelos, com dezasseis anos, já era mais a escola “Rock em Stock” do que “Som da Frente”, o rock FM e afins…

Aquela coisa horrível que é o A.O.R – Adult Oriented Rock…

Eu ia exactamente dizer isso, mas depois contive-me (risos).

Ainda antes de começarmos a falar da tua ligação mais directa à música enquanto DJ, tenho outra pergunta para te fazer. Chegaste a ir para a faculdade, mas…

Não dei continuidade. Eu queria tirar filosofia mas toda a gente me dizia que eu devia tirar direito. Só que quando percebi o que era o direito, desinteressei-me. Interessava-me a defesa de causas ou o tipo que não tem acesso a uma boa defesa mas depois, quando percebes que isso tem um lado tão formal… Acabei por ir parar a marketing porque era o único curso para onde eu podia ir sem pensar, com as notas que tinha já estava lá dentro. Fui para o marketing com a mesma lógica do direito: podia ser fixe porque a publicidade parecia ser uma ferramenta para transformar mais pessoas, mais ainda do que uma rádio ou uma televisão. Mas depois também percebi o lado perverso da coisa e também me desinteressei.  Já a filosofia não é um curso, é um exercício permanente, é um respirar. E percebi isso com o meu primeiro professor de filosofia, na Escola Secundária da Amadora, que no fim do primeiro período foi expulso, o que só atesta da sua qualidade. E não precisei de mais, só mesmo daquelas primeiras aulas dele. Ele puxava pelo nosso pensamento próprio, não pelo debitar do pensamento (de outrem). E aprendi mais naquelas semanas com ele do com qualquer outro professor ao longo da minha vida.

Como, e quando, é que foram os teus primeiros tempos de DJ?

Tinha os meus dezassete anos quando comecei a passar música e, nessa altura, eu queria passar música de dança, mas as pessoas queriam ouvir e dançar o já referido Rock FM e então eu procurava  as versões mais longas, máxis e 12 polegadas, para conseguir uma lógica mais dance. Depois, naquela idade, a prioridade acaba por ser a aceitação e facilmente cais em passar aquilo a que a pista reage mais.

Começaste em que discotecas?

A primeira vez ainda estava na Amadora e ofereci-me para várias discotecas que, depois, vim a saber que eram casas de passe (risos). Na minha ingenuidade, eu andava à procura de emprego nos jornais e eram só essas que apareciam. Finalmente consegui um casting numa discoteca na Ericeira, chamada Ouriço ou Polvo (Nota: É Ouriço, mesmo), qualquer coisa assim, e a coisa correu bem. Foi a primeira vez que mexi nuns Technics a sério – e adorei a experiência.

Quando eras miúdo já querias tomar conta dos gira-discos nas festas?

pwita

Tomar conta do gira-discos não, mas lembro-me que apesar de ser muito discreto – era o miúdo que ficava desfocado nas fotos – eu e os meus primos organizávamos shows nos jantares de família e fazíamos umas versões de música brasileira, angolana e outros géneros. Nós cantávamos, tocávamos a marimba e a cuíca, que eram as coisas que existiam lá por casa e embora não as soubéssemos tocar: batíamos naquilo e fazíamos (algo parecido com música). Longe estava eu de saber que a cuíca brasileira vem de um instrumento angolano…

A pwita.

E aqui em Portugal também há instrumentos semelhantes.

A sarronca, a zamburra…

Exacto. O que só vem mais uma vez provar que isso do apego ao que é “nosso” não faz muito sentido. É de facto tudo nosso. Do mundo. Mas eu e os meus primos, sempre que havia uma festa de família, obrigávamos os adultos a fazer ali uma pausa para nos verem a fazer uma cena que tinha o seu lado musical (Nota: a biografia de Pedro refere que compôs com os primos uma canção, tinha ele oito anos, chamada “Surukundina”), um lado teatral e de dança, um lado de palhaçada…

Olha, vamos fazer uma pausa para comer uns rissóis mas quero que vás pensando numa pergunta que te vou fazer a seguir: qual foi o dia, a hora ou o momento em que disseste: “Eh pá, eu sou músico”?

Ainda não aconteceu (risos).

(…)

Como é que a rádio – que foi a tua actividade principal e continuada antes do nascimento de Batida, há dez anos – apareceu na tua vida?

Com catorze ou quinze anos comecei a ter uma vontade louca de fazer rádio. Muito por influência do António Sérgio, das rádios piratas, da NRJ – Rádio Energia e também da Marginal. Todas juntas marcaram-me.

E começaste a fazer rádio antes ou depois de começares a ser DJ?

Foi ao mesmo tempo e, para mim, o DJing e a rádio eram a mesma coisa. E ainda acho o mesmo: podes ser essencialmente um comunicador mas a música também pode ser um meio de comunicação. E a rádio depois tornou-se o contrário: é só música e as pessoas não comunicam. Eu gosto das duas coisas…

Uma das coisas que mais me chateiam na “nova rádio” é: “Vamos passar dez músicas de seguida sem falar”. E eu penso: “E agora como é que eu sei o nome do artista ou da banda que fez esta canção que eu não conheço”?

É isso: “Vamos fazer amor e eu asseguro-te que tapo a minha cara nem falo. Não tem de haver intimidade”. Eu gostava dos comunicadores. Dos mais antigos marcou-me muito uma conversa com o Artur Agostinho… O Carlos Cruz era um gajo incrível a comunicar tanto na rádio como na televisão. Como depois, o Júlio Isidro, que dava esperança a todas as pessoas da rádio com nariz grande (risos) de poderem aparecer na televisão, com um papagaio e os Duran Duran ao mesmo tempo. Todo este potencial criativo, quer de comunicação quer pela proximidade com a música, me atraía.

Onde é que começaste a fazer rádio?

(A sério foi na) Marginal, que era uma rádio muito boa: era aquele período do grunge e tinha o seu quê de subversivo, com um rock que me interessava. E a comunicação também tinha um lado criativo. E quis sempre muito ir trabalhar para lá, mas sempre que lá ia ou não era recebido ou não tinham tempo ou diziam-me “não pá, tens que começar por uma rádio mais pequena” E eu, de mais pequena em mais pequena da Grande Lisboa, acabei na mais pequena de todas que era a Rádio Ocidente, em Mem Martins. E estive nessa rádio durante algum tempo, a fazer tudo o que me pediam, até que chegou uma altura em que surgiu um anúncio na Rádio Marginal: todos os domingos havia uma hora em que um ouvinte podia apresentar o seu programa. E então lá fui com uma lista do tal rock dos 80’s e eles escolheram-me porque já ninguém andava a passar aquilo. Correu tão bem que, a certa altura da emissão, eu tinha a malta toda da velha escola da Marginal e que eram as pessoas que ouvia – a Clara de Sousa, o Pedro Boucherie Mendes, o Francisco Penim, o Luís Piçarra… – que apareceram durante a emissão e disseram que queriam-me como estagiário. Fantástico. Durante um período muito curto tive uma formação com eles todos em várias áreas: jornalismo, produção, técnica, locução… mais tarde também com o Ricardo Guerra. Foi uma coisa muito rápida porque eles depois acabaram por sair quase todos por divergências com a direção. Foi a fase em que as rádios estavam a passar da fase de rádios humanas para rádios automatizadas, e a administração da Marginal tinha acabado de comprar uma máquina que na altura só havia na BBC e na Rádio Renascença e então houve ali uma crise de gestão de pessoas, salários… Eles acabaram por se ir demitindo aos poucos e poucos, o que criou um vazio de pessoas na rádio.

Essas máquinas, que agora estão generalizadas, mataram a rádio de programas de autor e implantou a ditadura das playlists…

Exacto. Mas isso acabou por ser bom para mim: fiquei lá com alguns colegas, mas sem ninguém que estivesse a conseguir dar rumo à coisa. E, poucos meses depois o dono da rádio desafiou-me, talvez prematuramente, para essa tarefa. Desisti da escola, do curso de marketing, porque estava finalmente a fazer aquilo que eu queria realmente fazer: ter uma antena para trabalhar… Ao fim de um ano e meio, em 1997, a rádio tinha passado de uma rádio rock para uma rádio alternativa que passava um pouco de tudo: pós-rock, hip-hop, trip-hop, drum’n’bass, reggae, jazz… Depois fui para a Voxx, que foi toda uma cena nova. A rádio não tinha ninguém. Quando cheguei lá era a Sofia Morais e um técnico de som, nem sequer havia microfones. E o Ricardo Casimiro, claro, que era o dono. Eu e o Ricardo tivemos uma relação muito intensa, muito destrutiva-construtiva, mas guardo boas memórias. Aprendi muito naquele processo e aquela rádio era a minha cara antes de eu saber. Se calhar ele convidou-me porque também sentiu isso. Ou então, não sei, talvez por ninguém querer trabalhar com ele na altura (risos). Mas gostei muito, tanto da liberdade que tive como o que fiz com as restrições, que também foram muitas, e que me fizeram crescer. Gostei muito da oportunidade que tive em contribuir para a identidade da rádio. Era um espaço de experimentação em que depois também contribuíram muito o Rui Vargas, o Miguel Quintão, o Carlos Cardoso e todos os que por lá passaram.

E quando é que surge o projecto da Rádio Fazuma?

batida_cartaz_radio_fazumaEm 2001 ou 2002. A Fazuma andou a viajar: esteve na Marginal, depois foi para Radar durante uns tempos e acabou por fixar-se na Antena 3 e RDP África.

Foi durante os anos da Fazuma que tiveste vontade de começar a fazer alguma coisa que não fosse “apenas” o DJing ou a rádio? Por exemplo, foi no âmbito da Fazuma que realizaste o documentário “É Dreda Ser Angolano”… E o que é que te deu para criar uma coisa chamada Batida?

O que aconteceu é que a Fazuma esgotou-se um bocadinho naquela cena do explorar a música mais de raiz: o afrobeat, os funks, o hip-hop, o reggae, etc… Cumpriu o seu papel mas havia todo um lado mais electrónico, mesmo dentro da Fazuma – o dancehall, por exemplo – que eu precisava de cultivar. E achava que fazê-lo dentro da Fazuma poderia descaracterizar as coisas. Tentei explorar esse lado mais electrónico e dos breaks, com o Dj Xoices, muito na onda do que estava a ser feito no Reino Unido, nos Estados Unidos, na Jamaica, mas ficava-me a faltar todo um lado com mais ligações a África e que tinha a ver com o que se passava em cidades como Luanda, Lagos, Acra (Gana), Joanesburgo ou Cidade do Cabo (ambas na África do Sul) e nos diálogos com a diáspora.

Passavas, então, para além de drum’n’bass, etc, o kuduro, kwaito, baile funk…

Já com a nova identidade Batida, sim. Fiquei histérico a primeira vez que ouvi kwaito na Metro FM! E acho que as pessoas não sabem bem o que é kwaito, mas na sua fase original é uma versão muito mais lenta de house e, então, tudo o que é mais urgente e às vezes quadrado no house ganha um espaço novo… Isto pode parecer muito teórico, mas é só pegar num tema de house clássico e desacelerá-lo. E no espaço que se ganha com isto dá para dizer mais coisas, mais ao estilo do rap, mas com um flow muito próprio. É um bocadinho como o reggae quando fica mais lento e abre-te um espaço natural para a consciência. No caso do kwaito também se usou esse espaço para afirmação de identidade e reivindicações contra o apartheid. Mas também tem um lado puramente hedonista e dançante, mais r’n’b.

E que tem sempre a ver com as raízes sul-africanas. Mesmo quando a Brenda Fassie começou a experimentar um lado mais pop do kwaito, nunca deixou de notar-se a raiz…

Sim, sem dúvida. E, nesse aspecto, o kwaito é uma música muito mais agregadora do que o kuduro, por exemplo. O kuduro nalguns casos pode ser  agregador mas é naturalmente mais desafiador, rápido… Porque Luanda também se transformou numa cidade muito urgente e pouco ligada a coisas que sejam moderadas. A guerra, o pós-guerra, a luta pela sobrevivência, empurram-te para a frente. Tem o seu quê de esquizofrénico. Tanto o kuduro, como o kwaito, ou o mzansi ou afro-house e até mais recentemente o gqom, são muito interessantes porque – tal como o Fela Kuti fez em relação ao afrobeat e à sua relação com o funk – são formas urbanas, modernas e sofisticadas de música feita ali naquelas cidades. São únicas. Afastam-se da ideia tipificada do étnico, do tradicional, que são facilmente atribuídos à música Africana no geral. E isso a mim, interessa-me muito.

Como vês os reflexos desses géneros africanos na música ocidental?

Vou pôr as coisas nestes termos: a música de Nova Iorque, Joanesburgo e Luanda são super-interessantes, com a diferença de que numas cidades há indústria discográfica e distribuição global, noutras ela foi feita só mais tarde pela net. Mas o valor humano, criativo, inovador, é o mesmo. Somos todos iguais. A diferença que há é que, de repente, há pessoas a apropriarem-se do som que vinha dessas cidades (africanas) e a traduzirem-nas para uma certa ideia de som moderno, urbano, ocidental é que… É bom existirem M.I.A.s mas ‘bora falar também das outras cenas, ‘bora falar do próprio funk (carioca) como ele é, do próprio kuduro, que já existe há muito tempo, ou a própria kizomba e do que já veio depois disso. E eu achava que esses universos não tinham o espaço merecido. Já havia muita gente a passar lounge de Washington, dub de Viena, techno ou dubstep, mas depois faltava aquele lado um bocadinho menos “elegante” da música electrónica que vinha de outros lugares. Juntei a essa vontade de mostrar o que se fazia nessas cidades, dos diálogos com a diáspora, em cidades como Paris, Londres, Lisboa, com a vontade de fazer a ligação ao passado também

Consegues lembrar-te do momento exacto em que a Batida, como projecto musical mesmo, nasceu?

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Sim, sem dúvida. O momento aconteceu enquanto fazia o  programa – aquilo que eu fazia era um DJ-mix, misturava muitas coisas juntas – “merengues” angolanos dos anos 70 e por sentir a necessidade de lhes meter beats do Carl Craig ou do DJ Znobia em cima. E, também, não estar satisfeito com os beats ou com as adaptações que eram feitas de outra maneira, como era o caso dos Buraka Som Sistema, que fizeram uma coisa fantástica e abriram as portas para muita coisa fora de Angola, mas não me revia totalmente no som e sentia que faltava ali essa percussão, esses batuques que encontrava no passado. E mesmo que ouvisses música electrónica (angolana) muito boa, havia um certo tipo de sons que não encontrava facilmente. O som da marimba já é mais batido, mas havia uns sons que não estavam lá: o som da dikanza, o som da ngoma…  Sons que sinto como angolanos. E descobri que um house ou um techno cruzado com estes ritmos ganhava outra cor e, ao mesmo tempo, essa música mais antiga ganhava outro sentido com aqueles beats mais modernos. Comecei a fazer muito disso no programa até que, de repente, faço a mesma brincadeira com o “Bazuka” para uma apresentação ao vivo na Casa da Música, Porto, do Sistema Sonoro da Fazuma. Não a estreei lá – a apresentação acabou mais cedo do que o previsto – mas fiquei cheio de vontade de acabar a música, que ia só em esboço. Num dos ensaios, o Bruno Lobato (Beat Laden) tinha-me oferecido o estúdio dele e foi aí que nasceu a versão final do “Bazuka”. E acrescentei-lhe uma história… Quando o Carlos Lamartine gravou esse tema (Nota: O original em que se baseia o tema de Batida) era quase uma homenagem à música afro-cubana, mas isto sou eu a teorizar: aquele “Bazuka!!!” parece aquilo que os cubanos têm, “Azucar!!!” mas fazendo o trocadilho com uma arma. Se calhar em 1970 isso teria alguma piada e até seria um bocadinho provocador, em 2007 é só má memória. Porque entretanto houve muita gente morta, muita gente amputada de corpo e de vida… E eu pensei: não vou fazer um beat de dança inócuo só com um gajo a dizer bazuka, bazuka, bazuka e está bom…

E aí foste pôr o sampler daquele rapaz que surge com ar esgazeado no “É Dreda Ser Angolano”, filme onde aliás aparecem muitos dos músicos e MCs que iriam depois acompanhar-te em Batida…

Sim, foi isso mesmo. E para o vídeo fui buscar imagens, não só dele, como imagens de arquivo que para mim são óbvias e fazem a ligação entre o ritmo da altura e de agora – com as danças tradicionais e as danças de agora, com as suas diferenças mas também com as suas semelhanças evidentes – e da guerra colonial que opôs o regime português aos movimentos independentistas de Angola (em confronto) com a imagem e aquilo que diz esse rapaz que perdeu a família na guerra civil angolana. Mas a história é sobre estilhaços de guerra que sobraram para todos.

O “Bazuka” abriu-te as portas para tudo o que viria a seguir, então…

Esse tema explica muitas coisas: a ligação ao passado histórico, político, mesmo emocional. Recentemente descobri que não o consigo dissociar do “Blue Monday”, dos New Order. Demorei anos a re-descobrir que o vídeo desse tema dos New Order, também tem um carácter bélico, com aqueles mísseis a serem disparados, e agora como DJ costumo misturar os dois videos, “Bazuka” e “Blue Monday”, não porque tenha sido inspirado directamente nesse tema – que vai ao disco-sound e ao Sylvester – mas porque se calhar a Amadora não está assim tão longe de Manchester. Quando fiz o “Bazuka” também quis provocar muito os meus amigos de Luanda. Que queria muito perceber e sentir como é que o “Bazuka” funcionava lá, em Luanda; como é que eles interagiam com o tema, se achavam que era próprio, que era adequado, que não era ofensivo… E quando lá fui tive o maior elogio possível: estava no Sambizanga, com o Luaty, o Sacerdote e juntou-se o DJ Waite, e este disse que gostava imenso daquele som e perguntou quem é que o tinha feito. O Sacerdote disse-lhe que tinha sido eu e ele desmanchou-se a rir à gargalhada; Porque ele não acreditava que tinha sido eu e tive que lhe abrir o computador para provar que era mesmo eu. Por um lado isso é ofensivo, mas levei como um elogio e um reconhecimento tribal… Porque tanto o Sacerdote como o DJ Waite aceitaram perfeitamente aquilo como uma coisa angolana. E isso é importante para mim, não por eu alguma vez ter tido dúvidas sobre a tal legitimidade de que já falámos no início desta conversa, mas mais por sentir que as pessoas de lá, kuduristas e malta do hip-hop e por aí fora, me aceitam naturalmente como também sendo dali. Essa identificação mútua também aconteceu com Conjunto Ngonguenha, na pessoa do Luaty (Ikonoklasta) e no meu caso, pela produção do Conductor ou pelo talento do K e pela amizade que desenvolvemos também.

Enquanto o teu primeiro álbum, “Batida”, é uma coisa mais fechada sobre Angola, no segundo – “Dois” – já abriste a outras zonas de África – e não só – e depois tens a experiência com os Konono Nº1. Isto tudo – e estou só a falar de álbuns e não de remisturas ou de outras colaborações tuas como o Africa Express do Damon Albarn – é uma evolução naturalíssima, não é?

O que aconteceu foi que no primeiro disco eu tentei ser coerente, porque pensava que ia ser o meu primeiro e o último disco, e acabou por ser mais a projecção de uma ideia: imagina como é que isto também poderia ser! Isto não é bem Dog Murras, não é bem Buraka Som Sistema, não é bem Carl Craig, não é bem Talking Heads… Não é nada disso; é mais o que poderia ter acontecido se se fizesse um álbum em Angola se não tivesse havido tantos traumas, tantos buracos. Criar uma bolha, um momento imaginário, em que o sonho e utopia não morreram… E esse momento ficou feito; já está. Mas aconteceu uma coisa completamente inesperada para mim: a Soundway, uma editora inglesa que só reeditava em CD discos antigos, e incríveis!, de música africana, quis começar o seu catálogo de projectos originais e contemporâneos com o meu disco. Não há coisa mais fixe que me poderia ter acontecido. Para mim, pensei que a coisa poderia ter acabado ali, mas a Soundway mudou tudo.

E como é que surgiram esses novos caminhos no segundo disco?

Como disse, nunca pensei fazê-lo mas quando estava a entregar o primeiro à Soundway aprecebi-me que tinha necessidade de, afinal, fazer mais coisas. E comecei a fazer músicas livremente, sem saber se alguma vez iriam parar a um disco ou não. Até que o Miles Cleret, da Soundway, me perguntou: “Então como é, há novo disco ou não há?”. E eu respondi: “Por acaso eu não pensei fazê-lo mas tenho aqui umas coisas e afinal quero”. E foram surgindo coisas novas. Sozinho, naquele tributo ao António Sérgio, ao cruzar-me com este ou com aquele artista, como o Birú nesse caso. E comecei a compor, não no sentido musical, mas no de juntar elementos… E senti-me mais livre, sem necessidade de fazer um statement qualquer, do que no primeiro. É assim que aparecem o François and The Atlas Mountains, que são uma banda indie francesa que grava para a Domino… Os Clash não têm nada a ver com o que havia no primeiro álbum, mas na minha vida não há como tirar os Clash. Acabei por utilizar um sample deles… O Mick Jones e o Paul Simonon quiseram saber tudo sobre a música e o que estava a fazer e só depois é que aprovaram. E como já reparaste, eu também tenho um amor pela África do Sul que não consigo pôr de parte e assim aparece o Spoek Mathambo…

E depois apareceram os Konono no “Konono Nº1 meets Batida”…

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Os Konono… Houve aqui uma coincidência feliz. Quando comecei a fazer o programa em 2007, os Konono Nº1 foram das primeiras bandas que fui sacar para, precisamente, fazer essa mistura não só da música antiga angolana, mas da música acústica africana, embora no caso deles com eléctrica… Estás a ver? Os Konono são bons por isto: porque não dá nem para lhes chamar tradicional nem moderno, nem acústico nem eléctrónico. É os Konono e pronto. É o som de Kinshasa nos anos 70 na cabeça de um senhor (Mingiedi Mawangu) que se tivesse conhecido o Thurston Moore (dos Sonic Youth), provavelmente também poderia ter feito qualquer coisinha com ele. E eles não são aquela coisa do “Uélele” e do étnico e do tribal. Não! Eles são de Kinshasa. O gajo não é um soba, ele é só um senhor de Kinshasa, que gosta de baterias de carro e é um engenhocas. E quando comecei a misturar essas coisas do não-electrónico com o electrónico, uma das coisas que agarrei logo para passar no programa, e passava, foi os Konono e aquele primeiro disco que saiu pela Crammed. E eu misturava-o com música angolana, porque era o que eu sentia como sendo de mais parecido com música de Angola que eu aprecio: a música com mais batuque e poeira… E mesmo no tempo do “Bazuka”, eu já misturava temas dos Konono com beats.

Longe de imaginar que um dia irias gravar um disco com eles.

Sim, nunca pensei que isso pudesse vir a acontecer. Quer dizer, há uns anos enviei um e-mail para a editora (Crammed) a dizer que gostava de fazer uma remistura de um tema de Konono. E nunca recebi resposta. Muitos anos mais tarde, o Marc Hollander, dono da editora, mandou-me uma mensagem a meio da noite que dizia: “Deram-me o teu contacto e sinto-me um bocado estúpido porque sei que me contactaste há uns anos atrás e nunca te respondi, mas eu gostava de te fazer um desafio”. E o desafio era fazer o disco. Disse-lhe logo que sim. O (produtor original de Konono) Vincent Kenis também estaria envolvido. Ele é uma pessoa muito conhecedora da música congolesa – chegou a tocar na banda do Franco! Fui ter com eles numa data da sua digressão e, uma coisa que eu percebi e eles perceberam, é que tínhamos que estar juntos a comer… Não era a falar do processo criativo, era o comer uns com os outros, conversar sobre as letras, o que serviria para sentir se dava para trabalharmos juntos ou não. E comemos, eu não falava muito bem francês, eles não falam português, mas percebemos que não só eu podia arranhar o francês como eles próprios também arranham o português. Porque o fundador Mingiedi é descendente de pessoas de Luanda e, apesar de já não ser vivo, está lá o filho Augustin, que também descende de angolanos. Há uma troca grande, sempre houve, entre Luanda e Kinshasa.

Parte de Angola e o Congo já foram o mesmo reino no passado, não é? E são conhecidos vários exemplos de músicos de origem angolana a tocar soukous com o Franco ou o Tabu Ley Rochereau, como o Sam Mangwana…

E que depois foi para Angola, tal como o Matadidi Mário (que nasceu em Angola, cresceu em Kinshasa e regressou depois à origem). E, para eles (Konono), Luanda está mesmo muito próxima: estavam sempre a dizer “bom-dia” e “tinto” e “macalhabo”, que é bacalhau, claro. O quererem fazer este disco comigo só prova mais uma vez que eles têm abertura para se aventurarem, o que aliás está no DNA deles. O próprio início de Konono foi já uma aventura: alguém (Mingiedi) electrificar um dos mais simbólicos instrumentos tradicionais africanos, o likembé (Nota: aquilo que noutros lugares tem o nome de m’bira, kalimba ou kissange e que, usando um anglicismo, se pode chamar “piano de polegar”), distorcer-lhe o som e fazê-lo soar mais parecido com a realidade de uma cidade africana do seu tempo. Sempre identifiquei aquele som como o exemplo mais moderno do que era a música africana, tal como outros gajos dos anos 70, digamos, mais psicadélicos. Quando comecei a fazer o disco com eles, já era fã e tinha essa afinidade estética. Mesmo aquela “lata” que eu uso, e que está na capa do meu segundo disco, não é mais do que um instrumento que uso para tocar os samples e que é feito numa lógica que, para mim, é um descendente de um kissange e de uma MPC. É um encontro entre os dois e, se calhar, também com um bocadinho daquelas guitarras sul-africanas que são feitas com latas de óleo. Para a generalidade das pessoas aquilo é só uma curiosidade, mas quando eu mostrei a minha lata aos Konono, eles toparam logo a ideia: “Oh, então tu fazes o mesmo que nós”. E quando eles trouxeram, para a minha garagem de Alcântara, os tan-tans, que são muito semelhantes às ngomas angolanas, os batuques, então foi a loucura: eu sempre quis sentir aquele som! O som daquela pele e daquela madeira liga-te imediatamente ao chão, à Terra. (…) Mas o que é curioso, paralelamente, é que eles ficaram fãs do meu kit de bateria e que eu lhes propus usar. Pediram-me para lhes fazer um igual e agora usam-no em todos os concertos; já não conseguem viver sem esse lado electrónico também. Adorei a experiência de gravar e tocar ao vivo com os Konono. Aprendi muito com eles.

Gostava que me falasses, brevemente, de algumas pessoas com quem te foste cruzando ao longo destes anos e que, de modo mais ou menos próximo, estão agora associados ao teu nome: Luaty Beirão, Bonga, Damon Albarn e Stromae.

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O Luaty é um caso à parte. Conheci-o por mail, como sendo ouvinte da Marginal e da Fazuma, e reconheci-o depois como autor de um tema que me tirou do sério e que saiu na altura pela Matarroa: “A Conspiração dos Moskitos Inofensivos”. Mais tarde fiquei fã do Conjunto Ngonguenha e fizemos por nos encontrar em Lisboa. E ficámos amigos para a vida. Somos irmãos. A nível artístico… gosto do facto de se adaptar a todos os desafios e de ser muito fácil desafiá-lo como MC. Tem um lado infantil e idiota tão desenvolvido quanto o comprometido.

E o Bonga?

O Bonga, como é obvio, marcou a minha infância. Aparecia muito na televisão e porque é aquela pessoa. Ainda há pouco tempo estive em casa dele, com ele a cozinhar e a mastigarmos gengibre. A vida já me deu coisas maravilhosas: estar com os Konono foi uma maravilha, estar com o Bonga, conversar e privar com ele, é muito mais fixe do que qualquer outra coisa que eu faça com ele. É muito importante os mais velhos e os mais novos falarem; descobrimos que somos muito mais próximos do que muitas vezes pensamos. E no caso de Angola, é essencial essa ponte. Na mesma época, o outro nome que me marcou muito foi também o Duo Ouro Negro, porque a minha avó era supostamente madrinha do Raul (Indipwo) e falavam muito deles. E o Duo Ouro Negro fazia aquela música para quem tinha estado em Angola mas já não estava lá… “Amanhã”… Mas, como carisma e quase como um super-herói, foi o Bonga. É muito presente. No ano passado pedi-lhe para ir fazer um scratch de dikanza comigo no Coliseu (Nota: no Red Bull Culture Clash) e ele foi lá fazê-lo. Uma maravilha. Quando as coisas ficaram azedas em Angola (Nota: A prisão e greve de fome de Luaty Beirão e de outros activistas angolanos em Luanda), ele foi muito solidário. Tem sido muito fixe.

Também te cruzaste com o Damon Albarn (Nota: Pedro fez a remistura de um tema dele, “Heavy Seas of Love”, e tocou com Albarn no projecto Africa Express).

Ele surpreendeu-me. (Fazendo um rewind) Gostava muito do primeiro disco dos Blur. Depois, não gosto tanto de outra fase deles, como o “Country House”… mas achei piada ao “13”, em que os Blur já estavam noutra zona e que me apanhou numa fase má, de perdas, na minha vida. Na altura fui ver a apresentação do disco à Suécia, entrevistei-o para a rádio e ele também estava um farrapo, tinha acabado com a namorada de longa data e aquele disco também era o reflexo disso. E aquilo que ele faz a seguir, aquele disco do Mali (Nota: “Mali Music”, 2002), não posso dizer que era muito bom mas acabou por fazer sentido para mim. OK, ele foi ao Mali, faz o que um europeu faz sempre – corta tudo, chop chop, loops e põe tudo a soar mais parecido com aquilo que se ouve cá -, mas achei bonito e percebi depois que aquilo mexeu com a cabeça dele. Adorei os Gorillaz, que são o supra-sumo do que é ser pop, criativo, multi-tudo e explorador. Porque é que não se pode meter o Ibrahim Ferrer, do Buena Vista Social Club, com o Dan the Automator e este com músicos dos Clash?… E quando conheci o projecto Africa Express confesso que, secretamente, desejei fazer parte dele. Cruzar o indie-rock com a cena africana e levar isso para palcos dos maiores festivais europeus é incrível! Toquei com eles, por exemplo, no encerramento do Festival Roskilde, na Dinamarca, com cem pessoas em palco e dezenas de milhares de pessoas à frente que não deixavam acabar o concerto – se fosse preciso ficávamos lá a tocar mais dois dias -, e foi absolutamente incrível!

Resta o Stromae…

O Stromae não o conheci tão bem. E musicalmente não me relaciono muito com aquele lado euro-disco que ele tem por vezes, mas gosto de tudo o resto. Ele conseguiu incorporar dança, letras, discurso, humor e ainda incluir as influências africanas na música que faz de uma forma única. Gosto muito do que conseguiu fazer. E fez-me bem ao ego saber que ele me quis para fazer a primeira parte de quatro concertos muito importantes para ele no centro da Europa.

Este ano, Batida comemora dez anos de existência…

Pois é. (pausa) Mas ainda não há nada de especial preparado para o aniversário mesmo, que é em Setembro. Não sou muito de datas. Mas vou ter músicas a sair e coisas novas a acontecer. Estreei agora em Groningen, no Eurosonic, uma nova ideia, o “The Almost Perfect DJ”, em que para além de brincar novamente com músicas que gosto como no início, tento divertir-me com os clichés daquilo que é ser um DJ grande nos dias que correm.

Não me digas que atiraste com bolos para o público como o Steve Aoki!

Bolos não, mas levei pastéis-de-nata.

António Pires