Mariana Carrizo : Coloca Asas na Copla Andina e Voa com Elas pelo Mundo

Inaugurando a parceria d’O Fado & Outras Músicas do Mundo com a revista de música ibero-americana Pura Mestiza, orgulhamo-nos de partilhar a entrevista conduzida por Adriana Pedret à cantora argentina de coplas Mariana Carrizo.

A copla, essa forma poética que serve de enquadramento para as letras e histórias mais populares, é a paisagem musical de Mariana Carrizo. Nela, com Mariana, esta copla veste-se de Andes e alimenta-se do quotidiano da vida, dessa cadeia de montanhas que ocupa a zona ocidental da América do Sul.

A copla e Mariana; Mariana e a copla. Fale-nos sobre essa relação.

Nasci em Valles Calchaquíes, província de Salta, em San Carlos (Argentina). Provavelmente a minha mãe suspirou profundamente e o vento levou até à sua barriga a copla e aí ela chegou até mim. O canto da copla naqueles lugares é a palavra e a música de cada dia. A minha avó levava-me às costas quando ia pastorear as cabras nas colinas, e em cada instante ia cantando ou recitando alguma copla, enquanto conversávamos, ou enquanto tecíamos, ou qualquer outra actividade que fosse possível levar a cabo durante a vigília do rebanho. À medida que fui crescendo o fogo do canto que sentia na alma tornava-se mais forte. Cantar no topo das colinas era como derramar a minha alma pela imensidão do universo. Ao observar os condores sobrevoar essas colinas nascia em mim a vontade de sair voando com eles. Por isso, cada vez que eles apareciam cantava tão forte quanto podia para que eles me ouvissem. A minha fantasia era que eles descessem e me levassem no seu bico para assim poder voar e admirar, das alturas,  a povoação onde eu vivia; coisas de crianças… Aos oito anos subi a um palco pela primeira vez, e ai experimentei o voo de um condor. Hoje em dia passa-me o mesmo, cada vez que abro a boca para cantar. Além disso, ao cantar a copla que os nossos antepassados nos cantam desde os seus tempos, isso sente-se no sangue; até a voz é espalhada pelo vento.

É verdade que as mulheres têm um imaginário especial para a copla andina?

A copla é uma expressão de todo um povo, homens e mulheres. Segundo as regiões e as suas particularidades culturais, destaca-se mais o canto de um género ou de outro género. Existem lugares onde o homem a canta quase na sua totalidade e outros onde a presença da mulher é arrasadora. De qualquer modo, quando a mensagem é transmitida por uma mulher, ela é muito especial. Penso isto porque a mensagem é transmitida a partir de um laço maternal, é um extra de luz existencial, em todos os aspetos.

Quando canta as suas coplas sente que estabelece uma ligação com a alma dos antepassados dessa tradição?

Existe um transe que me invade assim que penso na copla e que se intensifica quando estou a cantar. É um canal caudaloso que vem dos nossos antepassados e sai aos quatro ventos. E então transformamo-nos numa simples e pequena ferramenta desse instante; terminando o canto termina-se um tempo de vida, como se fôssemos cigarras, até que voltamos a cantar novamente… Quando nos encontramos com outros cantores da copla esses sentimentos tornam-se ainda  mais intensos, porque o canto colectivo converte-se numa única voz, viva e fortificada (sic), que trespassa os ossos e ecoa na barriga do céu e do tempo e isso atravessa-nos a todos os que nos encontramos aí cantando. Passa-se o mesmo quando me encontro com alguns cantores de outros países, culturas, de outras músicas ou línguas, etc. Referindo apenas algumas experiências muito bonitas que recordo, (passou-se o mesmo) ao cantar com cantores de flamenco, ou com as caixeiras do Brasil (Nota: Maranhão), cruzar improvisações com os troveiros de Espanha e de outros lugares do mundo. Não são os países que se encontram no canto mas sim as almas, os antepassados, os pássaros de outras dimensões. E isso também sucede com os cantores muito especiais, porque neles habita a raiz milenária; como o alto voo que foi cantar com Dulce Pontes, ou com o cantor de flamenco David Palomar (de Cádis) e assim, sucessivamente, poderia seguir com a lista de artistas que são pura luz na sua arte.

A copla é uma via que é usada para expressar desigualdades?

A vida inteira está escrita numa copla. As desigualdades são mais um tema sobre o qual se pode falar, e como esta última é antiquíssima e intemporal:

La pucha con don gobierno
Que no deja de embromar.
Si le falta pa cigarro,
Otro impuesto ha ‘i decretar.

Ou esta mais recente:

Dios hizo primero al hombre.
Después hizo a la mujer.
Porque solo el pobrecito
No sabía pa’n de correr.

Para mim, as coplas são bengalas que a vida me deu para vivê-la. Com elas posso ir onde quero e falar dos temas que quero; são as minhas amigas, companheiras de luta, regozijo, partículas das quais sou composta.

Adriana Pedret

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)

Leia a entrevista original, em espanhol, aqui.

Dona Ubenza – Teledisco animado de Mariana Carrizo para o tema com o mesmo nome do autor Chaço Echenique e que faz parte do seu álbum “Coplas de Sangue”. Animação em stop-motion realizada por El Birque Animaciones – Córdova, Argentina.