Machinas Fallantes : As Vozes Invisíveis da Modernidade, por Leonor Losa

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Machinas Fallantes

Leonor Losa

Tinta da China

 

O livro “Machinas Fallantes” é um dos resultados do projecto A Indústria Fonográfica em Portugal no Século XX, que se desenvolveu no Instituto de Etnomusicologia entre os anos de 2008-2011. Depois de um longo processo de levantamento e estudo da música em Portugal no século XX, cujo resultado se encontra expresso na Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, constatámos que o processo de introdução e banalização da música gravada no país que teve lugar na primeira e segunda décadas do século passado, se rodeava de um profundo desconhecimento. “Vozes Invisíveis” foi a minha proposta inicial de título para este livro. Perante a fealdade da minha proposta, a editora propôs-me muito acertadamente a mudança para “Machinas Fallantes”, a expressão que popularmente designava então os gramofones.

Há, contudo, uma razão para eu recuperar da minha memória a primeira opção de nomeação, agora que fui desafiada a escrever sobre o livro que encerrei há quase três anos. A invisibilidade do meu título ia além da metáfora da modernidade do som gravado, aquela de que com o invento de Edison era agora possível, pela primeira vez na história, apartarmo-nos da nossa própria voz, reproduzi-la vezes sem conta, e deixar invisível o seu original produtor e isso, claro está, encerrar também um pouco de magia. Na verdade, o que pretendia com a proposta inicial de título era dar conta daquele que me pareceu ser o mais evidente dos traços da história dos primeiros anos de gravação em Portugal.

machinas-fallantes-6Se nos era possível traçar uma história de continuidade da indústria fonográfica a partir dos anos 30, o que se havia passado anteriormente – durante o que é comummente designado ‘período da gravação acústica’ – era-nos totalmente desconhecido. Quando e em que circunstâncias a sociedade portuguesa havia tomado contacto com a música gravada? Que música era essa? Quem eram os seus intérpretes? Quem foram os responsáveis por introduzir a moderna tecnologia de gravação e reprodução sonora nas casas portuguesas? Como teria a sociedade recebido a novidade? Havia, como se supunha, um atraso na recepção destas mercadorias face a outros contextos geográficos internacionais, nomeadamente aqueles que se configuravam como centrais na adopção de sofisticação? Tentar responder a estas e muitas outras questões, fazia parte do intuito inicial do projecto. Contudo, o que mais me inquietava era compreender porque razão, ao contrário de outros processos culturais e históricos daquele período, esta história se tinha remetido ao esquecimento, a um silêncio ensurdecedor, só violentamente interrompido quando, acidentalmente, um disco centenário era posto a rodar e nos trazia, mais do que música, o ruído do pó que ocupava as estrias do velho, trôpego e exótico objecto.

A invisibilidade histórica da chegada das mercadorias fonográficas ao país guiou, deste modo, a investigação. À medida que o levantamento de fontes foi sendo realizado, rapidamente percebemos que, desde os primeiros anos do século XX, os discos proliferavam na capital e noutros centros urbanos portugueses. Lojas de utensílios e tecnologias modernas, como bicicletas, máquinas de costura ou óptica, ofereciam um leque alargado de discos e de gramofones. Se o reportório importado de música erudita e ópera se apresentava como consumo de luxo dado os elevados preços, já o reportório português era consideravelmente mais barato, sobretudo de canção popular, fados, cançonetas ou reportório do teatro musical. Caía por terra a tradicional leitura do atraso que parece enquadrar as narrativas históricas do país na aproximação à modernidade, mas levantavam-se outras questões que particularizavam o contexto português relativamente a outros contextos. E acentuava-se também a questão de invisibilidade histórica. Porque razão havia caído no esquecimento o surgimento deste sector de mercado que parecia tão agitado, e que acontecia em simultâneo com o seu desenvolvimento noutros centros urbanos europeus e norte-americanos?

Neste livro tentei dar conta de uma interpretação possível para a invisibilidade histórica do período de emergência e consolidação do mercado fonográfico no país. A minha visão, suportada pelas fontes de época, apontou a marginalidade da fonografia enquanto prática social destituída de significação cultural. Deste modo, procurei trazer à ribalta e tornar visíveis as figuras esquecidas desta história: lojistas e comerciantes, os principais animadores do mercado de discos em Portugal, caracterizados como empreendedores e entusiastas que, num cenário económico e social de instabilidade, contornaram a fraca autonomia que tinham relativamente à indústria fonográfica internacional para criar um mercado adequado ao contexto português; intérpretes que eram tanto nomes conhecidos dos palcos do teatro musical como, muitas vezes, nomes menos correntes no universo do espectáculo; reportórios, pautados pelas diversas categorias da canção popular do país e ainda sem um predomínio destacado do fado, género que progressivamente se afirmou como central nos catálogos das diversas editoras; e público que, sendo anónimo e disperso, tentei enquadrar num perfil de consumo e gosto que, a meu ver, lhe confere alguns traços de identidade de classe.

machinas-fallantes-9Para trazer à ribalta estes elementos esquecidos da história da música gravada em Portugal, o livro “Machinas Fallantes” conta não só com a narrativa descritiva desta história, mas com um recheado conteúdo iconográfico das fontes – anúncios, discos, fotografias de lojas e intérpretes, documentos de diversas ordens – e é acompanhado por um CD cujos exemplos musicais de música gravada entre a primeira e segunda décadas do século XX foram cuidadosamente restaurados e nos permitem aceder a um universo sonoro muito distinto daquele que nos é familiar.

O cenário inicial de marginalidade da musica gravada face a outras formas de consumo de música como os concertos, a ópera, o teatro musical ou a prática instrumental doméstica, transfigurou-se, contudo, ao longo das primeiras décadas do século XX. Com a chegada da gravação eléctrica ao país e o aumento significativo da fidelidade do som gravado, os discos ganharam um novo fulgor e encontraram um público interessado, atento e aficionado que os colocou num patamar de consumo moderno e de elite. Reportórios, intérpretes, agentes fonográficos e aparelhos de audição foram renovados. De modo a traçar esta trajectória ascendente dos discos, decidi prolongar o levantamento histórico deste livro até ao momento em que surgiram em Portugal as primeiras fábricas de discos, nos anos 50. Se este fenómeno pode ser lido num processo generalizado de industrialização do país, no que respeita o sector de mercado da música gravada tem de ser entendido como um momento fundamental em que, no lugar de um mercado fonográfico, Portugal passa a contar com uma indústria de música gravada. O mundo de possibilidades que daí advieram deverá contudo ser explorado em novos volumes e projectos que continuem a debruçar-se sobre a fascinante história da música popular como hoje a conhecemos: intimamente ligada à história da gravação.

Leonor Losa