O Fado ao Espelho : Reflexos Visuais de Uma Herança Imaterial, por António Pires

O fado, enquanto forma de arte musical e poética, faz  parte do domínio do imaterial. Mas a sua matéria reflecte-se em variadíssimas representações visuais e iconográficas, seja na forma de retratos, pinturas, cartazes, fotos, capas de discos, de jornais ou de pautas, páginas de livros, caricaturas… e até em modernos grafittis, bandas-desenhadas, instalações, telediscos ou objectos de merchandising. Sem fazer qualquer tipo de hierarquia no que se refere ao gosto ou à sua validade artística e histórica, embora tentando manter uma certa coerência cronológica, O Fado & Outras Músicas do Mundo deixa aqui trinta imagens mais ou menos icónicas do fado – incluindo algumas das suas representações re-vividas no teatro, cinema ou bailado – enquanto espelho de uma expressão musical e poética que desde há muito transcende a própria música e poesia.

 

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Uma das mais antigas imagens inspiradas no fado de que há conhecimento é esta gravura, criada a partir de uma aguarela de Rafael Bordalo Pinheiro, “O Fadista”, datada de  1873.

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“O Fado”, pintura de José Malhoa datada de 1910, é o quadro mais icónico e imitado de sempre do fado. Esta é uma das duas versões desta obra (a outra é de 1909) e está patente ao público no Museu do Fado, em Lisboa.

 

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Capa da partitura do “Fado Republicano”, composto cinco dias de depois da implantação da república, em 1910, pelo famoso fadista Reynaldo Varella, um dos cantores mais gravados no início do Séc. XX em Portugal.

 

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O fadista coimbrão Hilário na capa do jornal “O Fado” – que viria a competir com jornais como “O Fadinho” ou “O Faduncho” -, antepassado distante deste  nosso O Fado & Outras Músicas do Mundo (1910).

 

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Embora sem representar directamente o fado – as capas de discos personalizadas estavam reservadas para o futuro – os velhos discos de 78 rpm são ainda uma memória viva desse género (anos 10 do Séc. XX).

 

 

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Publicidade da editora Sassetti – com arte de Stuart Carvalhais – a um disco de fado, “Olhos Tristes”, interpretado por Guilhermina Paiva na revista “Cigarro Brejeiro”, estreada no Teatro Apolo, em Lisboa, 1922.

 

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O mesmo Stuart Carvalhais (1887/1961) foi caricaturista, ilustrador e director de jornais satíricos. Esta é a sua visão muito pessoal do fado (ilustração dos anos 20 do Séc. XX), também ela muito glosada posteriormente.

 

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O primeiro filme sonoro português foi “A Severa”, dedicado à lendária cantadeira do Séc. XIX Maria Severa Onofriana. O filme, dirigido por Leitão de Barros e baseado na peça homónima de Júlio Dantas, estreou em 1930.

 

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Cartaz de um concerto da fadista Berta Cardoso – a Rainha das Cantadeiras Nacionais – em Paço de Arcos, a 18 de Setembro de 1935. O preço do bilhete era um escudo (cinquenta cêntimos de euro).

 

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Alfredo Marceneiro ficou conhecido por este nome devido à sua profissão original, de que fez jus quando construiu em madeira a sua própria versão em três dimensões da “Casa da Mariquinhas” (anos 50 do Séc.XX).

 

paginas-do-livro-portugal-do-fado-de-mascarenhas-barreto-e-carlos-brancoDuas páginas do belíssimo e raro livro “Portugal do Fado”, de Mascarenhas Barreto (recentemente falecido) e Carlos Branco,  lançado pela Guimarães Editores em 1960.

 

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Capa do LP “The Fabulous Marceneiro” (1961), de Alfredo (Duarte) Marceneiro, gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo, Lisboa), pelo saudoso engenheiro-de-som Hugo Ribeiro.

 

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Joaquim Valente retratou Amália Rodrigues nesta escultura conhecida como “Busto”. O seu álbum de 1962, homónimo, ficaria popularmente conhecido por esta mesma designação (“Busto”).

 

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De novo Amália, num bilhete de concerto de uma misteriosa e ainda não convenientemente estudada digressão da fadista por várias cidades da antiga União Soviética (1969).

 

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A enorme fadista, actriz e comediante Hermínia Silva atreveu-se a cantar temas pop com o Quarteto 1111, de José Cid, em 1970. Foi no – oiçam-na – divertidíssimo EP “A Hermínia Canta Yé-Yé”.

 

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“Um Homem na Cidade” (1977), de Carlos do Carmo, é um marco histórico do fado. As letras são de Ary dos Santos e a música de Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Luís Tinoco, Martinho d’Assunção ou António Victorino d’Almeida.

 

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Fotografada por quase todos os grandes retratistas portugueses, Eduardo Gajeiro foi aquele que em diversas imagens captou a essência mais humana, despida e frágil de Amália Rodrigues (anos 70 do Séc. XX).

 

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E depois da sua morte (1999), Amália Rodrigues foi homenageada de inúmeras maneiras. Aqui, o cartaz de “Amália – o Musical” (estreia em 2000), de Filipe La Féria, com 16 milhões de espectadores contabilizados e e ainda mais alguns agora.

 

 

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“Fados” é um controverso mas importantíssimo filme estreado em 2007, assinado pelo realizador espanhol Carlos Saura, que já tinha dedicado outras películas a géneros musicais igualmente nobres como o flamenco ou o tango.

 

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Em 2009, Dulce Pontes editou a dupla-colectânea “Momentos”, em que se incluía este inédito, “Júlia Galdéria” (com letra do seu tio Carlos Pontes a partir de “Júlia Florista”), cujo teledisco é inspirado n’”O Fado”, de José Malhoa. Oiça-se a pausa (e tudo o resto).

 

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Reclamando a sua portugalidade e uma continuada tradição, o Licor Beirão tem usado desde sempre motivos iconográficos nacionais na sua publicidade. Em 2009 foi o fado e parte do imaginário que lhe está associado.

 

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Em “Coração Independente Vermelho”, instalação de 2005, a escultora Joana Vasconcelos usou dois fados de Amália (“Estranha Forma de Vida” e “Maldição”) como banda-sonora.

 

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A 27 de Novembro de 2011, a Unesco elevou o Fado a Património Imaterial da Humanidade. Nas iniciativas que festejaram a distinção inclui-se esta colecção de selos dos CTT.

 

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Há inúmeros grafittis em Lisboa relacionados com o fado e a guitarra portuguesa. Neste reconhecem-se a Severa, Fernando Maurício e Carlos Paredes (anos 10 do Séc. XXI).

 

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Também variadíssimas representações escultóricas do fado estão espalhadas pela capital portuguesa. Esta escultura de Domingos Oliveira é um belo exemplo (anos 10 do Séc. XXI).

 

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Uma das mais belas e originais representações artísticas do fado – e, neste caso, de Amália – é este trabalho em calçada portuguesa assinado por Alexandre Farto, aka Vhils (2015).

 

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Para além do cinema e do teatro, também o bailado tem usado o fado como mote para muitas das suas criações. Na imagem, o Quorum Ballet e a sua coreografia “Correr o Fado” (anos 10 do Séc. XXI).

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Os grandes peotas nacionais – e não só – chegaram ao fado através de Amália e de outros, como comprova esta prancha do livro de banda-desenhada “Tudo Isto É Fado”, de Nuno Saraiva (2015).

 

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A memória ancestral do fado continua bem presente na actualidade. Na imagem, uma guitarra portuguesa pintada com uma réplica contemporânea d’”O Fado”, de José Malhoa (anos 10 do Séc. XXI).

 

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No mesmo sentido, a ilustração de Stuart Carvalhais dedicada ao fado e já referida nesta página foi recentemente recuperada em vários objectos, incluindo guarda-chuvas (anos 10 do Séc. XXI).

António Pires