Mariza : É Este o Meu Mundo

Inaugurando a parceria d’O Fado & Outras Músicas do Mundo com a Songlines, orgulhamo-nos de partilhar a entrevista a Mariza assinada pelo colaborador desta revista de música inglesa e nosso camarada Gonçalo Frota. Mariza, aliás, foi a vencedora dos Prémios de Música Songlines 2016, na categoria de Melhor Artista. Nesta entrevista, feita depois do lançamento do seu primeiro álbum em cinco anos, Mariza afirma que o fado não é uma limitação. E que “Mundo” é a sua maneira de dizer que está a viver tempos felizes.

Mariza nasceu prematura. A mãe estava grávida de seis meses quando, subitamente, interrompeu uma reunião familiar domingueira, em 1973, pedindo que a levassem ao hospital porque estava a ter as suas primeiras contracções. O pai de Mariza não levou a sério o pedido da esposa, considerando que se tratava de um falso alarme, um sintoma de ansiedade ocasional – devido a abortos anteriores – e continuou a preparar a feijoada que toda a gente esperava. Mas ela sabia o que estava mesmo a acontecer e voltou a insistir, já com a sua mala preparada para a maternidade. O marido levou-a para o hospital de Lourenço Marques (Maputo), em Moçambique, mas descrente num parto prematuro, voltou a casa para comer a sua feijoada e beber um copo com a família. Quando finalmente voltou ao hospital, o bebé já tinha nascido, mas numa condição tão frágil que, depois de ter olhado para a filha ainda sem nome, foi rezar para a capela do hospital. E foi aí que ele fez uma promessa: se aquela minúscula menina sobrevivesse, teria o nome da cantora brasileira Marisa Gata Mansa e um dia também seria cantora. “Estou a cumprir essa promessa do meu pai até aos dias de hoje”, diz Mariza. “Às vezes até me chateio e digo ‘bolas, eu é que pago a tua promessa; tu fazes a promessa e eu é que ando aqui a sofrer com as malas, para cima e para baixo’. Mas na realidade faço aquilo de que gosto, portanto não é sofrimento nenhum”. Durante alguns segundos, ela põe um ar sério, mas nós sabemos que não está a queixar-se da vida. Não há sofrimento ou sacrifício envolvido nesta decisão de escolher a música como o seu compromisso diário.

mariza_mundo-capa“Mundo”, o seu novo álbum, é Mariza a cantar como uma mulher repleta de felicidade. E voltamos à questão da maternidade. Muita coisa mudou na sua vida desde que lançou “Fado Tradicional”, em 2010. Deu à luz o seu primeiro filho, há cinco anos, casou-se e mudou drasticamente de estilo de vida. Disse adeus àquelas noites de fado que iam desde o jantar até à madrugada e deu as boas-vindas a um novo bem-estar na sua vida e na sua música. A música deixou de ser uma obsessão e tornou-se muito mais um prazer. “Antes de tudo isto acontecer”, diz, “tudo o que tinha era a minha música. Mas isso mudou”. Este novo estado de espírito começou a aparecer durante a sua digressão de regresso em que Mariza revisitava o reportório de “Terra” (2008). Em vez de se confinar ao palco, sentiu subitamente a necessidade de estar mais próxima e partilhar a sua felicidade com o público. Os concertos tornaram-se “algo mais íntimo” e ela começou a encurtar a distância entre o palco das grandes salas de espectáculos e os espectadores: descendo à plateia, conversando com eles, fazendo-os responder às suas perguntas, vendo os seus rostos, estando totalmente consciente de sua presença. “Sinto que é importante fazer isso, porque quando alguém gosta de um artista e ele mantem a distância, aquilo torna-se impessoal. E a música não pode ser impessoal. É um dar e receber”.

Este desejo de intimidade também está presente em todo o álbum “Mundo”. Quando o produtor espanhol Javier Limón, com quem Mariza já tinha trabalhado em “Terra”, lhe enviou as primeiras misturas, sentiu que o disco não correspondia ao som que tinha imaginado. Quando lhe telefonou e disse que aquilo ainda não estava certo, Limón desafiou-a a apanhar o avião seguinte para que pudessem trabalhar juntos na forma final do álbum. E assim aconteceu, embora ainda tivesse demorado algum tempo até chegarem a um entendimento. Limón propôs várias soluções, mas Mariza recusou todas. “Não é isso”, dizia ela. “O que é então?”, perguntava Limón. “Não quero nenhum efeito na minha voz. Quero que as pessoas sintam que estou a cantar ao seu ouvido, como se estivesse bem junto delas, tendo cada ouvinte como se fosse o único a escutar-me”. O produtor ficou tão surpreendido com a decisão de não-efeitos que ele mesmo perguntou a Mariza se ela queria realmente voltar à “pré-história” do trabalho em estúdio. Mas estava tão certa do que estava pretendendo que ele finalmente cedeu e ajudou-a a alcançar essa música íntima e envolvente.

Agora parece ter sido inevitável que Mariza procurasse uma nova direcção neste seu regresso. Gravou “Fado Tradicional”, em 2010, como uma homenagem aos seus ídolos do fado e enquanto celebração do décimo aniversário da sua carreira, o que a colocou numa espécie de bolha em relação à sua discografia anterior. Desde o início, e embora o fado tenha sempre um lugar especial no seu universo musical, Mariza nunca foi o tipo de fadista que se abstém de experimentar abordagens mais ousadas ou desrespeitar as restrições da tradição. “As letras e músicas (do fado) têm um tempo próprio”, afirma Mariza. “Há canções que costumavam ser realmente importantes para mim e cada vez que as cantava isso significava algo bastante doloroso. Mas quando as canto hoje em dia, apesar de obviamente recordar esse momento da minha vida, já não sinto o mesmo. Esse momento passou”.

Mariza reconhece que o simples facto de ter cantado essas canções construídas sobre o seu sofrimento, ajudou a aliviar a dor e funcionou como uma catarse emocional, uma limpeza de coisas do passado. “Mundo”, pelo contrário, foi criado sobre um pano de fundo diferente. O novo disco não podia ser o espelho de uma tristeza ou melancolia com a qual ela já não se sentia sintonizada. E é por isso que, não sendo compositora, tinha dúvidas sobre muito material que outros músicos lhe estavam a enviar. “Toda a gente que que me estava a oferecer canções e poemas estava a pensar em fado”. E sentia que eles estavam a responder a uma ideia particular dela e limitando-a ao que ela já tinha provado ser capaz de fazer. “Era tudo muito pesado e dramático”, confessa. “É claro que drama, melancolia e saudade estarão sempre presentes na minha música, mas eu estava – e ainda estou – a viver um período tão feliz, descontraído e romântico da minha vida que essas canções não faziam sentido para mim. Então comecei a conversar com esses compositores e a dizer-lhes onde me sinto agora. Desta forma, ‘Mundo’ acabou por ser um disco feito à medida, um ajuste perfeito. ‘Mundo’ é o meu mundo”.

JAVIER LIMON (Presentacion"MUJERES DE AGUA")Entre outras coisas, isso significou que quando Jorge Fernando – produtor de seu primeiro álbum de 2001, “Fado em Mim”, prolífico compositor e fadista – lhe ligou a pedir que fosse ao computador e abrisse um arquivo que ele tinha acabado de lhe enviar com um novo tema, a cantora se tenha assustado com o verso “como é que eu hei-de matar esta paixão”. “Eu não quero matar nada nem ninguém”, respondeu ela. Mas Fernando insistiu e convenceu Mariza a mostrar o tema a Javier Limón (na foto ao lado). Apesar de não estar segura de querer interpretar esta canção, que seria a última de mais de duas dúzias de composições que tinha mostrado a Limón, o produtor mostrou-se tão entusiasmado com ela, um entusiasmo contagiante, que Mariza ligou a Jorge Fernando para lhe fazer um pedido: será que ele concordaria em mudar a palavra “matar” para ela, ao invés, cantar “apagar”? E, com a aprovação do autor a esta alteração, Mariza e Limón começaram a trabalhar naquele que viria a ser o primeiro single do álbum, “Paixão”. Conhecido pelo seu olho afiado para novos talentos, Jorge Fernando desempenhou um papel muito importante em “Fado em Mim”, a impressionante apresentação de Mariza ao mundo. “Chuva”, juntamente com ‘Ó Gente da Minha Terra’, foram dois dos principais temas que fizeram de Mariza uma estrela instantânea em Portugal e abriram as portas para o fado a uma nova geração internacional, muitos anos depois da genialidade da viajante Amália Rodrigues. O reconhecimento imediato da singularidade de Mariza rapidamente a levou a trabalhar com Carlos Maria Trindade (dos Madredeus) em “Fado Curvo”, Jaques Morelenbaum (produtor brasileiro que também trabalhou com Caetano Veloso e Ryuichi Sakamoto) em “Transparente” e Javier Limón (conhecido pelo seu trabalho com Buika, Paco de Lucia e Estrella Morente) em “Terra”.

A pouco e pouco, Mariza foi absorvendo todas as culturas musicais com que entrou em contacto nas suas longas viagens, conhecendo músicos de todo o planeta e percebendo melhor a sua natureza mestiça e feita de misturas. Ainda criança, Mariza deixou Moçambique e mudou-se com os pais para Lisboa, que se instalaram na Mouraria, um dos bairros mais tradicionais da cidade. E provavelmente não haveria um cenário mais apropriado para que a sua musicalidade florescesse. Ela lembra-se “de toda a gente a cantar na rua, de escutar discos pelas janelas dos vizinhos”, num ambiente alegre e popular em que  vozes de cantores diferentes vinham de cada edifício, transformando as ruas numa competição que tinha como centro o disco que se ouvia mais alto. “As mulheres faziam a lida da casa enquanto usavam as canções de Fernando Maurício e Artur Batalha nesse despique”, recorda. Em casa, o pai de Mariza era o grande fã de fado e começou logo a levar a menina para convívios musicais ao fim-de-semana. Mas embora tenha sido o pai que a levou à descoberta do cantor de tango argentino Carlos Gardel (que está presente no seu repertório de “Mundo” através de sua interpretação de “Caprichosa”), Mariza diz muitas vezes que a mãe que foi absolutamente fundamental para o seu alargado universo musical. Naquela época, Mariza já ouvia cantores cabo-verdianos como Cesária Évora ou Bana, mas também músicas do Brasil, da Guiné e das Antilhas. Não é assim surpreendente que ela se sinta mais perto dos sons das suas raízes africanas do que de qualquer outra música. Durante os anos 90 houve uma intensa cena de música ao vivo cabo-verdiana em Lisboa que Mariza testemunhou em primeira mão e ‘Padoce de Céu Azul’, uma morna pela qual se apaixonou ao ouvir Tito Paris, representa essa linhagem no novo álbum. Foi um dos temas sobreviventes após Mariza e Limón o terem sujeito ao teste infalível de voz e guitarra.

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Acompanhada pelo hábil guitarrista Pedro Jóia, Mariza cantava cada uma das canções que tinham potencial para aparecer em “Mundo”, e ela e Limón só deixaram passar aquelas que não deixavam dúvidas de se encaixar perfeitamente no seu estilo de canto e na sua voz. Foi um processo cruel. Mariza teve que deixar cair algumas composições de que gostava imenso, mas que não encaixavam no espírito do disco. “Passámos três dias inteiros apenas a escolher as canções”, diz ela. “Mas sempre que voltava ao estúdio tinha dúvidas sobre algumas das músicas que estava a eliminar. E dizia ‘olha, afinal aquelas que tinha escolhido ontem, não, porque tenho de pôr esta. E ele respondia: ‘É impossível, não podes fazer dois discos’. Quase que chorava porque houve ali músicas de que foi muito difícil separar-me”. Quando Mariza começou a ter conversas com a sua editora sobre um novo álbum, foram sugeridos vários nomes de produtores, tentando seduzi-la para uma abordagem musical diferente. Mas sempre (que algum outro nome era sugerido) ela insistia em Javier Limón. Os dois tinham-se mantido em contacto desde a gravação de “Terra” e a comunicação sempre foi fácil com ele. Mariza sabia que seria cansativo tentar explicar o som que tinha na sua cabeça a qualquer outra pessoa que, provavelmente, não compartilhava a mesma linguagem musical. A maneira como o disco “Terra” foi feito, permitindo que quaisquer ideias não convencionais fossem incluídas, tinha incutido uma tal confiança em Mariza que ela sentia que precisava novamente de Limón em “Mundo” – este não era o momento para um novo começo.

O que Mariza não tinha previsto era que, no calor do momento e enquanto já estava em estúdio com Limón, um súbito desejo de gravar dois fados iria tomar conta ela. “Mundo” já tinha garantido um sabor brasileiro e um toque latino e africano, mas o mundo de Mariza não poderia ficar concluído sem uma pequena mostra do seu valor como fadista. ‘Maldição’ e ‘Anda o Sol na Minha Rua’ chegaram no último minuto, mas ainda conseguiram deixar uma marca forte e duradoura. Esta flexibilidade é um excelente exemplo de como as coisas mudaram na vida de Mariza desde que ela abraçou a maternidade. “Sinto que tenho uma maneira diferente e mais leve de lidar com tudo na minha vida”, diz ela. “Eu costumava ser altamente competitiva – comigo e com outros fadistas. Senti que tinha que ser a melhor. E queria estar no topo porque eu não tinha mais nada; a música foi toda a minha vida. É claro que, agora, ainda preciso de música, mas essa situação mudou radicalmente”. E isso é exatamente o que “Mundo” transparece. Mariza já não está a perseguir as estrelas. Está a olhá-las de longe e a desfrutar delas pacificamente.

Gonçalo Frota

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Songlines)

Leia a entrevista original, em inglês, aqui.