O Livro dos Fados : 180 Fados Tradicionais em Partituras, por António Parreira

É um trabalho a todos os níveis notável e pioneiro: “O Livro dos Fados – 180 Fados Tradicionais em Partituras”, do mestre da guitarra portuguesa António Parreira, tem um daqueles títulos que falam por si. Porque, apesar de haver livros com métodos de aprendizagem de guitarra portuguesa e sítios na internet que reúnem fados tradicionais, ainda não havia nas livrarias nenhuma obra impressa que compilasse os mais emblemáticos fados tradicionais transcritos para partitura e, para quem não sabe ler  pautas, em tablatura. Editado em 2014, pela EGEAC/Museu do Fado, os primeiros mil exemplares do livro – acerca do qual o musicólogo Rui Vieira Nery disse:”Fadistas e guitarristas, investigadores e estudiosos, profissionais e amadores poderão encontrar aqui um repositório cuidadosamente seleccionado daquilo a que poderíamos chamar ‘O Grande Cancioneiro do Fado’” – esgotaram em escassos seis meses. Na expectativa de uma segunda edição do livro e da eventual edição do novo livro de guitarradas por si desejado, O Fado & Outras Músicas do Mundo publica aqui um texto acerca desta obra, assinado pelo próprio António Parreira.

 

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O Livro dos Fados – 180 Fados Tradicionais em Partituras

António Parreira

EGEAC/Museu do Fado

 

Desde o seu início, há dezasseis anos, tenho a honra e o privilégio de ser professor de guitarra portuguesa na escola do Museu do Fado. Ensinar, transmitir aquilo que eu próprio aprendi ao longo de dezenas de anos de prática deste instrumento, é a única maneira de manter viva uma tradição que é maior que nós, que sempre nos transcende e transcenderá, mas que precisa destes humildes continuadores como eu, e muitos outros, para se manter viva, relevante e actual. Foi com amor, dedicação e exigência que eu ensinei os meus filhos Paulo e Ricardo, eles também a percorrerem já os seus próprios caminhos na guitarra e no fado, da mesma maneira que ensinei outros antes deles e tantos outros já neste curso que tem como finalidade a formação de guitarristas qualificados ao acompanhamento do fado e à abordagem solista do instrumento.

O curso demora cinco anos a concluir e, tal como eu sou exigente com os meus alunos, eles também exigem de mim que lhes ensine tudo, mas mesmo tudo, o que é possível ensinar e que ao mesmo tempo lhes proporcione ferramentas – teóricas e práticas – que lhes possibilitem seguir, por eles próprios, uma via própria na execução, interpretação e abordagem ao instrumento. Já há muito anos que visito livrarias em busca de livros de fado. E encontrava muitos livros – e muitos mais agora, desde que o Museu do Fado abriu portas e o fado foi considerado Património Oral e Imaterial da Humanidade – sobre a história do fado e as suas origens, sobre muitos fadistas e, até, sobre alguns grandes nomes  da guitarra portuguesa. Mas nunca encontrei um livro, um único livro que fosse, que reunisse músicas de fados transcritas para partitura e/ou tablatura. Já existem há muito tempo alguns manuais básicos de ensino de guitarra portuguesa, nomeadamente os de João Vitória, de Eurico Cebolo ou, mais recentemente, de Paulo Soares. E há também alguns sítios na internet que reúnem fados tradicionais em pauta. Mas um livro, livro mesmo, creio que este é o primeiro.

Foi devido às exigências do curso que lecciono, e dos meus alunos, que comecei a reunir no meu computador a transcrição de dezenas de fados tradicionais. Muitas vezes, um aluno pedia-me que eu lhe escrevesse um determinado fado, para ele estudar e praticar em casa. E eu assim fui fazendo. E como muitos deles não sabem ler música, eu escrevia a partitura e a tablatura, para os ajudar. E dei por mim com quase cem fados tradicionais guardados em ficheiros no computador. Metade do (futuro) livro estava feita. Houve muita gente a desafiar-me para o editar, mas o primeiro a fazê-lo foi um dos meus alunos, o Dr. Paulo Enes da Silveira, que percebeu o valor do espólio, digamos assim, que eu tinha ali guardado. Comecei a trabalhar afincadamente neste projecto e, durante alguns anos, dediquei-me a ele paralelalemente a todas as outras coisas que tenho para fazer. Depois, propus a edição ao Museu do Fado, que acarinhou a ideia e começou a trabalhar na sua concretização, o que viria a acontecer em Março de 2014.

Sou de uma geração – assim como algumas que vieram antes de mim e outras que se seguiriam – em que se aprendia a tocar guitarra portuguesa, e muitos outros instrumentos tradicionais, ouvindo e aprendendo com os mais velhos. No Alentejo, onde cresci – primeiro no Monte das Taipas, que pertence à freguesia de Sta. Margarida da Serra, no concelho de Grândola, e depois no Monte Pero Pardo, freguesia de S. Francisco da Serra, concelho de  Santiago do Cacém -, habituei-me a ouvir o som da guitarra portuguesa tocada nas festas, principalmente na feira que todos os meses havia lá no terreiro. O meu fascínio pelo instrumento era tal que, ainda miúdo, eu fugia de ao pé dos meus pais para ir ouvir as desgarradas acompanhadas à guitarra que havia nas tendas da feira. Comecei a aprender com o meu tio José Francisco – conhecido na aldeia como o Zé de Pero Pardo -, que me ensinou o Fado Corrido no 5º Ponto, e sem saber muito bem como nem porquê vi-me a tocar nas festas e nas tascas da região. Tinha talvez uns quinze anos quando comecei a tocar com o meu amigo e mestre António Chaínho, que era da mesma aldeia que eu mas alguns anos anos mais velho: foi com ele que comecei também a tocar viola, já que ele estava na guitarra portuguesa e precisava de alguém que o acompanhasse, quer na Tasca do Faúlha – de que era proprietário o Sr. Jorge Chaínho, pai do António – quer em eventos ali perto.

Quando vim para Lisboa e tentei entrar no circuito profissional do fado, uma das coisas que mais me chocaram foi o facto dos guitarristas – quando viam que alguém estava a observar o seu trabalho de mãos na guitarra portuguesa e desconfiando, tantas vezes com razão, que quem os observava queria aprender as suas técnicas, truques e manhas – virarem-nos as costas para que não pudéssemos ver o que estavam a fazer. Quem sou eu para fazer juízos morais sobre isto, mas considerando que os tempos são outros e bem mais solidários, é para mim um enorme orgulho poder contribuir com a minha prática, as minhas aulas e com este livro para a preservação e transmissão desta arte. No livro estão 180 fados tradicionais, dos mais conhecidos aos menos conhecidos – incluindo, entre outros, um que caiu completamente no esquecimento, o Fado Carlos da Maia em Quintilhas – e ainda faltam alguns, guardados para uma segunda edição. No meu tempo guardávamos tudo isto na memória – tal como a música de muitos outros fados, não tradicionais -, em breves apontamentos em cadernos ou, raras vezes, em gravadores de cassetes.

Há alguns meses gravei um disco de guitarradas – “Guitarra Portuguesa por António, Paulo e Ricardo Parreira” -, onde tive a companhia dos meus filhos. Infelizmente, não conseguimos ter tempo, devido a dificuldades em conciliar as agendas dos três, para ensaiarmos e gravarmos todos juntos. Mas o disco está muito bonito e foi outra declaração de amor à guitarra portuguesa. Esse disco deu-me ainda mais vontade de, num futuro breve, editar um novo livro, desta vez dedicado às guitarradas. Porque, se os fados tradicionais são feitos de guitarra e da voz do fadista, as guitarradas são uma conversa mais – e tantas vezes só – nossa, dos guitarristas. Para esse livro fica prometida, entre muitas e tantas outras guitarradas, a transcrição para partitura e tablatura do “Vira de Frielas”, as “Variações em Ré” do Fontes Rocha, o “Despertar” e a “Marcha Fadista” do Jaime Santos,  ou a “Rapsódia Portuguesa” do Martinho d’Assunção. Assim o alento, o tempo e a saúde me permitam.

António Parreira