De Lucinda Williams a Cass McCombs : A Melhor Folk de 2016 em Dez Discos (Mais Um), por Orlando Leite

Privilegiando o caos, como gosto, sem ordem de edição ou do melhor para o menos bom, pois todos eles fazem parte da minha restrita, criteriosa e pessoal escolha, passo em revisão os meus discos de cabeceira, portanto os melhores em minha opinião, de folk, country-folk e alt-folk de 2016. Alguns deles foram editados ainda sem a existência desta excelente, e sui generis, publicação, baptizada de O Fado & Outras Músicas do Mundo. E aqui vai, de novo armado em Rob Gordon, no caso não uma K7 mas uma lista dos melhores dez álbuns do ano. Dez + um para ser mais preciso.

 

Sam Beam & Jesca Hoop : Love Letter For Fire : Sub Pop/Popstock (Abril)

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Foi há cerca de década e meia que Sam Beam editou o seu primeiro registo de discos gravados em sua casa, sob o nome de Iron & Wine. Naquela época, difícil seria imaginar em que direcção rumava a música de Beam/Iron & Wine. As suas aventuras mais recentes foram com Ben Bridwell (Band of Horses) no álbum de 2015 “Sing into My Mouth”, e agora com a cantora e compositora Jesca Hoop, senhora há muito a merecer mais atenção de quem gosta destas “coisas” da folk, sobretudo devido à sua versátil voz. “Love Letter For Fire” é um disco com grande sensibilidade composicional, de grandes canções concebidas para funcionarem como conversas ao invés de monólogos, frescas e intemporais.

 

 

Neko Case/k.d. lang/Laura Veirs : case/lang/veirs : Anti-/Edel (Junho)

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Os supergrupos fazem parte fazem parte da minha memória, portanto fora de moda em tempos de agora. Muito surpreendido fiquei, ao tomar conhecimento, que três divas da folk/country, no caso de Case nos seus trabalhos paralelos à da sua banda (The New Pornographers), decidiram juntar vozes para criar um dos mais interessantes e criativo discos de 2016, “case/lang/veirs”. É inevitável não se comparar este trabalho, essencialmente por haver raros precedentes de artistas femininos se reunirem para fazer um disco, a “Trio” de Dolly Parton, Linda Ronstadt e Emmylou Harris (1987). Como escreveu Laura Snapes este tipo de formação é a ovelha negra na árvore genealógica dos supergrupos. “case/lang/veirs” é um encontro lógico, embora um pouco inesperado, que mantêm o espirito integral da folk/country de outros tempos e de outros autores como Parton, Cash, Lynn ou Orbison. Estas três mulheres não trabalham apenas a nível vocal, como compartilham as composições e os arranjos. Um requintado tributo à conexão e à reflexão sobre as coisas que nos ligam, com subtis declarações políticas.

 

Lucinda Williams : The Ghosts of Highway 20 : Highway 20 Records (Fevereiro)

lucinda williams capaLucinda Williams ainda é uma das grandes rebeldes cantoras norte-americanas, basta escutar o seu novo álbum para o comprovar. A compositora e intérprete que no final dos anos 80 trouxe uma lufada de ar fresco ao rock, introduzindo a country na sua música, o que lhe valeria um contrato com uma das mais prestigiadas editoras independentes da altura, a Rough Trade, volta a apostar na dupla de guitarristas de eleição Greg Leisz e Bill Frisell, para o seu novo duplo-álbum em apenas dois anos, “The Ghosts of Highway 20”. Cá para mim é o efeito Frisell! Neste novo disco são bem visíveis as mudanças em relação ao anterior “Down Where the Spirit Meets the Bone”, um duplo-registo discográfico inspirado na obra do poeta Miller Williams, pai de Lucinda. É sobretudo nas canções que é mais significativa a transmutação da cantora, pois regressa a um modo e a um tom muito mais melancólico, que muitos pensavam que tinha abandonado. Canções íntimas, dolorosas, poderosas sobre, como o título indica, os fantasmas desta coast to coast route: evocações de viagens, motéis degradados e anúncios degradados. De longe o melhor disco de Williams dos últimos anos com incursões na country/folk, blues e gospel e arranjos inventivos.

 

Okkervil River : Away : ATO Records/Edel (Setembro)

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“Away”, o primeiro disco dos Okkervil River sem os Okervill River, como faz questão de referir Will Sheff, o mentor da banda texana, é um trabalho que se aproxima de um disco a solo com o contributo de músicos folk, jazz e música clássica, como é o caso do grupo de música de câmara yMusic e do compositor erudito Nathan Thatcher. Nascido dessa grande perda pessoal, “Away” não tem o impulso dramático de “The Stage Names” ou a nostalgia de “The Silver Gymnasium”, um auto-retrato da sua juventude em New Hampshire. O resultado é um álbum que se sente muito distante do desgastado, uma aceitação do crescimento compassado em vez de se de debater contra uma carreira e vida aos 40 anos. O resultado é um álbum em que se sente uma aceitação por sua parte do crescimento compassado, em vez de se debater contra uma carreira e vida aos 40 anos. Ao longo das densas nove faixas que compõem o álbum, “Away” revela-se enganosamente meloso e melancólico. É apenas uma onda de maré de dor e os olhos arregalados de estar vivo, tão pungente como qualquer coisa que Nick Drake tenha escrito, repleto de dignidade resignada. Os sonhos nunca morrem, motivo primordial que Sheff transmite com tristeza e graça, por vezes, abjecta ao longo do surpreendente.“Away”.

 

Weyes Blood : Front Row Seat to Earth : Mexican Summer (Outubro)

Weyes Blood - capaNatalie Mering, que depois de ler o romance de Flannery O’Connor, “Wise Blood”, decidiu rebaptizar-se Weyes Blood, é uma nómada viajante que adora o mar e o deserto. A exemplo de outros viajantes, como Bruce Chatwin ou o meu amigo Tiago Salazar, adora escrever sobre as suas viagens e subsequentes experiências. Ao invés dos dois escritores em cima mencionados, Mering prefere relatar as suas vivências em formato canção. “Front Row Seat to Earth”, o terceiro capítulo da fã do poeta beat Philip Lamantia, é um disco que combina magistralmente o drama melancólico de Lana Del Rey com os toques etéreos de Liz Fraser (Cocteau Twins), vagueando pelo psicadelismo da folk britânica e da folk/country norte-americana das décadas de 60 e 70. Esses elementos são vivamente perceptiveis no tema “Do You Need My Love”, onde pequenos traços de psicadelismo ajudam a transformar uma grande canção de amor em algo mais atraente e cativante. Em outros tons, a brilhante “Generation Why” casa o barroco e o novo de forma transparente, as letras apresentam um olhar sóbrio e bonito para o futuro, para melhor ou pior. Independentemente do contexto musical, a profunda voz de Mering continua a ser o ponto fulcral de “Front Row Seat to Earth”, canalizando irrepreensivelmente os seus demónios pessoais e convocando paisagens familiares e estrangeiras. Um dos mais surpreendentes discos de 2016.

 

Cass McCombs : Mangy Love : Anti-/Edel (Agosto)

cass_mccombs_capa“Mangy Love” de Cass McCombs, à primeira audição, foi uma das minhas maiores apostas para os melhores de 2016. E por lá ficou. Com produção de Rob Schnapf e Dan Horhe, “Mangy Love” ilustra na perfeição aquilo que tem sido a carreira de McCombs: um edifício em construção lenta porém segura e de excelente traça arquitectónica. Neste novo álbum, McCombs faz-nos recuar no tempo evocando aqui e ali Elliott Smith, a que não é alheia a impecável produção de Rob Schnapf. Abordando sistematicamente questões sociopolíticas que, nos tempos que correm, inflamam a sociedade norte-americana, como é o caso de “Bum Bum Bum”, um grito de revolta contra a brutalidade policial sobre a comunidade afro-americana, apelando ao bom senso – incontestavelmente uma das mais canções de “Mangy Love”. Sem nunca renunciar a estruturas melódicas tradicionais, Cass McCombs prossegue na via social com a mesma inflamação lírica em “Run Sister Run”, um alerta sobre o sistema de justiça misógino, ou “Opposite House”, uma alusão às instituições para doentes mentais.
“Mangy Love” para além de ser um fabuloso disco é, também, muito elucidativo da evolução criativa de Cass McCombs, seja no capítulo letrista como no de composição.

 

Kevin Morby : Singing Saw : Dead Oceans/Popstock Portugal (Abril)

Kevin Morby capaOs discos de Kevin Morby sempre versaram a linha entre a sua imaginação e a vida real. “Harlem River” (2013) é um ciclo de canções que descrevem as experiências de sua vida passada em Nova Iorque, antes de se mudar para Los Angeles. “Still Life” (2014) amplia essa vertente com um conjunto mais abstrato de personagens extraídos de sua nova vida na Califórnia, revelando, até certo ponto, um compositor dylanesco com uma guitarra, contando histórias de crescimento e mudança. Neste seu novo registo, em que conta com a participação de Sam Cohen (Yellowbirds) na produção, mantêm esse estilo contudo, a participação e produção de Sam Cohen (Yellowbirds), acrescenta mais volume às suas canções com estruturas melódicas e rítmicas mais complexas. “Singing Saw” é um daqueles discos que de imediato capta a nossa atenção pela sua diversidade instrumental, vocal e rítmica, e em que Morby demonstra como é possível melodramatizar com sucesso a sua própria história ao “abrigo” das múltiplas personagens que povoam as suas músicas, contudo sem autocomiseração. No entanto, esta propensão é apenas um modo particular de perceber cada vida com abundante curiosidade e empatia. A profundidade das camadas que existem no interior das personagens de Morby é a marca de um estilo maduro de lirismo. Como Leonard Cohen, ele baseia-se em detalhes sensoriais concretos para contar as suas histórias. O efeito global é deslumbrante. Um leque de canções que oferece todas as promessas de seus discos anteriores e que apesar da excelente produção de Sam Cohen é Morby a ser centro sólido de todas as músicas, quer estejam inteiramente arranjadas ou escassamente decoradas. Este é um do disco de folk imprescindível, que estabelece Morby como um dos melhores cantores e compositores dos últimos anos no alt-folk, um must-own mesmo até para os fãs mais casuais do género.

 

Damien Jurado : Visions of Us on the Land : Secretly Canadian/Popstock (Março)

damien-jurado-capaDamien Jurado, é um habituée nesta coisa dos melhores do ano, quer se goste do homem ou não. Eu gosto e muito. Doze álbuns de estúdio depois, Jurado não se «cansa» de produzir magníficos registos como, por exemplo são o caso de “Rehearsals For Departure” (1999) – ainda hoje “Ohio” faz parte das minhas audições mensais –, “Caught in the Trees” (2008), “Saint Bartlett” (2010) ou “Maraqopa” (2012), e deste seu novo “Visions of Us on the Land”, o capítulo final de uma trilogia iniciada com “Maraqopa” , a que se seguiu “Brothers And Sisters Of The Eternal Son”, mais nas listagens dos melhores do ano, no caso de 2014. Esta suposta trilogia deve muito à colaboração de Jurado com Richard Swift, pois desde o seu primeiro trabalho (Caught in the Trees) em conjunto com o produtor e co-autor, o músico de Seattle deixou de ser o cantor e compositor sozinho no palco, sentado numa cadeira de madeira em frente de um microfone com guitarra e harmónica. Esta mudança trouxe-nos um Jurado mais alternativo de folk/country, de vertente mais tribal e psicadélica, como é possível escutar neste seu novo disco. Com elementos do espiritual e da ficção científica, “Visions…” é uma fascinante viagem através da América, com uma suposta companheira, convivendo com o gospel, country, folk, funk, rock, ritmos tribais. Uma odisseia intensa, que nos apreciar mais a profundidade da música de Jurado. O impulso inicialmente opressivo de material estilisticamente diverso dificilmente importa quando cada faixa do álbum é tão brilhante como em justificada. É também um testamento para o imenso talento de um dos talentos compositores da sua geração.

 

Shirley Collins : Lodestar : Domino/Popstock (Novembro)

shirleycollins_capaHá poucos nomes, se houver, da velha guarda da British folk revival dos anos 60 do século passado que tenham o peso e o reconhecimento de Shirley Collins. Seja sozinha, com sua irmã Dorothy (Dolly), ou ao lado de artistas de referência desse movimento – The Albion Band, Davy Graham ou The Incredible String Band, para citar apenas três – como artista, compositora ou colectora, o seu domínio do género não tinha paralelo, pela forma como Collins se harmonizava da tradição profunda folk com um princípio sempre ininterrupto de pureza e respeito. Companheira do grande Alan Lomax, na altura, anos 50 e 60, com ele percorreu os estados do sul norte-americano produzindo das mais amplamente elogiadas gravações de campo da música folk americana tradicional. Em 1964, ajudou a apontar o caminho para uma abordagem mais eclética da música folk britânica ao gravar com o guitarrista Davey Graham o álbum “Folk Roots, New Routes”. Se as gravações dos anos 50 e 60 de Shirley Collins de canções folk britânicas e norte-americanas ainda são cruciais para os fãs da música de raiz tradicional, “Lodestar” é fiel às raízes de Collins. “Lodestar” é o seu regresso aos estúdios desde “For Many as Will” (1978), gravado em parceria com a sua irmã Dolly e, apesar dos seus 81 anos, mantêm-se fiel à estética de colector de música folk dos meados do século passado pois parece que foi gravado ao vivo numa sala da sua casa em que se pode ouvir claramente a respiração de Collins e o ranger das cordas. São canções de crime e vingança, não de fantasias pastorais. Algumas baladas são mesmo desagradáveis no seu conteúdo (“Death and the Lady”, “Sur Le Borde De l’Eau” ), outras obscuramente engraçadas (“The Banks of Green Willow”, “Pretty Polly”) com Collins a soar como uma avozinha de contos de fadas, contando histórias emocionantes e assustadoras que transmitem advertências de homens estranhos na floresta. Os pontos fortes de Collins sempre foram a selecção de reportório e o desempenho vocal. Apesar de ter contraído disfonia, o que a deixou incapaz de cantar, o seu timbre não se perdeu com a idade pois ela sempre dependeu do fraseado sobre o tom.

 

Sturgill Simpson : A Sailor’s Guide to Earth : Atlantic/Warner (Abril)

sturgill-simpson-capaNão sou, e garantidamente nunca serei, um amante da música country dos Garth Brooks’s; Tim McGraw; Keith Urban; Shania Twain; Dolly Perton ou Carrie Underwood. Detesto aqueles chapéus de cowboy e os petulantes “atributos” saloios da grande maioria dos cantores country. Porém, venero o Johnny Cash, a Patsy Cline, a k.d. Lang, Lucinda Williams, e a denominada alt-country de Bonnie “Prince” Billy, Lambchop, Wilco, Neko Case, Ryan Adams, Green On Red ou Jason & the Scorchers. Serve esta entrada para afirmar que o senhor Sturgill Simpson, de Jackson, Kentucky, iniciado no bluegrass e estudioso da música tradicional norte-americana, ao terceiro disco entrou directamente para a minha lista dos “estes merecem ir para a minha cabeceira”. Possuidor de uma voz icónica e visceralmente afectiva, Sturgill já me havia surpreendido, e muito, no anterior e premiado “Metamodern Sounds in Country Music”, mas com este “A Sailor’s Guide to Earth” conquista-me em definitivo. Se, em 2014, “Metamodern Sounds” redefiniu a construção anatómica da música country, neste novo álbum faz o que poucos artistas do país de Nashville pensaram em fazer: Extraiu experiências pessoais significativas, o nascimento do seu filho por exemplo, e injetou-lhes filosofias pessoais no seu enredo, ao invés de pintar retratos sonoros de vida num rancho, ou o tamanho dos pneus do seu todo o terreno, ou cantar sobre as virtudes e a anatomia da Mary lá da terra. “A Sailor’s Guide to Earth” é um extraordinário registo discográfico de canções poderosas e evocativas que, por vezes, são sensíveis o suficiente para se sentir fisicamente adjacente a elas. Um disco repleto de belas canções mas que é incontornável não referir a cover de “In Bloom” dos Nirvana. Ao nível de “Hurt” dos Nine Inch Nails na versão de mestre Cash.

E por fim o outro, o álbum extra desta lista de dez.

Angel Olsen : My Woman : Jagjaguwar/Popstock  (Setembro)

angel-olsen-capaHá alguns anos, mais propriamente em 2012, recordo-me perfeitamente de ter ficado perdidamente enamorado, de modo figurativo claro, por uma jovem donzela de St. Louis, no Missouri, que acompanhada por uma guitarra cantava canções folk, de nome Angel Olsen. Ao seu segundo álbum, “Burn Your Fire for No Witness”, a minha nova paixoneta passa a integrar o meu curto rol de divas contemporâneas lado a lado com Hope Sandoval, Cat Power, Laura Marling ou Jesse Sykes. Neste seu novo disco, Olsen aventura-se numa extraordinariamente bem-sucedida mistura eclética de géneros, incluindo folk, grunge, dream-pop, synth-pop e rock. No entanto, nada aqui é confuso ou despropositado, pelo contrário. Para melhor distinguir “My Woman” dos anteriores registos, Angel Olsen cria um imaginário álbum com os tradicionais lados A e B, que divide as dez canções em dois grupos de cinco. As primeiras cinco faixas do álbum são definitivamente mais pop/rock, onde se destacam as cativantes “Shut Up Kiss Me” e “Intern”. A segunda metade, ou lado B para quem assim quiser, consiste em melodias mais introspectivas, em que a folk e o alt-country predominam. A divisão não é clara mas o álbum é coeso e dinâmico como um todo. A voz de Olsen volta a desdobrar-se graciosamente, ora com melódicos sussurros, outras vezes forte e implorante. Com o término do álbum emerge a sensação de que algo fica sem resposta. Não de insatisfação, mas sim de uma energia, inquietude e obscuridade difícil de definir. Brilhante.

Orlando Leite