Chico César : No Brasil sou Nordestino, No Mundo sou Latino-Americano

Chico César é um compositor, músico, escritor e jornalista brasileiro (Catolé do Rocha, Paraíba). Autor emocional, que não necessita de apresentação, dono de uma sensibilidade especial que imprime um selo de identidade à sua obra musical. Um pensador e cantor popular, que se nutre de ritmos nordestinos para nos oferecer um reportório de poesias cantadas, que segundo as suas próprias palavras “são a ponte entre o ‘eu’ e o outro, entre o que se passa no interior e no mundo exterior”.

Poeta, músico, jornalista e gestor cultural. Como consegue o Chico César conjugar todos estes papéis?

É o cidadão que une todos estes aspectos da minha personalidade e que elege o período em que um deles se faz mais presente ou se retrai. Por exemplo, estou afastado da actividade jornalística já há bastante tempo e não sinto falta dela. Creio ela também não sente falta que de mim (risos). O gestor também teve um tempo muito específico: pouco menos de seis anos, de 2009 até o fim de 2014 e no meu estado natal, a Paraíba. Sou mesmo um compositor de música popular, um cantautor que vê o mundo com olhos de esperança crítica e poesia. São a minha visão cidadã e o meu desejo cidadão que me colocam em movimento no mundo.

Mais de 25 anos como músico e 21 anos desde que gravou o seu primeiro disco. Como é que, ao longo dos anos, tem mudado a forma como encara uma canção?

Hoje sinto-me mais livre para compor do que quando comecei e, principalmente, do que quando comecei a fazer discos. O disco “Estado de Poesia” (Nota: O seu álbum mais recente, editado em 2015) nasce dessa liberdade no trato com a canção, da aceitação dos lugares ásperos do poema, do ruído na métrica, do amor às palavras “feias” e consideradas pouco poéticas. O parnaso vai ficando cada vez mais distante e dando lugar a uma informalidade que parece bruta e crua mas é o trabalho de anos que me faz aceitar mais a espontaneidade.

“Mama Africa vai e vem mas não se afasta de você”. Mas o quão distanciado está o resto do mundo de África?

Tudo é geopolítica, como diz o mestre Alceu Valença. E a África tem sido vítima de uma geopolítica cruel durante cinco séculos, inclusive de dentro pra fora, com uma elite que enriquece enquanto o seu povo é engolido pelas moscas.

“Estado de Poesia” é um disco com um reportório de oito anos de canções inéditas. O que o motiva a regressar a essas canções?

Eu estava na condição de gestor público de cultura no meu estado de origem, a Paraíba, e tinha os dias muito ocupados com as lides burocráticas. As minhas noites eram livres, desocupadas e insones nos primeiros seis meses. Nesse tempo não consegui fazer nenhuma canção de que realmente gostasse. Mas depois é como se algo tivesse assentado dentro de mim e voltei a escrever e tocar bastante para mim mesmo, sozinho em minhas noites. Nasceram-me canções e versos muito livres, quase anárquicos. Alguns bastante anárquicos. E depois, depois, veio o amor por Bárbara Santos — uma jovem actriz circense que conheci e pela qual me apaixonei. Muitas das canções desse disco eu as compus para ela. E depois casámo-nos.

A poesia é, na minha opinião, uma forma de viagem interior no sentido de encontrar o que sentimos na alma, um processo muito pessoal de estabelecer contacto com a alma. Quando a poesia se torna canção abrem-se umas asas enormes que nos permitem voar. As suas canções estão repletas de poesia. Como se vive vendo voar a sua palavra cantada? Tem outro sentido a sua criação?

As canções são uma ponte entre eu e o outro, entre o que me vai dentro e o mundo. É com elas, essas palavras cantadas, que eu quero ter interlocução com o mundo.

O nordeste – Paraíba – João Pessoa – A cidade onde o sol nasce primeiro… Que quantidade de identidade nordestina contém a música de Chico César?

Entendo o meu trabalho como música nordestina e latino-americana. O Nordeste é a minha matriz, o meu ponto inicial. Foi ele que me fez pedra de fisga e me lançou por aí, mas sou uma pedra de afectos e vou incorporando influências de todos os outros ares por onde passo. No Brasil vejo-me como nordestino, no mundo vejo-me como latino-americano. E a minha música diz isso também.

Adriana Pedret

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)

Leia a entrevista original, em espanhol, aqui.