Um Estranho Numa Terra Conhecida… Ou Como Um Banjo (Selvagem) se Cruza com o “Blade Runner”, por Carlos Norton

E, de repente, estamos em 2017, número que me deixa a sentir cada vez mais num futuro distante de promessas longínquas. Estamos apenas a dois anos de 2019, mas ainda longe (ou talvez não) de andróides sonharem com ovelhas eléctricas. “Do androids dream of electric sheep?”, de Philip K. Dick, foi escrito em 1968 e tinha como cenário o ano futuro de 1992. O filme baseado nesse livro, com o nome “Blade Runner – Perigo Iminente”, saiu em 1982 e apercebendo-se da distância impossível recolocaram o cenário em 2019. Em 1983, quando o filme chegou a Portugal, imaginei e sonhei com a década actual. Os andróides, os carros voadores, replicantes, as colónias exteriores. Muito diferente da realidade.

Regressando aos anos 80 (já esses desactualizados na óptica de George Orwell que em 1948 tinha previsto algo diferente), pouco depois de sair o “Blade Runner” comprei o meu primeiro instrumento musical. Um banjo de cinco cordas que namorava há uns tempos na montra daquela mítica loja na Rua de São José, em Lisboa. Nunca tinha visto um ao vivo até então, apenas em fotografias. Depois de largar as longas poupanças, fui para casa com o dito banjo.

E o que se faz com um instrumento novo que ninguém tem, ninguém toca, em plenos anos 80?

Dou umas dicas: Não havia internet. Não havia sequer computadores (apareciam nessa altura os ZX Spectrum 48k). Só tínhamos dois canais de televisão e, obviamente, nenhum exibia programas específicos de banjo. Não havia nenhuma biblioteca ou livraria com manuais de como tocar banjo de cinco cordas. E acima de tudo, não tinha ninguém que me ensinasse.

Resultado: horas em casa com cassetes de música country e bluegrass, ou a fazer abrandar por pressão os discos de vinil para conseguir perceber as frenéticas sucessões de notas. Quinze anos depois perguntava-me o Silas Oliveira (dos Dixiegang) nos camarins, entre troca de bandas, porque é que eu tocava apenas com dois dedos em vez dos três?

Hoje podemos ligar o computador, o tablet ou o telefone e temos de imediato uma lista completa de todos os fabricantes, luthiers, lojas e revendedores de banjos, com críticas e comparação de preços. Podemos encomendar um de qualquer país do mundo que chegará em poucos dias. E se quisermos afinar o banjo temos 76.000 videos a ensinar como o fazer (experimentem pesquisar “how to tune a 5-string banjo”). Fantástico!

banjo lessons

Por agora deixamos de lado o banjo e os anos 80. Vamos ao mundo e ao sempre. A música,  como a arte (incluindo no sentido lato artistas e artesãos), tem mestres e aprendizes. A arte ensina-se, transmite-se, passa de geração em geração. É um processo lento, mas genuíno, e acima de tudo, muito eficaz. Quantos aprendizes superaram os mestres? Acompanharam, observaram e perguntaram. Só então experimentaram e finalmente executaram e criaram.

Focando agora na música. A promiscuidade geográfica de instrumentos musicais é relativamente recente. Para além de uns quantos casos que remontam às primeiras formas de globalização, caso das navegações fenícias, viagens de Marco Polo, Descobrimentos Portugueses, a verdadeira confusão rebentou no início do séc. XXI, onde tudo ficou à distância de um “click”. Agora temos pessoas de países e cidades modernas e industriais a comprar instrumentos antigos e tradicionais de sociedades rurais, distantes e incompreensíveis. Não faz mal, certamente existirá um tutorial na internet a ensinar a tocar. Nada é mais estranho para nós. Estranhos somos nós, nesta Terra demasiado bem conhecida (sim, o título é uma referência ao livro de Robert A. Heinlein, editado em 1961 “Stranger in a Strange Land”). Não só é fácil como barato, já nem é preciso viajar pois conseguimos encomendar de países de outras ordens económicas, instrumentos a preços que fazem corar ¾ da população mundial.

Simples então. Vamos à net, procuramos instrumentos do mundo, comparamos preços, encomendamos, esperamos uns dias e o carteiro trará o fascinante objecto. Ligamos novamente a net, procuramos os manuais para totós com videos a explicar como segurar, afinar, limpar, tocar, pendurar ou guardar, tudo! E depois, claro, passadas duas semanas quando tiramos um som que nos agrada, filmamos e colocamos na internet para os próximos.

Se houvesse internet nos anos 80 eu hoje tocaria banjo com os três devidos dedos, mas não estaremos a perder algo no meio disto? O conhecimento é fundamental para a compreensão. E conhecermos o mundo inteiro através de um monitor é simplesmente bom. Mas não nos podemos esquecer de outros aspectos essenciais como o factor humano, a experiência, a vivência, a alma das pessoas e dos instrumentos. Conhecer verdadeiramente o instrumento. Não apenas a sua imagem e o seu som, mas compreendê-lo.

Na história da música muitos são os casos de transmissão não apenas da profissão mas do próprio instrumento de geração em geração. Noutros casos, os jovens músicos aprendiam instrumentos característicos da aldeia, da cidade ou da região. E, claro, sempre houve algum aventureiro, insatisfeito com o que o rodeava, ávido de novas experiências. Só que até ao séc. XXI, o método era bem simples. Viajavam. Não navegavam na net, viajavam quilómetros e conviviam com outros músicos e instrumentos. Alguns permaneciam anos a aprender e só então regressavam a casa. Outros nunca regressariam. Afinal, o mundo não está á distância de um “click”. Apenas obtemos imagens, sons e sensações avulsas. A experiência e a vivência é muito mais do que isso. Um instrumento não é um conjunto de cordas, metais, madeiras ou outro qualquer material. Um instrumento é uma história, quase sempre muito antiga, que se aprende com quem a conhece. Que se entende na essência antes de lhe jogarmos as mãos. Esquecer isto é banalizar um instrumento musical à sua forma ergonómica e respectivas propriedades acústicas. Esquecer isto é esquecer parte dos princípios fundamentais da arte musical – a alma, o respeito, a homenagem, o prazer.

Quanto ao meu banjo, está comigo bem guardadinho. Vou esperar para um dia enviar para um neto ou bisneto que esteja numa colónia de alguma lua de Saturno. A enviar à cobrança, evidentemente, que os tempos serão outros. Bom 2017!

Carlos Norton