Elza Soares : Do Planeta Fome… Até ao Fim do Mundo

Continuando a parceria d’O Fado & Outras Músicas do Mundo com a Songlines, publicamos nesta edição um artigo do jornalista Russ Slater – colaborador desta revista inglesa e editor do excelente Sounds and Colours – que traça o percurso da cantora brasileira Elza Soares, desde o início da carreira até à edição do mais recente álbum “A Mulher do Fim do Mundo”. O artigo original está incluído na secção “Begginer’s Guide” da Songlines. Elza Soares, refira-se entretanto, vai voltar a Portugal no dia 3 de Junho para um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e outro no NOS Primavera Sound, Porto, a 10 de Junho.

Elza Soares sempre construiu a sua carreira encontrando forças na adversidade. É essa característica que define o seu percurso, desde que o público brasileiro descobriu a sua voz na década de 1950. Elza Soares tinha apenas treze anos de idade, já era casada e tinha um filho doente que precisava de medicação cara. Com o sonho de vir a ser cantora e uma enorme necessidade de dinheiro, Elza Soares foi convidada para actuar no popular programa de rádio (com audiência ao vivo) de Ary Barroso. Usando um vestido que se mantinha preso por alfinetes e uma esfregona de cabelo torcida numas tranças, Elza Soares subiu ao palco e o público desatou a rir quando a viu nesses preparos. Ary Barroso aproveitou esse registo de comédia, olhou-a de cima a baixo e perguntou: “De que planeta é que você vem?”. Elza Soares respondeu de imediato: “Venho do planeta Fome”. E então cantou, com aquela sua voz própria, rouca e emocional, e as gargalhadas rapidamente se transformaram em aplausos. No fim da canção, o registo de Ary Barroso tinha mudado: “Acabou de nascer uma estrela”, profetizou ele.

Ao longo dos sessenta anos seguintes, a estrela de Elza Soares brilhou e esmoreceu inúmeras vezes; o seu estatuto de uma das melhores cantoras de samba do Brasil coexistiu com uma trágica vida pessoal. Agora com 79 anos de idade (embora segundo outras contas, com 86; a própria não tem certezas sobre a sua data de nascimento), Elza Soares editou um dos mais aclamados discos de toda a sua carreira, “A Mulher do Fim do Mundo”, e uma nova geração de fãs está a descobrir porque é que a BBC votou nela como a Melhor Cantora do Milénio em 2000. Filha de um operário e de uma lavadeira numa favela (Moça Bonita) do Rio de Janeiro, Elza Soares teve uma infância extremamente humilde que foi interrompida precocemente quando o pai lhe ordenou que se casasse, tinha ela doze anos de idade, pensando que esta era a melhor maneira de cercear as suas anormais e crescentes manias de “maria-rapaz”. Com o marido teve sete filhos, dois dos quais morreram de má nutrição, antes dele próprio morrer de tuberculose, deixando Elza Soares viúva aos 21 anos. Foi só então que ela começou a perseguir o sonho de uma carreira enquanto cantora. Primeiro pagou as suas dívidas actuando na rádio e passou algum tempo a cantar tangos e boleros na Argentina.

Depois, em 1960, assinou o seu primeiro contrato de gravação e nunca mais olhou para trás. A sua voz grave, muitas vezes comparada à de Ella Fitzgerald, e o seu nascente talento para fazer com que a voz soasse como um instrumento (Nota: scatting, no original), adaptavam-se na perfeição aos arranjos para grandes orquestras de samba desse tempo e teve um sucesso instantâneo com canções como “Se Acaso Você Chegasse” e “Mulata Assanhada”, ambos do seu álbum de estreia, “Se Acaso Você Chegasse”, em 1960. Ao longo dos anos 60, 70 e início dos 80, Elza Soares vincou o seu estatuto enquanto uma das melhores cantoras de samba, adaptando o seu estilo vocal consoante as elevadas exigências dos importantes arranjadores e músicos com que trabalhou. Fosse numa balada, num tema jazz cheio de ritmo ou num samba pleno de alma, havia poucas cantoras com a força e a singularidade de Elza Soares.

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Quando Louis Armstrong e Elza Soares foram convidados para cantar no Campeonato do Mundo de Futebol no Chile, em 1962, Armstrong disse que ela tinha “um saxofone na garganta”. Foi durante esse campeonato que Elza Soares se apaixonou por Garrincha, o famoso futebolista brasileiro que viria a ser o amor da sua vida. Quando Garrincha trocou a mulher por Elza Soares, o público brasileiro virou-se contra ela, acusando-a de ser imoral por ter roubado um homem casado. Foi ameaçada de morte e era habitual serem atirados ovos e tomates contra a sua casa, para além de cartazes ofensivos serem colados nas suas portas. Mas, apesar deste tratamento violento por parte do público, Elza Soares tentou sempre que o seu casamento com Garrincha resultasse, lutando contra os problemas de alcoolismo do marido, que estavam então a ficar fora de controlo. Elza Soares apoiou o marido mesmo quando a mãe dele morreu num acidente de viação, estando Garrincha bêbado ao volante do automóvel. E só o deixou em 1979, depois dele lhe ter batido. Garrincha viria depois a morrer de cirrose no fígado, em 1983. Tragicamente, o único filho do casal viria a morrer pouco tempo depois, com apenas nove anos, igualmente vítima de um acidente de viação.

O sucesso de Elza Soares, apesar de todos estes traumas pessoais e da sua escassa educação, é essencial para perceber porque é que tanta gente que é discriminada no Brasil – seja porque é pobre, negro, mulher, homossexual ou não-educado – a considera como um dos seus e encontra inspiração na sua forte personalidade. E é também vital para se perceber porque é que ela continua a fazer música. Em entrevistas recentes, Elza Soares declarou que não quer falar sobre o seu passado – talvez por ser demasiado doloroso – e, em vez disso, agarrou-se ainda mais à música, descrevendo-a como “um remédio para a alma”.

elza-soares-POSE2Depois de uma calma década de 90, o prémio da BBC em 2000 deu-lhe um novo impulso e Elza Soares reemergiu como uma portentosa artista com o álbum “Do Cóccix Até O Pescoço”, em 2002. Trabalhando com músicos e produtores muito mais novos, abraçou a música electrónica, o hip-hop e o acid-jazz num disco arrojado que lhe valeu a nomeação para um Grammy. Continuando na mesma linha, seguiram-se discos aventureiros nos anos seguintes que culminaram com a edição de “A Mulher do Fim do Mundo”, editado no Brasil em 2015 e laureado com vários prémios. Este álbum foi uma criação de Guilherme Kastrup, que quis reunir Elza Soares com alguns dos músicos e compositores que têm redefinido o samba de São Paulo nos últimos anos, inoculando-lhe elementos de dissonância, espiritualidade e free-jazz.

Elza Soares adoptou de imediato estas novas canções, escritas especificamente para ela, que falam de histórias quotidianas de violência doméstica, desigualdade, sexo e pobreza. Espantosamente, a sua voz está a soar melhor que nunca (ganhou força, em vez de a perder, ao longo dos anos), um testemunho de quão bem ela a soube preservar, mas também devido a todas as experiências que acumulou. Descrevendo o que o título do álbum significa para ela, Elza Soares afirma: “Penso que se refere a uma mulher corajosa que luta para defender outras mulheres”. Com coragem, atitude e esta voz notável ainda intacta, sente-se que a luta de Elza Soares, defendendo e cantando os marginalizados, vai continuar.

 

MELHORES ÁLBUNS:

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A Bossa Negra

(Odeon, 1961; reeditado pela Dubas Música, 2003)

O segundo álbum de Elza Soares foi gravado no auge da bossa-nova – daí o seu título atrevido, “A Bossa Negra”, que ironizava com o facto deste género musical ser dominado por cantores brancos da classe-média – e estabeleceria a sua marca que iria manter-se durante muitos álbuns seguintes, com arranjos para uma grande orquestra de samba que incluíam uma voz forte e jazzística, uma afiada secção de metais e uma luxuosa secção de cordas.

 

 

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Pede Passagem

(Odeon, 1972; reeditado pela EMI, 2004)

Neste álbum do início da década de 70, o estilo de Elza Soares deu um passo gigante na direcção do samba-soul depois de se aliar ao arranjador e pianista Dom Salvador. O disco contém clássicos como o swingante “Cheguendengo” e o funky “Amor Perfeito”

 

 

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Do Cóccix Até O Pescoço

(Maianga/Tratore, 2002)

Este disco marca a primeira grande reinvenção de Elza Soares. Aqui ela a sua voz em rap e como crooner sobre uma mistura de funk, batidas de hip-hop, exercícios de jazz com metais e um samba bizarro e indefinível, mostrando uma nova predileção pelo experimentalismo que viria a reacender a sua carreira no novo milénio.

 

 

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A Mulher do Fim do Mundo

(Mais Um Discos, 2015)

Desta vez, Elza Soares reúne-se com alguns dos mais inventivos músicos e compositores de samba de São Paulo. Recheado de letras comprometidas que falam de sexo, de igualdade e da vida no Brasil, bem como com uma definição livre de samba que inclui electrónica e guitarras eléctricas, “A Mulher do Fim do Mundo” é o disco mais arrojado da sua carreira.

 

SE GOSTA DE ELZA SOARES, OIÇA TAMBÉM…

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Velha Guarda da Portela – Tudo Azul

(Red Circle Music Limited, 2008)

A super-estrela brasileira Marisa Monte esteve ao leme deste trabalho de amor, escolhendo sambas clássicos que nunca tinham sido gravados anteriormente e reunindo membros lendários da escola de samba da Velha Guarda da Portela, do Rio de Janeiro, para os interpretar. O resultado é gloriosamente autêntico e surpreendentemente fresco.

 

Russ Slater

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Songlines)

Leia o artigo original, em inglês, aqui.