José Afonso por Rui Pato : Devo-lhe Muito do Que Eu Sei Sobre a Música e o Mundo

Zeca foi o primeiro companheiro “diferente”. Eu tinha 16 anos, tocava viola no grupo de fados do Liceu D. João III (em Coimbra) , acompanhava o Francisco Martins e , de vez em quando já acompanhava o António Portugal e o António Brojo. Imagine-se o que era para um jovem de 16 anos ter conhecido  o Zeca, numa fase da vida tão importante para o meu crescimento e também numa fase de Coimbra, ainda num estado quase medieval. As  suas opiniões desconcertantes, com humor corrosivo, a sua ironia cáustica , eram , juntamente com as suas permanentes distracções, o prato forte das longas tardes na Brasileira onde ele costumava ir e onde eu o conheci através do meu pai, amigo dele e frequentador da Brasileira. Trazia sempre consigo um livro… muitas vezes um saco de plástico com um livro e com vários medicamentos… uns para dormir… outros para acordar.

É esse o “meu primeiro Zeca”. Posteriormente, ele gostou de me ouvir tocar e escolheu-me para acompanhar os seus primeiros discos e também alguns pequenos espectáculos. Foi a minha segunda fase com ele. Que durou 3 anos. Ninguém ainda nos conhecia, poucos apreciavam aquela música esquisita, mas o Zeca queria mostrar os seus poemas, e eu queria mostrar que tocava viola “a atirar para o clássico” (era assim que o Zeca definia o meu estilo). Ainda não era o cantor “maldito”…isso acontece a partir dos finais de 1963…com os “Meninos do Bairro Negro” e com os “Vampiros”. Aí, tudo mudou.

Passámos a ser “combatentes” ;passamos a ser convidados pelas colectividades operárias, pelas associações de estudantes e…sempre sob o olhar da PIDE… Dezenas de temas foram criados nessa altura, apenas por ele com a minha ajuda, muitos espectáculos, pequenas digressões… Mas sempre como se fossemos combatentes…guerreiros de uma causa… a causa dele, dos desfavorecidos, contra a opressão. Tanto wem Faro, onde viveu durante estes anos…ele era desconhecido, anónimo…apenas um pequeno grupo de amigos constituíam o seu grupo. E eram todos personagens carismáticas, cultas, generosas…mas não era ainda nenhum “artista conhecido”…Só mais tarde vim a entender o papel que toda aquela nossa epopeia representou politicamente, poeticamente e musicalmente.

Por imperativos profissionais e por imposição da PIDE, a partir de 1969, deixei de acompanhar o Zeca, o Zeca deixou a sua fase “amadora”, a sua fase de matriz “coimbrã” e, felizmente, seguiu rumos novos. O meu último trabalho com ele foi, precisamente, os “Contos Velhos, Rumos Novos”. O Zeca  foi das personalidades mais importantes com que lidei. Foi também ele que me ensinou muito daquilo que ainda hoje sei sobre a música e o mundo… Devo-lhe grande parte daquilo que são os meus valores.

Rui Pato