Observatório da Canção de Protesto : No Princípio Era a Canção, por Alcides Bizarro

Há poucas semanas, e poucos meses depois de Donald Trump ter chegado à presidência dos Estados Unidos, uma das maiores vedetas da pop internacional, Lady Gaga, no intervalo do Superbowl – a final do campeonato de futebol norte-americano, seguido em todo o mundo por milhões de pessoas – cantou o hino “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie (na foto). O mesmo Woody Guthrie que, em várias das suas guitarras, tinha escrito “esta máquina mata fascistas”. Que a cantiga é uma arma – e que, para além do que se canta, os seus instrumentos são também objectos poderosos da e na sua transmissão – é, por sua vez, um facto que os próprios fascistas, sejam eles de que espécie de fascismo for, bem conhecem. O militar chileno que assassinou Victor Jara danificou-lhe depois os dedos das mãos (com um martelo? com um machado? as versões divergem…) para, disse, nem morto poder voltar a tocar guitarra. Em Grândola, onde mais poderia ser?, nasceu em 2015 o Observatório da Canção de Protesto. E Alcides Bizarro conta aqui como tudo aconteceu.

  1. A História

Foi em 2007 que o município de Grândola, com a colaboração da Associação José Afonso, deu início ao projecto de criação de um Observatório da Canção de Protesto (OCP), que pudesse constituir uma grande referência, a nível mundial, no contexto das obras musicais que serviram de inspiração a movimentos de luta e de libertação contra regimes e situações repressivas, assumindo-se como uma entidade cultural com relevo, no plano internacional, para o estudo, investigação e promoção das canções de protesto ao longo dos tempos. Simultaneamente caberia ao OCP promover a realização de encontros, festivais, espectáculos, congressos, exposições e acontecimentos culturais em geral, tendo as canções de protesto como referência essencial.

A iniciativa do município era, simultaneamente, um reconhecimento da ligação simbólica de Grândola aos ideais de liberdade, democracia e solidariedade reconquistados em abril de 74 e da importância do reforço contínuo destes valores, e uma justa e sincera homenagem a José Afonso que, com “Grândola, Vila Morena”, legou à terra da fraternidade um importante desafio: o de perpetuar o movimento a que deu expressão ao cantar a Liberdade, em protesto contra todos os tipos de opressão.

A grave crise económica que Portugal enfrentou nos últimos anos, e os seus reflexos no plano político e no quadro social, contribuíram para que o nome de Grândola, tornado verbo através da canção, se assumisse definitivamente  como um símbolo de esperança num mundo mais justo, de participação colectiva dos cidadãos na vida das comunidades e de resistência contra a opressão e a tirania. Um pouco por toda a parte a canção foi entoada em situações de luta e de protesto, tornando-se um hino de liberdade e de cidadania.

Perante esta evidência o município de Grândola entendeu retomar em 2014 o processo de criação do Observatório da Canção de Protesto. Nesse sentido, ao abrigo do protocolo celebrado em 2007, o município e a Associação José Afonso convidaram 3 entidades para se associarem ao projecto – o Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança- INETMD, o Instituto de História Contemporânea – ICH, ambos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – SMFOG. Foram estas 5 entidades que, após uma definição conjunta dos principais objectivos e do modelo de funcionamento do OCP, assinaram em Março de 2015 o acordo de constituição do Observatório da Canção de Protesto.

  1. Que fazer…?

O acordo de constituição do OCP é muito claro quanto aos projetos futuros do OCPintegrando-os em quatro dimensões fundamentais:

Entendimento da canção de protesto como forma de resistência, de testemunho, de crítica social e instrumento de emancipação dos movimentos sociais e políticos de libertação;

Observação, recolha e valorização da canção de protesto nas suas múltiplas formas e em contextos históricos diferenciados, num arco temporal que se estende do séc. XX à atualidade;

Valorização da memória musical e cultural dos diferentes períodos a observar, não só como forma de tributo à resistência e à luta dos povos, mas fundamentalmente como elemento de inspiração para a compreensão e transformação do mundo de hoje;

Observação e promoção da canção de protesto do tempo presente, através de atividades que deem a conhecer e valorizem as novas formas e os novos autores, num contexto de emancipação dos povos pelos ditames da liberdade, da fraternidade e da igualdade.

  1. A cantiga é uma arma

José Jorge Letria, um dos membros do Conselho Consultivo do OCP (CC/OCP), entende que este projecto pode e deve ser um espaço de afirmação da importância cultural, social e política da canção política (…) contribuindo para garantir o reencontro do público com a discografia hoje quase inexistente. Anthony Seeger (CC/OCP) destaca o interesse em orientar o OCP também no sentido de abrir diálogos, de luta e de partilha, com outros organismos e entidades internacionais com objectivos similares. Já Rui Reininho (CC/OCP) evidencia o valor interventivo do rock e a capacidade ou possibilidade deste e dos seus agentes, no âmbito do OCP, estabelecerem pontes de comunicação e partilha com outras formas musicais mais contemporâneas, como sejam o rap e o hip-hop.

António Figueira Mendes, presidente do município resumiu o presente e o futuro do OCP do seguinte modo: Façamos, pois, da cantiga uma arma. Uma arma de esperança e confiança na nossa vontade coletiva de transformar o mundo num espaço inclusivo, de liberdade, progresso e fraternidade. É em nome deste desígnio que vale a pena continuar a unir esforços e vontades e afirmar, em diversos tons mas a uma só voz, a nossa determinação em percorrermos juntos os caminhos do futuro.

Alcides Bizarro