Dulce Pontes : Os Caminhos Fazem-se (Todos) Caminhando

“Peregrinação” (um álbum-duplo dividido em dois CDs, “Nudez”, cantado em português, e “Puertos de Abrigo”, maioritariamente em espanhol) é um dos álbuns mais revolucionários – musicalmente, liricamente, conceptualmente… – que a música portuguesa deu ao mundo nos últimos muitos anos. A música portuguesa? Não. Porque, para sermos justos, por trás deste disco – que arrisca, inova, provoca, espanta, abana e apaixona – está Dulce Pontes, que há muito transpôs qualquer tipo de catalogação musical, cultural, geográfica, nacional.

Uma mulher, cantora, instrumentista, compositora, letrista e produtora que raramente ouvimos ou vemos, nas nossas rádios ou canais de televisão, que geralmente preferem outro(s) tipo(s) de “música portuguesa”. Nos últimos meses temos falado nestas páginas de outras mulheres  que também são assim: Né Ladeiras, Lula Pena, Cristina Branco… Mulheres que aceitam, ou procuram, o risco e o seu canto. Artistas-guerreiras que não têm medo de nos confrontar com uma música sempre diferente, sempre em busca de novos caminhos.

No livreto que acompanha “Peregrinação” está uma imagem de uma vieira – o símbolo dos caminhantes para Santiago de Compostela – e em todo este disco está presente o lema dos seus peregrinos: “o caminho faz-se caminhando”. O caminho da sua música – que são muitos caminhos afinal – e os caminhos para onde a levam as palavras que são cantadas.

Há vinte anos era comum os artistas editarem um álbum de dois em dois anos ou de três em três, no máximo. Porque é que demoraste tanto tempo a editar um novo álbum, mesmo sabendo-se que é um CD-duplo e tem um conceito-base, ou vários, bastante forte?

Foi o tempo que se fez assim. Não sou eu a ter que fazer o tempo. Gostaria muitas vezes de fazer o meu tempo, mas muitas vezes não se consegue. E, para mim, a prioridade são os concertos. É isso que me põe o pão na mesa. E, por outro lado, o facto de ser um bocado marginal e ter a minha editora pequenina, a Ondeia, ter no fundo a liberdade criativa para poder fazer aquilo que me apetecer, permite-me também ter todo esse tempo. Se eu podia tê-lo feito mais cedo? Sim, podia, mas não ia ser a mesma coisa. Portanto, não sei… é o destino que faz as coisas assim; o próprio tempo. E como não dependo de ter um disco para poder trabalhar, estou sempre em espectáculos; espectáculos que são seres mutantes… Isso permitiu-me até ir desenvolvendo parte deste trabalho (em disco) ao vivo.

Foste experimentando, ao longo destes anos todos, alguns dos temas em concerto?

Sim, tal como já tinha feito antes no anterior, “O Coração Tem Três Portas”, e não senti aquela necessidade, aquela urgência de “ai, ai, ai, que tenho que ter um disco novo”. Quer dizer, agora mais para o fim já tinha uma certa ansiedade por que ele saísse… E já estou com vontade de fazer outro!

Uma coisa que se sente imediatamente depois de se ouvir este disco, “Peregrinação”, é o facto de o reportório estar muito pensado, muito maduro, não só na forma como depois na maneira como isso se expressa em termos de canções, arranjos, mas também de conceito global. E, para já, ainda só estou a falar do “Nudez”…

A ideia foi exactamente essa.

Então, se me permites uma questão longa: consigo identificar três conceitos, três blocos principais – embora com variantes – no disco cantado em português: a presença do fado, seja de outras pessoas que tu cantas, seja de autoria tua; um outro bloco em que se sente uma forte presença do José Afonso em termos de influência, em dois ou três temas para além do “Grândola Vila Morena”; e um terceiro bloco em que é determinante a influência da música tradicional portuguesa de matriz rural, tanto em originais quanto em recriações. É por aí, não é?

Sem dúvida nenhuma. Não podia tê-lo descrito melhor. Não queres usar isso como resposta em vez de pergunta? (risos)

Não, quero que sejas tu a dizê-lo, nas tuas palavras…

Há muitos temas do “Nudez” que nunca foram tocados ao vivo. Alguns foram mas a maioria deles não foi. E o “Nudez” foi um processo de muita solidão, de muito tempo que eu pude ter em Bragança, lá nas catacumbas – como eu lhe chamo -, nas fundações da casa, e depois ter a auto-suficiência para poder experimentar vários tipos de sonoridades, de poder passar horas e horas e horas a compor, a experimentar, a pensar simplesmente. E isso permitiu-me ir construindo, a pouco e pouco, essa coerência e uma sonoridade que eu queria muito conseguir criar. Daí chamar-se “Nudez” ou, ainda mais, uma coisa quase sem pele e mais descarnada. O facto de ter usado os recursos que tinha à mão foi um desafio para mim própria e também me permitiu criar… A “Cantiga da Roda”, por exemplo, estava ali às voltas, obsessivamente, e eu tinha aquela urgência de que nem que fosse às quatro da manhã ir até lá abaixo e resolver questões como: “Isto não é assim; não pode ser com piano. Tem que ser com uma harpa ou outro instrumento desse tipo”. E a solução foi… usar as cordas do piano. Eu sou pequenita e passei horas esticada com um pé nos pedais – aquilo reverbera tudo – e as mãos na harpa do piano. Quando subi as escadas ia a coxear… (risos)

Quando falas de canções na sua forma mais descarnada, mais nua, isso reflecte-se numa série de temas que tens aqui com muito pouca instrumentação. Ou é o piano, e neste caso tocado “normalmente” como está no “Nevoeiro” – em que depois lá aparecem uns apontamentos de outros instrumentos – ou o “Grândola”…

E o “Canto do Risco”.

Sim, aliás – e como as perguntas e as respostas se metem sempre umas pelas outras -, todo este álbum é um bocado um “canto do risco”, não é?

É.

O álbum não podia ter este título, também?

Podia, mas aí seria muito só virado para o (conceito de) “Nudez”. E perdia-se algo importante: esta “peregrinação” é feita ao meu mundo interior mas também ao mundo exterior (o CD2, “Puertos de Abrigo”) e ao contacto com outras realidades musicais que eu desconhecia e com músicos que, nalguns casos, estão do outro lado do oceano. E poder, depois, interpretar também outras personagens, para além de… Ou seja, outros estados de alma que uma pessoa pode sentir ao percorrer um caminho. Na perspectiva de, assim, se conseguir chegar a qualquer coisa divino ou qualquer coisa que não conseguimos explicar muito bem mas que é um mistério. E se, no “Nudez”, é tudo muito interior – podendo haver uma ou outra excepção, como o “Bailados do Minho”, que é uma excepção de certeza -, no “Puertos de Abrigo” isso já não acontece. Pelo contrário. Existem temas… Eu, para fazer o “mapa” disto tudo, foi um sarilho completo.

Certo. Mas ainda antes de falarmos mais sobre esta tua “peregrinação”, e já que referiste o tema do Artur Paredes, “Bailados do Minho”…

Que foi gravado ao vivo em Cuba.

Cuba o país ou Cuba a vila alentejana?

Cuba, o país. Em Havana. E o público está imediatamente a apanhar os ritmos do Minho.

Dulce Pontes_2Mas nesse tema do Artur Paredes quase que fizeste uma “recolha” ao contrário: o Artur Paredes compôs um original – tal como o Carlos Paredes também fez depois em alguns dos seus temas – baseado nos ritmos minhotos, chulas e viras e malhões, e transportou-os para a guitarra portuguesa. E tu fazes o processo ao contrário: pões-lhe uma letra tua e um arranjo, com o Amadeu Magalhães, que faz com que aquilo pareça um tradicional.

Foi isso, precisamente. Eu tenho paixão, sempre tive e desde a primeira vez que o ouvi, por esse tema. E muitas vezes não me saía da cabeça. Trauteava-o e, depois, surgiu uma letra: “(…) salta menininha, cuidado não caia na roda da saia já que vai cair (…)”.

A letra foi inspirada em quê?

Precisamente nesse universo dos tradicionais minhotos. Eu até tinha pensado num dueto e num diálogo com outra voz feminina, uma chamada e resposta na brincadeira até chegar aquela parte do “ai ventos negros esses do amor”.

Voltando ao “Canto do Risco”…

Eu andava obsessivamente com uma frase melódica na minha cabeça; tipo rodinha (Nota: Dulce exemplifica trauteando). E foi todo gravado ao contrário: comecei por gravar um bordão de piano, com esta vozinha do princípio ao fim, depois somei-lhe uma segunda voz e depois a seguir agarrei no poema do Gastão Neves… O que lá está gravado foi a primeira vez que eu agarrei no poema; foi a primeira vez que o cantei. Podia ter regravado, mas senti que ia perder aquela autenticidade que estava lá desde o primeiro take, à pele… Juntei-lhe piano e, depois, percussão. E houve uma das pistas desse tema à qual eu e o Tó (Nota: Tó Pinheiro da Silva, co-produtor de “Peregrinação”) chamámos “destino”. Porque é um daqueles mistérios da técnica para o qual nem ele próprio achou explicação, mas que definiu a rítmica do tema: apareceu ali um eco, vindo não sei donde – as máquinas lá resolveram fazer aquilo, porque não havia lá delays nem assim – e que aconteceu por acaso. Houve ali qualquer coisa que decidiu auto-criar-se e, por acaso, não é a primeira vez que me acontece um fenómeno sonoro para o qual não se encontra explicação técnica.

Fala-me um pouco do “Nevoeiro”, que tem um poema do Fernando Pessoa (incluído na “Mensagem”).

O “Nevoeiro” teve uma composição também muito imediata. Cheguei lá abaixo, agarrei num livro de Fernando Pessoa e abri ao acaso: “Nevoeiro”. É claro que já conhecia o poema, mas ouvi ali qualquer coisa que dessa vez me agarrou. E compus o “Nevoeiro” de uma forma muito imediata. Mas não o gravei imediatamente… Passei algum tempo, por exemplo – tal como aconteceu no “Cancioneiro”, também de Fernando Pessoa -, a trabalhar em pequenos detalhes: o “Ah!”, para se perceber que não era um “há” de haver mas a exclamação “ah!”. E como houve coisas muito imediatas também existiram coisas mais pensadas, mais trabalhadas.

O “Nevoeiro” é um dos temas desviantes em relação àqueles três blocos de que falava há bocadinho: não se encaixa em nenhum. É uma coisa única, magnífica, que está ali. Já o outro tema que tem poema de Pessoa, o “Cancioneiro”, e também o “Canto do Risco”, são facilmente encaixáveis no bloco da influência do José Afonso, no seu imaginário. E ainda rematas essa “secção” com uma versão do “Grândola Vila Morena” cantada ao piano…

O Zeca é uma influência enorme, enorme! Há alguns anos tinha tentado fazer um arranjo do “Grândola” mas saiu-me qualquer coisa como um “suicídio” do “Grândola”. E depois, por outro lado, a partir de determinada altura… (pausa) Eu não tenho tendência política nenhuma e se tivesse dizia sem problema nenhum. Se calhar, até gostava de ter e era mais fácil deitar uma série de coisas cá para fora. Mas não acredito em sistema político nenhum. E aquilo que eu tenho é a memória do “Grândola”. Eu nasci em 1969, era uma miúda quando se deu o 25 de Abril e para mim aquela música representa o hino da liberdade. Se eu gostei de ver, por exemplo – quando houve grandes manifestações em Espanha e eu assisti a algumas delas -, os espanhóis a cantar o “Grândola”, depois, aqui em Portugal começou-se a banalizar o “Grândola” e não achei piada nenhuma àquilo, mesmo não tendo qualquer filiação política. Mas pelo respeito que o tema impõe, não é? E tudo aquilo que tem dentro dele enquanto simbologia… que eu já transmiti aos meus filhos: à Maria, que tem oito anos, e ainda antes ao Zé, que tem quinze. E eu tive necessidade de revisitar, dentro de mim, o “Grândola” e comecei de uma forma muito… Eu quase que gravei aquilo para mim, como uma memória de (algo). Até que descobri que estava no caminho certo: voltar a trazer o “Grândola” para dentro, mas de uma outra forma, numa outra perspectiva. Aquilo está tocado como uma caixinha de música, é cantado a três vozes, fui buscar sons da NASA, de planetas… Porque queria dar um bocado aquela perspectiva do infinito e, ao mesmo tempo, do pequeninito que nós somos. Mas aquilo é importante; é quase como se fosse o eco de alguma coisa que fosse parar a uma outra dimensão; pelo menos no meu imaginário. E ainda há aqueles passos no final, que aparecem como contraponto aos passos do tema original.

(Nota: Esta entrevista gravada com Dulce Pontes decorreu dias antes de O Fado & Outras Músicas do Mundo ter homenageado José Afonso, a propósito dos 30 anos da sua morte, em 23 de Fevereiro; daí as perguntas que se seguem e que resultaram no tributo de Dulce Pontes a José Afonso já incluído nessa edição e que aqui repetimos porque faz todo o sentido também neste contexto)

Já que falamos em José Afonso e nós vamos fazer um número que lhe é em boa parte dedicado, podes deixar aqui um depoimento sobre ele, por favor?

O meu Zeca, o nosso Zeca é um visionário, sem dúvida. Abriu muitas portas, mostrou novos caminhos, descobriu novos planetas musicais. É para mim, uma enorme inspiração poética e de pensamento. Não foi amado como deveria, tenho essa sensação. Tenho muita pena de nunca o ter conhecido pessoalmente, mas já o cantei muitas vezes (Nota: Em disco e/ao vivo Duce Pontes já apresentou versões suas de variadíssimos temas de José Afonso, ou tradicionais por ele popularizados como  “Se Voares Mais ao Perto”, “Que Amor Não me Engana”, “As Sete Mulheres do Minho”, “Achégate a Mim Maruxa”, “Os Índios da Meia Praia”, “Resineiro”, “Senhora do Almortão”, “O Meu Menino É d’Oiro”, “Grândola Vila Morena”, este já no novo álbum “Peregrinação”, entre outros, para além de um original seu, “O Primeiro Canto”, lhe ser dedicado). Depois dele nunca houve outro Zeca; nunca poderá haver outro Zeca. Há um antes e um depois dele… E há um durante, que é o mais importante.

De que forma é que ele se reflecte no teu trabalho? O José Afonso e a Amália Rodrigues foram desde o inicio dois dos grandes pilares e inspirações do teu trabalho, apesar de aparentemente estarem em campos opostos…

Apenas aparentemente. Eles, musicalmente, são perfeitamente conjugáveis; pelo menos segundo a minha perspectiva.

Conta-se que eles se encontraram só uma vez…

E como é que correu? Não sei essa história.

Dizem que correu “melhor que o esperado”. Parece que foi em 1976 ou 77, o José Afonso não tinha gostado que ela tivesse gravado o “Grândola” e a Amália, injustamente como sabes, ainda era muito vista como “fascista”, apesar de trabalhar com um compositor como Alain Oulman e um poeta como o Ary dos Santos, dois comunistas, e de ter outras pessoas de esquerda a escrever-lhe poemas para cantar. E ela, a medo, perguntou-lhe: “O Sr. José Afonso acha que eu canto bem?”. Ele respondeu-lhe: “Se a senhora não canta bem, quem é que canta bem neste país?”. Mas voltando ao seu reflexo na tua obra…

A sua influência no meu trabalho reflecte-se tanto na forma de compor como na forma de escrever. Como ele e outros diziam, a canção tem que ser uma arma e eu levo isso muito a sério. De uma forma, certamente, diferente, mas seguindo a mesma linha, que de uma forma talvez enviesada está muito inspirada nele. Tenho muitos temas – alguns que nunca viram a luz – muito inspirados na sua forma de compor, em tudo aquilo que ele transmitiu. E a forma como ele foi (re)descobrir, revelando e desvelando, a música tradicional sempre foi, também, imensamente inspirador para mim.

E já que falámos, entretanto, de Amália: no álbum tens o “Grito”, que tem letra dela, e depois tens o “Alfama”, que ela popularizou e é exactamente dos dois senhores de que falávamos há bocadinho: Alain Oulman e Ary dos Santos… Para além de um fado original teu, “Ele É Que Me Canta a Mim”…

Um tema que já tinha gravado no álbum da Marta Pereira da Costa. Eu compus esse tema e mostrei-o a meu irmão (Luís Pontes, viola de fado), que me disse assim: “é giro mas a intro é muito grande”. E eu disse-lhe: “mas olha que a intro é para guitarra portuguesa”. E ele: “não sejas chata!”. Por coincidência, passados uns meses a Marta Pereira da Costa – que toca guitarra portuguesa comigo – convidou-me para participar no disco dela e perguntou-me se não tinha nenhum tema novo para incluir, e eu cantar, no disco dela. E eu disse-lhe que tinha este. Acabou por ficar tal como é, porque tem uma intro pensada para uma guitarra portuguesa. E, por outro lado, há ali uma explicação do “Fado da Sina” que me persegue constantemente, para o bem e para o mal. E um dizer, claramente, que não sou eu quem canta o fado; ele é que me canta a mim… “e é por isso que o não quero, é amarra que não solta… e sempre volta”. Há mesmo um fatalismo associado ao fado – uma sina -, e não quer dizer que eu repudie o fado; mas nunca quis ficar ali fechada por muito que me tentassem acorrentar. Mas continua sempre aquela coisa do fado, do fado, do fado… Até de uma forma obsessiva da parte de outras pessoas que estão sempre à espera de um reviver qualquer: “A Dulce Pontes podia ter sido a nova Amália!”. Mas não há novas Amálias, como não há novos Zecas; por amor de Deus! Como não há novas Edith Piafes nem Frank Sinatras. Cada pessoa tem uma identidade própria. A gente pode inspirar-se e, com muito respeito, interpretar temas dos mestres. Porque, para mim, são meus mestres, mas nunca na vida imitá-los. Isso é ridículo e estar a fazer a mesma coisa igual, para quê, se já está feito? E bem feito. Eu hesitei muito em gravar o “Grito”, por exemplo. E em determinada altura eu pensei: “não, não vou incluir o ‘Grito’”. Mas um dia em que estava com um estado de espírito muito particular, uma tristeza profunda, sentei-me ao piano e gravei-o. E é um “Grito” que não é gritado, é precisamente o oposto. Aquele poema é tão intenso e consegui dar-lhe a minha leitura. Mas nunca na vida ia interpretar o “Grito” como (a Amália”). O “Alfama”, pronto, é um fado tradicional, há muita gente que o canta. Agora o “Grito” é uma coisa tão pessoal da Amália que… Para já, para cantar Amália é preciso esquecer (a matriz). Porque ela é tão forte na própria interpretação que é preciso esquecê-la para uma pessoa poder encontrar-se lá dentro. Porque, se não, está-se sempre ali a “parecer” alguma coisa. E eu sempre fugi disso a sete pés.

Dulce Pontes_4bAntes da entrevista dizias-me que a Marta Pereira da Costa tinha um certo medo de tocar contigo, porque tu mudas os alinhamentos dos concertos e a chamas ao palco em momentos inesperados…

A Marta é uma querida! É hiper-estudiosa e, apesar de no início ter tido um certo receio, começou depois a improvisar sem medos. Eu gosto que os meus músicos improvisem nos temas que o pedem, mais tonais… É a minha veia jazzística a latejar e, ao vivo, o público sente isso, que algo único está ali a acontecer à frente dele. O meu saxofonista holandês, o Hubert Jan Hubeek, faz isso muito bem porque é a escola dele; o guitarrista malaguenho Daniel Casares toca até debaixo de água. E o Amadeu também, embora às vezes fique assim um pouco: “o que é que se está a passar aqui?”.

Entretanto referiste que a tua interpretação, no “Grito”, não é gritada. Mas a tua voz sai-te, noutros temas, em variadíssimos registos, do mais certinho, contido e afinado que há ao grito, mesmo… Por exemplo, o “Nevoeiro” não é um single nada óbvio.

Pois não. Por isso é que o escolhi. O “Nevoeiro”, para mim, é um murro no estômago. Com todo o amor e carinho, mas é um murro no estômago. Aquele poema nunca esteve tão actual e não se aplica só a Portugal. Aplica-se a tudo aquilo que se está a passar no mundo de uma forma geral.

E depois ainda dizes que não tens uma ideologia política definida…

E não tenho! Gostava de ter mas não tenho. Não me encaixo. O Zeca Medeiros já me tentou convencer que eu sou anarquista. Mas não sei… Eu não acredito em sistema político nenhum e se calhar, por causa disso, até sou anarca, embora também não me revejo aí. Mas é importante para mim que eu não faça só musiquinhas, porque a música não é só entretenimento. A música também tem que abanar as pessoas e fazê-las pensar de uma forma diferente. E o “Nevoeiro” faz isso. Claro que podia ter escolhido um single muito mais óbvio. Havia ali milhentas hipóteses… do fado que estão à espera ou de um tema mais folclórico; seja lá o que for. Mas eu fiz questão que fosse o “Nevoeiro” precisamente por ser desconjuntado, por ter esse lado provocador, pela força do poema e pelo tão actual que está. Eu canto segundo aquilo que os temas me pedem. Às vezes até podem dizer: “ai, mas que grande gritaria”. Eu tive uma professora de canto brutal, a Maria do Rosário Coelho, que também já lá está na luz (Nota: faleceu em 2011). A minha Rosarinho, como eu lhe chamava, que foi cantora lírica. E a seguir, se houve alguém que me ensinou técnica vocal, foi a Montserrat Caballé, com quem tive o privilégio de estar e aprender. De qualquer forma, há uma diferença enorme entre o grito “gritado” e o grito que não é um grito; que é a voz projectada e que depende da tonalidade em que estamos a cantar, depende da intenção do poema (Nota: exemplifica).

Passando para o “Puertos de Abrigo”… Enquanto no “Nudez” eu consigo – estou a falar enquanto pessoa, jornalista, amante de música e fã absoluto deste teu disco – consigo descortinar estes três grandes blocos, no “Puertos de Abrigo” está tudo, estilisticamente e liricamente, mais estilhaçado. Aqui fazes uma “peregrinação” ainda maior. Vais à Argentina, vais a Espanha, vais ao imaginário galaico-português… Podes destacar alguns dos temas deste segundo disco, por favor?

Vou começar – tal como esse disco – pelo “Asturias”, que tem essa música de Albeniz e que eu costumava cantar em scat. Eu enviei uma “demo” para o Raúl Carnota, um cantautor argentino que faleceu em 2014, e que escreveu o poema. Houve aqui mesmo uma grande viagem e o encontro de muita gente, como se fosse uma família: para além do Raúl, o Jaime Torres, o Jairo (também argentino), a Kaat Tiley, que era uma designer de moda e pintora belga, uma pessoa multifacetada e maravilhosa. Ela vinha ter comigo a Bragança quando chegou a mensagem de que tinha morrido, com 52 anos. O único tema que tenho em inglês, “7th Sky”, é-lhe dedicado e fiz questão de incluir o seu nome na autoria do tema. E também morreu, com 57 anos, a minha professora de dança, a Anabela Gameiro. (pausa) A morte é… Ainda agora estive com o o Ennio Morricone (Nota: com quem Dulce Pontes gravou o álbum “Focus”, editado em 2003, e com quem canta regularmente ao vivo) e é uma coisa horrível porque, quando o concerto acaba, eu olho para ele e fico a pensar que se calhar foi a última vez. Tenho uma ligação com o Ennio como se ele fosse do meu sangue. Eu sei que não gostaste do “Focus”…

Mas isso não interessa. Eu não tiro valor, quando o tem, a coisas que eu não gosto. Generalizando, eu não gosto dos Queen mas tenho um respeito enorme pela obra toda deles. Voltando ao disco…

Há um nome que eu quero destacar, que é um pianista argentino que toca comigo há alguns anos, o Juan Carlos Cambas. Ele está a viver na Galiza, um dia apareceu-me num concerto e a partir daí começámos a tocar juntos. Ele tocou, ainda muito jovem, imagina com quem… Com a Mercedes Sosa. E então, a pessoa responsável por me dar a conhecer esse reportório – o “Alfonsina y el Mar”, que foi escrito pelo cantautor argentino Ariel Ramirez e pelo Félix Luna para a Mercedes Sosa, a mesma dupla do “Peregrinación” que eu também canto aqui – e a criar várias pontes com a Argentina foi o Juan. E depois mostrou-me o “Barro y Altura” do Jaime Torres. E eu: “uau!”. As coisas foram acontecendo desta forma. E de repente eu chego a Buenos Aires e encontro uma família. Fizemos um concerto e até a Amelita Baltar (Nota: mítica cantora argentina) apareceu e eu cantei com ela a “Balada Para Un Loco”! O Jaime Torres tocou, imagina, o “Fado das Horas” em charango (Nota: cordofone tradicional argentino). Eu tenho um dueto com o Leon Gieco – “La Guitarra”, do Atahualpa Yupanqui, com música de Leon – mas não entrou no disco. Também a Mariana Carrizo, a copleira…

De quem nós publicámos uma entrevista há pouco tempo, numa partilha com a revista “Pura Mestiza”.

E que é uma força da natureza, com a sua caja de madera. Também já tenho uma e tem uma sonoridade incrível. E também gravei um dueto com a Marianinha, tal como gravei com o Leon, mas que vou guardar para mais tarde.

(Neste momento, avisaram-nos que a entrevista já ia longa e que tinha de acabar rapidamente)

Ainda tenho mais uma série de perguntas… Mas, OK, fala-me então só um bocadinho da tua nova letra para o “Meu Amor Sem Aranjuez”, que apesar de ser um tema do espanhol Joaquin Rodrigo tem uma letra em português e está no “Nudez”…

A Amália já tinha gravado por cima desse instrumental maravilhoso, mas com um poema diferente. O que eu canto aqui é um poema meu escrito para o “Concerto de Aranjuez”. Porque eu não me identificava com aquele poema que a Amália canta – as flores e as flores e as flores… -, gosto muito de a ouvir mas, com todo o respeito, não gosto da letra. Eu nem sabia, até ter começado a tocar com o Raúl Carnota em recitais de música clássica, que incluíam o “Asturias” do Albeniz e este “Aranjuez” do Joaquin Rodrigo, que podia ser cantado assim. E eu cantava, sem letra, por cima da música. E certo dia vejo uma coisa que é o “Aranjuez Mon Amour” (Nota: gravado originalmente pelo cantor egípcio e francês Richard Anthony). E eu: “olha, tão bonito!”. E ainda ouvi depois a versão da Amália. Mas a letra não encaixava na profundidade da música que tem o “Aranjuez”. E tive necessidade de, pelo menos, escrever um poema que fosse mais revelador da minha forma de entender aquela música. Daí o meu trocadilho, “Meu Amor Sem Aranjuez”.

Já no “Puertos de Abrigo” tens uma versão em espanhol do “La Bohème”, do Charles Aznavour, e aquele tema em inglês, “7th Sky”, que fecha o disco…

Canto o “La Bohème” na sua versão em espanhol, “La Bohemia”, de quem ouvi a primeira versão cantada pela (Concha) Buika. Até pensei que tinha sido ela a primeira a fazê-lo, mas não… O próprio Charles Aznavour já o tinha gravado em espanhol também. E gosto muito mais da letra em espanhol do que em francês. É muitíssimo mais dramática e intensa. O “7th Sky”, que é dedicado à Katt, está em inglês porque ela usava muito essa expressão quando se sentia feliz. Ela era uma artista total, não era só uma designer de moda. Deixou-me um vestido desenhado que está agora a ser feito pelas filhas. E eu fiz questão de usar durante toda esta digressão o último vestido que me mandou. Foi o meu luto. Era uma grande amiga e uma pessoa impressionante. Ela dizia coisas como a frase que começa esse poema: “only beauty can change sadness in to a smile” e é também por isso que a autoria lhe é co-creditada.

Há uns tempos fiz uma entrevista com o Rui Veloso e ele disse, com uma humildade enorme, que todas as pessoas da música com quem tocou ou conviveu foram “as dávidas que a vida lhe deu”. Ouvindo-te falar de tanta gente – do Ennio Morricone aos outros todos – lembrei-me imediatamente dessa frase.

Sim, são dádivas enormíssimas. Tenho tido o privilégio de me cruzar com pessoas maravilhosas ao longo de todo este percurso. O caminho faz-se caminhando e são todas essas pessoas que me ajudam a percorrê-lo.

António Pires