Novas Vozes e Desafios na Música do Alentejo : Por Celina da Piedade

O Alentejo, a minha terra de chegada e de partida, e cuja cultura canto e estudo, vive momentos únicos de reconhecimento do seu património musical e com ele grandes desafios. É uma extensa região, a maior de todo o país, abarcando quase todo o seu sul. Começa para lá do rio Tejo- Além-Tejo- e só termina no Algarve, faixa de serra e mar no extremo meridional de Portugal.

As suas paisagens são de imensidão-planícies a perder de vista, campos vastos de cereais, de sobreiros, de olival, e falésias e mar imenso na zona costeira. As grandes distâncias entre povoações e o isolamento moldaram o carácter e a cultura dos alentejanos, sendo hoje em dia a música uma das mais fortes expressões identitárias. Apesar da sobrevivência de uma grande variedade de expressões musicais e coreográficas tidas como “tradicionais” – a viola campaniça (cordofone regional), as valsas mandadas, as saias, os bailes cantados, os Bonecos de Santo Aleixo, as Brincas, o bandolim, a harmónica, o acordeão – a que mais representa a região é sem dúvida o Cante Alentejano, reconhecido pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade em 2014.

O Cante é uma prática vocal polifónica, associada ao canto colectivo, de homens e mulheres, como agregador social. Ao longo do séc. XX a prática foi passando a estar regimentada em grupos corais formais, de cariz etnográfico, sobretudo a partir dos anos 40, pela acção folclorizante do regime ditatorial salazarista. Apesar disso nunca se deixou de cantar espontaneamente, e mesmo dentro do contexto dos grupos a criação de novas melodias e poemas continuou viva. Artistas como Vitorino, Janita Salomé, Gaiteiros de Lisboa e Ronda dos Quatro Caminhos souberam trabalhar o repertório do Alentejo e levá-lo até ao público. Entretanto ao longo das últimas duas décadas todo o trabalho feito em torno da divulgação, valorização e salvaguarda do Cante, incluindo a candidatura à UNESCO, a par e passo de outras expressões musicais do Alentejo, sobretudo da Viola Campaniça, tem tido resultados surpreendentes, sobretudo junto das novas gerações. Muitos deles aprendem Cante Alentejano na escola, depois cantam em casa, em família, com os amigos.

Existe uma valorização crescente a nível cultural, um orgulho no Cante e sobretudo expectativa que este tenha futuro, ganhe dimensão internacional. Nos últimos dois anos o número de grupos juvenis subiu em flecha, e a sua prática, que estava bastante envelhecida. Um dos primeiros jovens a ganhar destaque pela sua voz e pelo seu trabalho foi o Pedro Mestre, um dos herdeiros da tradição da viola campaniça, professor de cante nas escolas, uma referência para outros jovens que a ele se seguiram.

E estes lançam-se aos desafios, experimentam, inovam. A internet e as redes sociais revolucionam ainda mais o que já naturalmente trazia dinâmica nova em si. Saem da formação tradicional, do grupo de vinte ou mais elementos para formações mais portáteis e informais.

Os próprios grupos corais, de estrutura mais rigorosa, têm alinhado em novas experiências e parcerias, como é o caso do Grupo Coral da Casa do Povo de Serpa junto do projecto “Vozes do Alentejo”, que aqui cantam um dos êxitos do rock português, o tema “Circo de Feras”, dos Xutos & Pontapés, adaptado ao Cante pelo cantador e compositor Paulo Ribeiro. É também o caso do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, que aqui cantam uma composição de um reconhecido letrista português, João Monge, e recentemente editaram um disco tendo como convidados alguns dos artistas mais reconhecidos no panorama musical português: António Zambujo, Miguel Araújo, Luisa Sobral, entre outros.

O fadista António Zambujo, alentejano, tem sido de resto um dos principais embaixadores do Cante, dando-lhe grande visibilidade e actualidade, pela descontração com que a assume, a solo ou em parceria com as novas gerações (aqui com António Caixeiro e Bernardo Espinho). Dentro dos novos projectos, destaco alguns: Há Lobos Sem Ser Na Serra, Monda, Alentejo Cantado, Por Um Par De Meias Solas, Tais Quais (dos quais faço parte).

O meu trabalho a solo também tem incidido bastante no repertório do Alentejo, quer do Cante no feminino, quer das “modas” (canções) de baile, e também no especial formato de espetáculo Celina da Piedade e as Vozes do Cante, que me tem dado muito gosto apresentar (concerto 29 de Dezembro do Teatro Francisco Rabal, em Pinto, Madrid, Espanha). É sem dúvida uma cultura musical em expansão e que terá ainda muito a mostrar ao mundo!

Agradecimentos: à A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, pelo trabalho incansável de divulgação e arquivo.

Celina da Piedade

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)