Aline Frazão : (Sempre) Um Ponto de Reencontro

Aline Frazão (Luanda, º1988) dispensa apresentação: após três álbuns de sucesso – Clave Bantu (2011), Movimento (2013) e Insular (2015) – é uma referência para a nova música angolana e o mercado da chamada world music na península ibérica, no mundo lusófono e lá fora. Depois da sua digressão no outono de 2016, quando passou pelo Tivoli, Casa da Música e Festival Literário Internacional de Óbidos, o concerto da Aline Frazão no B.Leza, em Lisboa, no passado dia 9 de Março de 2017 certamente teve algo de privilegiado, tanto pelo acompanhamento musical como pela abordagem poética.

Cantora, guitarrista, compositora de músicas e palavras, Aline Frazão trouxe consigo o (seu) músico Marco Pombinho, com o qual aliás fez um espetáculo semelhante na Biblioteca de Amadora em Setembro do ano passado. Visivelmente à vontade, os dois tocaram para um público bastante jovem e já familiarizado com a sua obra. Pombinho na melódica e guitarra acústica e Frazão, sobretudo, na guitarra-solo. No meio do set, o também angolano Toty Sa’Med – parceiro musical de Frazão em “Susana”, “Lugar Vazio” e “Palamé” – subiu ao palco de improviso. Desenrolou-se um concerto cheio de referências poéticas lusófonas, no qual Frazão destacou a fácil inter-relação entre “sambinhas, bossas e a poesia”, fazendo com que ela “ficasse agarrada às palavras enquanto cantava”.

Ao trov(o)ar em português de Angola e do Brasil e em espanhol, Aline foi incansável na busca da música nos poemas e da poesia nas canções, citando e cantando textos do moçambicano Eduardo White, do brasileiro Paulo Leminski e dos angolanos Ana Paula Tavares, Carlos Ferreira (“Desassossego”) e José Eduardo Agualusa (“O Céu da Tua Boca”), às vezes com o livro na mão. Outras referências musicais se seguiram, sobretudo, angolanas – Lourdes Van-Dúnem (a voz dos lendários N’gola Ritmos, liderados por Liceu Vieira Dias) e Fausto Bordalo Dias (“Namoro”, um original de Viriato da Cruz e Ruy Mingas), e brasileiras – Gilberto Gil (“Lamento Sertanejo”), Caetano Veloso (“Minha voz minha vida”), João Gilberto e Tom Jobim.

“A minha voz é precisa, para ser feliz, para inspirar eu canto, porque eu trago a vida aqui, na voz,” explicou Aline Frazão, que encerrou o concerto a pedido do público com a música “Tanto”. Aline voltou recentemente para Luanda, mas sempre terá em Lisboa um ponto de reencontro.

Texto: Bart Vanspauwen

Fotos: Iñigo Sánchez