Quando os Coelhos Põem Ovos : Nove Dias da Páscoa ao 25 de Abril, por Carlos Norton

O mundo divide-se sempre em dois tipos de pessoas. Ou não. Certo é que não sendo propriamente adepto de televisão (não tenho sequer aparelho na minha casa), nos últimos dias tenho levado, contra a minha própria vontade, doses cavalares de informação (ou não). Vacinas, eleições noutros países, ameaças de guerra, situação financeira, questões políticas e mais o diabo a quatro. O fantástico em tudo isto é que (pelo menos na televisão) há sempre dois tipos de pessoas – os que têm uma opinião e os que têm a opinião precisamente contrária. A ou B. Preto ou Branco. Cozido ou Assado.

Páscoa, santa Páscoa que tens mais que dois tipos. Ora para uns, é o momento alto do ano, a festa da ressurreição de Cristo. Para outros, são férias da escola. Para uns, o primeiro domingo após a primeira lua cheia de Primavera. Para outros, um feriado móvel. Para alguns, é um momento de família. Para outros, festa para encher o bandulho e atafulhar o bucho de chocolate. Para uns, ovos e coelhinhos. Para outros, a lenda de deusa da fertilidade Eostre.

Assim ficamos, cada um na sua e esperamos nove dias para o dia 25 de Abril, ou o dia dos Cravos, ou o dia da Revolução, ou o dia da Liberdade, ou o dia da Democracia.

Para muitos é o dia em que uma música passou numa rádio, o povo saiu à rua, em que se chorou, gritou, cantou, festejou, embriagou, celebrou! Para alguns é mais que isso, são quatro décadas de ditadura, um dia de revolução, mais quatro décadas de liberdade.

E podemos criar programas e debates públicos para provar fanaticamente quem tem razão, atiçando argumentos, opiniões, crenças e emoções, mas esquecemos um aspecto básico das leis da física. Um cubo só deixa de ser um quadrado se nós circularmos em seu redor. Felizmente a nossa visão abrange mais que preto e branco; conseguimos ver o arco-íris.

Não, hoje não falo de músicas do mundo, nem sequer de música. Mas pensem nisto da próxima vez que alguém disser “O fado é assim”, “a harpa toca-se assado”, “a música da Guiné tem que ser cozida” ou “este jornal diz guisado”.

Bem hajam!

Carlos Norton