Cantos da Quaresma (Interpretados por César Prata e Sara Vidal), por Domingos Morais

Dois músicos em palco, numa Igreja adaptada a sala de espectáculos. Em final de Quaresma, um programa que se reclama de cantos e preces guardados pelo povo das Beiras muitas vezes à revelia de autoridades civis e religiosas. Sobrevivências de religiosidade popular inscritas no ciclo anual da natureza que renasce, se completa nas colheitas e adormece em cada Inverno, sublimada na Paixão de Jesus Cristo.

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Os dois músicos, libertos de ritos e culpabilidades que os impeçam de tomar esses cantos como geradores das suas criações, lançam-se à descoberta dos sentidos visíveis e ocultos das palavras e dos encadeamentos melódicos que as sustentam.

 

Quase sempre, a meu ver, com soluções performativas de grande beleza e equilíbrio, através de uma utilização contida dos instrumentos e recursos que dominam.

 

Registos gravados (próprios e de outros colectores de música tradicional) são invocados em gravações áudio incluídas no espectáculo que assim citam momentos cerimoniais e festivos vividos pelo povo na sua procura de sentido e transcendência. Encomendações das almas, excelências, martírios, orações e aleluias integram-se neste espectáculo sobre o tempo da Paixão que se autonomiza e reclama outros palcos para poder ser apreciado por quem professa esta ou outras religiões ou vive outras formas de espiritualidade. Podem, e, atrevo-me a dizer, devem.

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Recordo a profunda emoção com que ouvi, em 1972, o LP “Cantos Religiosos Tradicionais Portugueses”, uma Antologia publicada por Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça pela Editora da Philips (em Portugal) desvendando os tesouros da religiosidade popular recolhidos pelos autores entre 1960 e 1972 (ainda sem os Açores e a Madeira).

 

Esse reconhecimento e apreço por músicos como Fernando Lopes-Graça ou Eurico Carrapatoso não impede, antes desafia estes e outros compositores a escreverem novas obras com a enorme responsabilidade de acrescentar e não diminuir ou esfacelar as fontes inspiradoras.

 

Na escolha e organização sequencial do espectáculo/performance criado por César Prata e por Sara Vidal, reconheço o risco da procura de equilíbrio entre instrumentos, vozes e atitudes para cada um dos temas tratados. É um processo ainda em curso que permite testar e repensar andamentos, expressão adequada, duração de cada tema, instrumentação. Continuando a reservar para as vozes o protagonismo que mais me impressionou pela qualidade interpretativa e pelo respeito da prosódia própria de cada tema, nos seus particularismos regionais.

Trancoso, 2017, dia 13 de Abril. Convento de S. Francisco.

Texto: Domingos Morais (IELT – Centro de Estudos Literatura e Tradição)

Fotos: Miguel Prata