Bailes Folk em Portugal: Festivais e Muita Música, por Celina da Piedade

O movimento das Danças Europeias em Portugal é uma prática que tem ganho ao longo dos últimos vinte anos cada vez mais participantes, bailadores e músicos. Trata-se de um movimento transnacional, implementado no nosso país a partir do modelo do Bal Folk ou Trad francês. Este revivalismo terá florescido no norte de França no final dos anos 60, ligado a uma certa contestação social contra a sociedade de consumo e inspirado no revivalismo “folk” americano. Em Portugal este movimento começa a crescer a partir da primeira edição do Andanças- Festival Internacional de Danças Populares, organizado pela Associação PédeXumbo, em 1996, também relacionado com uma certa postura anti-capitalista, oposição à cultura mainstream, e também, tal como em França, com o desejo de promover a “devolução” dos terreiros de dança a todos, a dança “tradicional” ao quotidiano, fazendo a reinvenção do baile em comunidade, em equilíbrio com a natureza, próprios de uma cultura participativa, ideais fortemente defendidos pelo seu fundador Paulo Pereira, músico e biólogo.

O Andanças cresceu muito ao longo dos seus já vinte anos de existência e o movimento também, espalhando-se por todo o país com o surgimento de diferentes organizações, novos eventos e projectos musicais. Ainda para mais, a sua vitalidade e espirito incríveis influenciou o fortalecimento do movimento em vários outros paises europeus, provocando o rejuvescimento do revivalismo folk. Hoje em dia, para além do Andanças, festivais como o Entrudanças, Planície MediterrânicaFest-i-ball, Festival à 3temps, BailaRia, ByonRitmos, Raiz d’Aldeia, entre outros, criam uma dinâmica única ao longo da agenda de todo o ano, e promovem a circulação de repertórios, músicos, professores de dança e público, em Portugal e também pelo resto da Europa.

bailes folk_celinaO repertório dançado e tocado é de origem geográfica variada, podendo numa só noite fazer-se uma viagem por ritmos regionais provindos da tradição francesa, irlandesa, italiana, galega, basca, entre outras, estando também lá, claro, a portuguesa. Danças e melodias de raiz tradicional, danças de roda, quadrilhas, danças em linha ou a pares, recolhidas do folclore, mas sem os “espartilhos” a ele associados, sem vestimentas obrigatórias, sem regras de limite criativo, quer para quem dança, quer para quem toca. A tradição serve de matéria-prima, de ponto de partida para uma festa actual, contemporâncea e dinâmica, e para a criação de uma nova expressão artística, onde cabem todo o tipo de instrumentos, dos tradicionais aos eléctricos, e as mais variadas linguagens musicais.

Ao longo das últimas duas décadas têm sido várias as bandas e artistas a trabalhar e a contribuir para este movimento. O primeiro grupo a ser formado em Portugal especificamente para estes bailes de danças tradicionais europeias terão sido os Bailia, em 1997. Em 2003 os Attambur lançam o que viria a ser o primeiro disco de um projecto com este perfil em Portugal. A eles seguiram-se os Uxu Kalhus, primeira banda a incorporar danças portuguesas no seu repertório. Esse foi um momento de viragem, revelando o caminho para um certo desejo de “desfolclorização”, do resgate de danças folclóricas para o quotidiano. Projectos mais recentes como o de documentação visual A Dança Portuguesa a Gostar Dela Própria são espelho de alguns anos deste diálogo. No entretanto, outras bandas foram ganhando espaço nesse filão folk, criando o seu som para esses bailes tradicionais, entre as quais Montelunai, No Mazurka Band, Moscatosca, Fol&Ar, Alfa Arroba, Aqui há Baile, Recanto, Omiri, Celina da Piedade (eu própria), isto só falando de alguns dos projectos que editaram discos e têm assim deixado o seu legado para o futuro. Mas a verdade é que este é um movimento, uma espécie de “tribo” muito inclusiva e sempre em mudança, que vive dos momentos de partilha, da euforia da dança, da força da sociabilidade, e muitíssimos mais são os músicos e grupos que se entregam a estes encontros, a esta música, e tantas vezes até em momentos de jam totalmente informal. Um conselho? Venham conhecer os nossos festivais e a nossa música folk!

Texto: Celina da Piedade

Fotos: Edgar Libório

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)