Bitori : A Lenda Maior do Funaná

Continuando a parceria d’O Fado & Outras Músicas do Mundo com a Songlines, publicamos nesta edição um texto da jornalista Jo Frost dedicado ao mestre do funaná cabo-verdiano Bitori, um homem de poucas palavras mas que aqui levanta o véu sobre a sua história. Um trabalho em que Jo Frost teve a ajuda preciosa de Samy Ben Redjeb, da Analog Africa – a editora que recuperou o mítico álbum “Bitori Nha Bibinha” (1997) e recentemente o relançou para o mundo com o título “Legend of Funaná” – e de Gilles, aluno de acordeão de Bitori.

A frenética música de dança cabo-verdiana conhecida como funaná tem um som imediatamente reconhecível: o rápido e repetitivo ritmo do acordeão acompanhado pelo ruído raspado do ferro ou ferrinho (um reco-reco feito desse metal). Victor Tavares – mais conhecido como Bitori – é um veterano deste género musical e o seu álbum de estreia, “Bitori Nha Bibinha”, gravado em 1997, quando ele tinha 59 anos de idade, foi recentemente reeditado – com o título “Legend of Funaná” – por Samy Ben Redjeb na sua editora Analog Africa.

“Eu ouvi-o pela primeira vez em 1998, numa discoteca da cidade da Praia (Cabo Verde)”, diz-me Ben Redjeb. “Foi um coup de foudre (amor à primeira vista, neste caso audição). Ben Redjeb encarou então como missão tentar descobrir os músicos envolvidos nessa gravação. Descobriu o vocalista principal, Chando Graciosa, que agora vive em Roterdão (Holanda) e, através dele, descobriu que Bitori, o tocador de gaita (acordeão), vive em Tchadinha, nos arredores da Praia.

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No caminho para a casa de Bitori, Ben Redjeb dá-nos uma visão profunda sobre a história do funaná, que antes da independência de Cabo Verde em 1975 foi banido pelos portugueses por ser considerado lascivo e imoral. De facto, nessa altura (da colonização) tudo o que constituía uma expressão da cultura africana era “domesticado”, especialmente o funaná, o mais africano de todos os géneros musicais das ilhas.Integrados num pequeno grupo, acotovelámo-nos para entrar no quarto da frente  da sua casa, atravancado com vários certificados de prémios que Bitori recebeu ao longo dos anos. Gilles, um dos seus estudantes actuais, funciona como o seu cúmplice musical, intérprete e porta-voz. Com uma voz calma, Bitori viria a revelar-se também um homem de poucas palavras. E, no entanto, a sua história é fascinante.

O acordeão não foi, na realidade, a sua primeira escolha de instrumento musical. Começou por estudar guitarra, mas quando ele tocava as notas erradas, o professor batia-lhe nas mãos com um pau e ele deixou de ir às aulas. Gilles diz que isto explica porque é que Bitori é tão amável e paciente com os seus próprios alunos: ele não quer cometer os mesmos erros do seu primeiro professor. Com onze anos começou a tocar gaita de boca (harmónica) e acabou depois por começar a aprender como tocar acordeão.

Bitori_webEm 1954, Bitori decidiu-se a viajar para a ilha de São Tomé, outra colónia portuguesa da África Ocidental, de modo a poder ganhar dinheiro suficiente para comprar um bom acordeão. O preço do instrumento era de 750 escudos em ambos os países, mas Bitori apenas ganhava 24 escudos por mês em Cabo Verde, enquanto em São Tomé poderia vir a ganhar o dobro, como barbeiro e trabalhando nas plantações (roças) de café e de cacau. Depois de alguns anos já tinha ganho o suficiente, pelo que regressou à Praia.

A origem da palavra funaná está envolta em mistério. Uma explicação dada por Bitori é que quando as pessoas dançam na rua, elas criam uma tempestade de poeira (fumaça) vinda da terra – semelhante ao conceito do francês bal poussiére. No entanto, Gilles conta-nos uma outra lenda, acerca de como a Igreja tinha levado o acordeão para lá e como dois padres tinham começado a tocar esta música: um chamado Fune, que tocava acordeão, e outr chamado Naná, que tocava o ferrinho.

De qualquer forma, esta música foi vista como uma ameaça pró-independentista porque as autoridades coloniais não compreendiam as canções interpretadas em crioulo e pensavam que estavam a incitar à revolta. Quando lhe perguntámos do que é que tratavam as letras, Gilles disse que versavam as dificuldades da vida, a pobreza… “Bitori Nha Bibinha”, o tema que abre o álbum, representa a realidade da própria vida de Bitori, diz Gilles – trabalhando no duro mas ainda vivendo na pobreza, apesar de ser um muito respeitado professor de acordeão. Felizmente, a reedição deste contagiante álbum e o nascente interesse neste som distintivo de Cabo Verde irá, finalmente, dar a Bitori o reconhecimento internacional que há muito tempo merecia.

Jo Frost

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Songlines)