Asif Ali Khan & Party : (Aqui) A Música É Sagrada

Poucos instantes após as 21 horas do dia 9 de maio de 2017, os oito músicos subiram ao palco do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Acompanhado por Sarfraz Hussain no harmónio e coros; Raza Hussain no harmónio e voz; Bukhtiyar, Imtiaz Hussain Shibli, Waheed Mumtaz Hussain, Umar Draz Hussain nos coros e palmas e Khawar Ali na tabla e coros, Asif Ali Khan cantou e conduziu o grupo e a plateia por uma noite memorável.

O Qawwali é a música devocional dos sufis, sendo mais comum no Paquistão e norte da Índia. Esta corrente do islão acredita em uma ligação mais próxima entre o homem e Deus, sendo o Qawwali uma das suas práticas de adoração e conexão espiritual com o divino.

Seguindo o protocolo do género, os qawwals (nome que se dá aos músicos qawwali) saudaram a plateia e sentaram-se de pernas cruzadas sobre um tapete. Antes de dar início ao concerto, Asif Ali Khan disse que eles pertencem a uma mesma família cujo patriarca, que costumava fazer parte do grupo, havia falecido na semana anterior, e que portanto aquela era uma noite emocionante e especial para todos. Estava aí estabelecida a conexão sem que uma nota sequer ainda houvesse soado.

É um tanto difícil escrever sobre um género musical tão complexo e representativo quanto o Qawwali sem conhecer bem os pormenores que permeiam sua estrutura. Entretanto a música fala por si só, mesmo aos leigos, desde que ouvidos e corações estejam abertos. Portanto, iniciado o primeiro tema, já percebia-se que o concerto passaria por um crescente. A canção que abriu o espetáculo durou nada menos do que 30 minutos, com direito à participação da audiência que, a convite dos músicos, cantou e tocou palmas junto àqueles que estavam no palco. Aliás, isso se repetiu durante toda a noite, mostrando que mais que um espetáculo, vivíamos um momento de comunhão, e que a música era o idioma universal que unia a todos os presentes.

AAsif Ali Khan & Party_1_Créditos_Márcia Lessa/FCGpós mais dois temas, o grupo – atendendo a pedidos da plateia – tocou “Allah Hu”, à maneira de Nusrat Fateh Ali Khan, talvez a voz mais conhecida e representativa do Qawwali e de quem Asif Ali Khan foi discípulo. Quando soaram os primeiros compassos do quinto tema, foi possível perceber – pelo seu caráter mais sóbrio – que o fim do concerto estava próximo. Durante a canção, Raza Hussain nos disse que esse era um tema que falava de paz, amor e dança e convidou a assistência a ficar de pé, tocar palmas e cantar junto com eles até o final da canção. Finda a música, permanecemos de pé para ovacionar os músicos enquanto eles se levantavam, acenavam e se retiravam do palco após quase duas horas inesquecíveis.

Mesmo fora do seu contexto original, durante o concerto pode-se compreender o quão espiritual é o Qawwali. Por mais que a atenção estivesse totalmente voltada a Asif Ali Khan e seu grupo, houve ali uma conexão com o divino, mesmo que essa conexão nada mais fosse que o olhar para dentro, por um instante ao menos. E naquele momento todos nós, músicos e assistência, estávamos ligados por algo muito maior. Por fim, recordei-me das palavras que certa vez Jack White escreveu em verso, e que permitiram-me perceber o que era aquele algo muito maior que nós, talvez maior até que o mundo. Aquele algo era a música. E a música é sagrada.

Texto: Luiz Sangiorgio

Fotos: Márcia Lessa/FCG