Amália, A Ressurreição : Os (Breves) Primeiros Capítulos do Novo Livro de Fernando Dacosta

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“Camões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, Amália a voz”, escreve Fernando Dacosta numa das primeiras páginas do seu novo livro, “Amália, A Ressurreição”. Um livro em que – consulte-se o índice no final desta página – Fernando Dacosta tenta responder a inúmeras perguntas que ainda nos intrigam e inquietam acerca de Amália Rodrigues. Porque, apesar de Amália ser a fadista cujos pormenores de vida (e da obra) são mais bem conhecidos, estudados e analisados, ainda restam milhares de mistérios por desvendar e segredos por revelar. E Fernando Dacosta lança aqui uma nova – e muitas vezes inédita – luz sobre muitos deles.

Porque, repete-se, quando falamos de Amália – e escrevemos sobre Amália – a questão fundamental é sempre esta: de que lado é que ela nos olha e de que lado é que nós a olhamos? Da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda? Do lado da mulher de origem rural, beirã, que ela se sentia sempre ser ou da (grande) senhora urbana e cosmopolita que ela também foi? Do lado dos letristas populares do fado ou de um outro, novo então, em que os grandes poetas portugueses também tinham lugar na sua voz (e no fado)? Do lado das mais profundas tradições deste género ou daquele em que havia lugar para as canções de um compositor de escola erudita (Alain Oulman) e adaptações de canções populares brasileiras (“Mãe Preta”/”Barco Negro”)? Do lado da música de Lisboa – o Fado! – ou da canção de Coimbra (“Coimbra”/”Avril au Portugal”/”April in Portugal”) e dos malhões, dos viras ou das modas de mil outros lugares do interior de Portugal?

Do lado da música só, e nossa, portuguesa ou de muitas, tantas e imensas, outras músicas (espanholas, italianas, francesas, norte-americanas, brasileiras, israelitas, mexicanas…)? Do lado do glamour ou da simplicidade? Da festa ou do luto? Do recato ou da dolorosa mas necessária exposição pública? Do lado do salazarismo, que dela se aproveitou (com o seu consentimento e declarações públicas de admiração ao chefe do estado) ou da oposição a esse mesmo salazarismo, uma oposição com quem ela convivia diariamente e com quem também se identificava (Alain Oulman, Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira, o perigoso “Fado Peniche”, a misteriosa digressão pela União Soviética e outros países do leste comunista…)?

Da esquerda ou da direita? Da direita ou da esquerda? Em tudo – na vida, na obra, no percurso, nas palavras dos fados que cantou (e também, maravilhosamente, em alguns que escreveu),  nas centenas de músicas que interpretou – essa dicotomia esteve presente na vida (e, repete-se por ser dela indissociável) e na obra de Amália Rodrigues. E depois, agora, o que ficou de todo esse legado, de todas essas dúvidas, de toda essa obra?

“Amália, A Ressurreição”, do jornalista – maior entre os maiores e exemplo para todos nós, os que vieram depois – Fernando Dacosta dá-nos novas pistas, e conduz-nos sabiamente por todas elas, para a compreensão definitiva de muitas destas e de outras questões sobre Amália Rodrigues. E é com muito orgulho que O Fado & Outras Músicas do Mundo publica aqui as primeiras vinte páginas deste livro novo, mas já primordial, e ainda o índice completo, para se ficar a saber tudo o resto de que aqui se fala:

Amália, A Ressurreição_Livro_Fernando Dacosta

 

 

Fernando Dacosta

Amália, A Ressurreição

Casa das Letras/Leya

 

 

I – A SAGRAÇÃO

Os automóveis, poucos àquela hora, vão parando lentamente. Grupos de populares, em semicírculo, juntam-se silenciosos defronte de um pequeno prédio na Rua de São Bento, em Lisboa: o número 193. São cinco da madrugada.

O céu começou a clarear e a cidade a recortar-se. Mulheres e homens adiam o caminho, suspensos, ali, por uma voz em ecos abissais. O ambiente ganha vibrações fantasmáticas.

Pouco antes de morrer, Amália, Amália Rodrigues, a genial cantora do século xx, refugia-se, doente, nos seus discos, que repete continuamente, obsessivamente – contra a dor e a inquietação. As últimas noites são passadas assim. Sem dormir, ela ouve-se, ouve-se, e a voz sai pelas janelas, e envolve os que passam, maravilhando-os, dilatando-os.

Uníssona, a multidão rebentará depois em aplausos, desconcertando Amália, que se ergue, se dirige à varanda, se acena sob sorrisos em lágrimas. Milagres aconteceram-lhe sempre, que inexplicável lhe foi o destino – sempre.

 

DIVINDADE PAGÃ

amalia_pose_muito_boaAs excepcionalidades reveladas por Amália depressa a tornaram uma personalidade capaz, a nível do simbólico, de nos projectar universalmente. Predestinada ao superior (o superior da criatividade, da comunicabilidade), passou a vida a assumi-lo através da sua exigência e inteligência, tornando-se uma das mátrias do nosso património cultural. Pessoas como ela são entes que chegam disponíveis, sabem encontrar caminhos, abrir futuros, afirmar liberdades, diluir decepções, sem cedências, sem desistências; entes para quem a qualidade se tornou, mesmo quando a memorizam, lha menorizam, matriz de tudo.

Personalidade de acrescentamentos, ela conciliou como poucos sonho e desejo, pensamento e acção, harmonia e ruptura, compromisso e independência, individualismo e universalismo. Entre a realidade que lhe coube partilhar e a imaginação que lhe coube dilatar, Amália foi vivendo, ardendo sob a ondulação dos tempos, tempos que a não azedaram nem adamaram; tornaram-na, pelo contrário, mais lúcida e depurada, fazendo-a perceber que era maior do que os meios onde emergira.

«Procurei sempre palavras e pessoas que tivessem peso para mim, daí a importância que dei aos grandes criadores», afirmará.

Mostra um papel onde escreveu: «A minha inquietação é feita do que eu sofro nos outros, do que eu sofro dos outros» – um verso, talvez, para um fado seu, talvez.

Amália fez mais «pela poesia portuguesa do que a maior parte dos especialistas», lembra David Mourão-Ferreira, um dos seus autores preferidos. A poesia tornara-se-lhe desde cedo um universo de bons recantos. Lia tudo, decorava tudo. No fim da vida, perdida a voz, escrevia versos soltos, apontamentos de cariz humorístico, pensamentos de natureza filosófica. A poesia e a filosofia eram-lhe umbrais de funda intimidade. Publicou, por iniciativa de Vítor Pavão dos Santos, um volume de poemas (com o título de Versos) e vários discos com letras suas.

Estrela Carvas, sua amiga (e secretária, motorista, governanta, confidente), apanhava os escritos abandonados por ela, guardava-os, compilava-os, o que permitiu reter um património preciosíssimo.

 

TRIÂNGULO MÁGICO

Amália Rodrigues_pose com guitarraCamões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, Amália a voz. Eles constituem o triângulo mágico da nossa identidade, são traves mestras da cultura que nos individualizou, universalizou. Nem todos o terão, no entanto, entendido, pois a generalidade não configurou essa associação nem a importância, nela, de Amália Rodrigues. É costume tal acontecer aos excepcionais.

A cantora tinha uma presença única no mundo da música. Todas as transformações que lhe introduziu foram – embora gostasse de afirmar o contrário – cuidadosamente estudadas e encenadas por si. Como a saia, o xaile, a blusa, até aí em uso pelas fadistas não correspondessem ao que ambicionava, rompeu com a tradição e, na opereta Mouraria (que protagonizou com Alberto Ribeiro, em 1946), envergou um vestido comprido negro. A surpresa foi total.

Amália não apreciava actuar, por escassez de espaço, em retiros e casas de fado, pois precisava de uma zona-de-ninguém entre si e o público que lhe rolasse a voz antes de chegar aos outros, para melhor chegar. Seria o palco tornar- se-lhe altar de transfiguração e o vestido comprido preto essência de postura; depois, apaixonada pela grande poesia, introduziu-a no seu reportório, a que compositores de génio, como Alain Oulman, deram superior intemporalidade.

Oulman conheceu Amália Rodrigues em 1962, num terreno de campismo selvagem onde ela passava férias, na foz do rio Lisandro, junto à Ericeira, que comprara. Um dos seus objectivos ao procurá-la era levá-la a interpretar os poetas cimeiros de língua portuguesa. Assim aconteceu e assim surgiram discos seus com criações do autor de Os Lusíadas, de Cecília Meireles, de David Mourão-Ferreira, de Pedro Homem de Melo, de Manuel Alegre, de Alexandre O´Neill, de Ary dos Santos. «Cantei-os porque para mim eram fados», justificou Amália.

Os seus lados ao mesmo tempo solares e nocturnos levavam-na com frequência da alegria à inquietação, da vitalidade à apatia, da sensualidade ao acabrunhamento, do profundo ao epidérmico, conseguindo nesse desdobramento agarrar elites e multidões como ninguém o logrou entre nós. De Erros Meus (Camões) ao Cochicho da Menina (popular) ela viajou por todos os registos e públicos numa diversidade sem matemática.

«As pessoas gostam de ouvir historiazinhas. As coisas que exigem reflexão são as que menos tocam as massas, é preciso, por isso, doseá-las», afirmará.

Fado: expressão de universalidade

Amália Rodrigues com Alain OulmanA melancolia interior e a errância exterior que nos caracterizam criaram, com o dobrar dos séculos, dos infortúnios e das esperanças, uma expressão musical única no mundo: o fado.

Emergido nos bairros de Lisboa era, no princípio, cantado por rufiões e prostitutas, e no bojo das naus por marujos e aventureiros. Mais tarde, a aristocracia seduziu-se por ele (a paixão do conde de Vimioso e da Severa ganhou, no imaginário nacional, contornos mitológicos), o mesmo acontecendo a estrangeiros e turistas de passagem.

No fim da primeira metade do século xx, Amália, vinda de zonas populares da capital, deu-lhe, então, ascensões inimagináveis, através da sua voz, do seu magnetismo, da sua genialidade.

Foi uma das pessoas mais (intuitivamente) inteligentes que tivemos. Tanto que, nos seus quotidianos, se dissolvia para, dúplice, enigmática, preservar a intocabilidade que a habitava.

Consciente do seu poder (Maria Callas, Edith Piaff e ela foram as maiores cantoras do século xx), cedo percebeu que o fado poderia ser uma expressão global.

A ênfase com que, adolescente ainda, o dominou nos retiros e palcos portugueses, fê-la ambicionar mais, cada vez mais.

Compreendo-lhe a excepcionalidade (nada existia de parecido na música internacional), sentindo-lhe a hipnose (o fascínio dos que o ouviam era flagrante), ela encena-o com outras vestes, outros espaços, conteúdos, expressividades, sonoridades.

Com mestria, dilata-o pela postura (altiva) do corpo e pela palavra (superior) que lhe imprime. O fado tem, vislumbra-a e assume-a, uma centelha operática de incomum potencialidade.

Duas pessoas tornam-se-lhe emblemáticas na metamorfose encetada: Ilda Aleixo, estilista, que criará, durante 40 anos, os espantosos paramentos que lhe imprimem rituais de divindade pagã, e Alain Oulman (Nota: nesta foto, com ela), que a leva a cantar Camões ante a estupefacção de uma intelligentsia escandalizada e chã. O mundo inteiro, de Nova Iorque a Moscovo, de Helsínquia a Melburne, venera-a. Amália faz-se (com Pessoa e Saramago) a figura mais universal da nossa língua no século passado.

Fernando Dacosta

ÍNDICE

I – A SAGRAÇÃO……………………………………………………….. 11
Divindade pagã…………………………………………………………….. 15
Triângulo mágico………………………………………………………….. 17
Jantar no Tavares………………………………………………………….. 21
Estrangeiros chiques……………………………………………………… 24
PIDE , KGB, CIA e Mossad……………………………………………….27
Inatacável, incontrolável………………………………………………… 30
Aventura soviética………………………………………………………… 32
Prender Camões…………………………………………………………… 35
Não ser devorada………………………………………………………….. 37
Patrimónios de orgulho………………………………………………….. 39
Ela envergonhou-os………………………………………………………. 46
Aldeias beirãs………………………………………………………………. 48
Comportamentos insólitos……………………………………………… 54
Celeste e Filipina………………………………………………………….. 56
Mercedes e vison………………………………………………………….59
Mil contos de um padre…………………………………………………. 61
Não gostou………………………………………………………………….. 63
Tomam chá………………………………………………………………….. 64
Ausência de desejo……………………………………………………….. 66
Digressão a Angola……………………………………………………….. 68
Dançaram sobre mesas………………………………………………….. 70
Comia massa guisada…………………………………………………….. 73
Um pouco budista………………………………………………………… 75
Horrores distantes………………………………………………………… 78
Galãs portugueses………………………………………………………… 82
Comparada a Nijinsky…………………………………………………… 83
Sempre esquiva……………………………………………………………. 85
Prodigiosas portuguesas…………………………………………………. 87
Fome de reconhecimento………………………………………………. 93
Administrar o talento……………………………………………………. 95

II – A INQUIETAÇÃO…………………………………………………. 97
Sardinhas assadas………………………………………………………….101
Vingança deliciosa………………………………………………………..103
Portugueses americanizados……………………………………………105
Passageira VIP……………………………………………………………..110
Veleiros no horizonte…………………………………………………….114
Coroada de flores…………………………………………………………124
Florbela rejeitada………………………………………………………….125
Inigualável biógrafo………………………………………………………130
Ilha de papel………………………………………………………………..132
Acidente na Folgosa………………………………………………………136
Procurar tapetes…………………………………………………………..138
A Lisboa de Amália………………………………………………………141
Correr no Tejo……………………………………………………………..143
Imitação do Éden…………………………………………………………144
Tímida e orgulhosa……………………………………………………….146
Óculos de sol……………………………………………………………….148
As cinco abadessas………………………………………………………..150
Vénia de Zeca Afonso…………………………………………………..152
O grande provocador…………………………………………………….155
A fragilidade das pessoas……………………………………………….158
Bispo Vermelho…………………………………………………………….160
Tiradas casamenteiras……………………………………………………162
Primeiras-ministras……………………………………………………….164
Paixões frustradas…………………………………………………………166
País roxo……………………………………………………………………..168
Ponte aos tremeliques……………………………………………………172
Cardeal esfíngico………………………………………………………….175
Perdão a Deus……………………………………………………………..181
A santa e a diva……………………………………………………………183
Queimaram-lhe o colchão………………………………………………193
Invejas tremendas…………………………………………………………195
Apaixonados por ela……………………………………………………..197
Socorrida por Américo Amorim……………………………………..199
Direito ao fracasso………………………………………………………..201
Gélida altivez………………………………………………………………203

III – A RESSURREIÇÃO………………………………………………205
Estranha forma de morte……………………………………………….209
Tumultos afectivos………………………………………………………..213
Uma mãe……………………………………………………………………214
A crucificação………………………………………………………………216
Adorava os Jerónimos……………………………………………………217
Personagem fulcral……………………………………………………….219
Como uma castelã………………………………………………………..221
Fim do milénio…………………………………………………………….224
Doloroso ouvi-la…………………………………………………………..225
O mito Amália…………………………………………………………….227
Paramentos de Ilda Aleixo……………………………………………..230
Dedal de ouro……………………………………………………………..233
Um ladrão no quarto…………………………………………………….235
Trocada por vinhos……………………………………………………….237
Contornar a morte………………………………………………………..239
Encontro deslumbrante…………………………………………………241
Pânico da sida………………………………………………………………243
Namorar a morte………………………………………………………….248
Sílvio e Silvana…………………………………………………………. 254
Baraço ao pescoço…………………………………………………………256
Santa de Copacabana…………………………………………………….257
O fado alivia………………………………………………………………..259
Precioso património………………………………………………………261
Medalhão-guitarra………………………………………………………..263
Figura imbiografável……………………………………………………..267
Menoridade decepcionante…………………………………………….270
Uma navegante…………………………………………………………….272
Jantar com um cadáver………………………………………………….275
Palácio das Tormentas……………………………………………………277
Indignada com Eugénio…………………………………………………281
Ressonâncias de genialidade……………………………………………283
Flutuar na vida…………………………………………………………….285
Miniaturas de Amália……………………………………………………287
Renascer no Brejão……………………………………………………….288
O último funeral………………………………………………………….290
Novas ondulações…………………………………………………………294