Divas Brasil : Dona Onete, Ná Ozzetti, Juçara Marçal e Elza Soares (ou Tanta Sabedoria Feita Música), por Enrique Blanc

Possivelmente só no Brasil poderiam dar-se casos como os de Elza Soares, Dona Onete (na foto), Ná Ozzetti e Juçara Marçal na música popular. Quer dizer, descobrimentos tardios ou regressos imprevistos de cantoras que, embora tenham feito carreira, se tinham mantido na sombra até que, de repente, uma série de lançamentos as colocou sob a luz da ribalta. E o mais interessante disto é que todas estão acima dos 50 anos de idade, o que não só fala a favor da sua frescura e obstinação profissional, como também da saúde cultural de um país que não está ancorado em modas da juventude nem em géneros de rentabilidade comercial, mas que reconhece com refinado olfacto o talento, a paixão e a magia. Entremos em cada uma delas e descubramos na passagem as suas fascinantes histórias de vida.

Ná Ozzetti

Ná Ozzetti_pose_divas brasilSe bem que Maria Cristina Ozzetti, mais conhecida como Ná Ozzetti, tenha estado no activo desde o final dos anos oitenta, foi 2015 o ano-chave da sua carreira, o mesmo em que dois álbuns a projectaram para além das fronteiras do seu país. “Ná e Zé”, que é um trabalho produzido com o pianista e compositor Zé Wisnik, e “Thiago França”, a sua colaboração com o grupo Passo Torto.

O primeiro é a prova da sua amizade e admiração por Wisnik. A história conta que há já três décadas ela interpretava as suas composições. Aqui, embora seja o piano dele o eixo condutor do álbum, ambos não negam também o seu gosto por sons mais contemporâneos como sucede em “Gardênias e Hortências/Subir Mais”. Um álbum que liricamente recorre a vários dos poetas mais reconhecidos da língua portuguesa e que fornecem o seu sentimento às canções, entre eles Fernando Pessoa, Oswald de Andrade e Paulo Leminski. Um disco em que a voz e o piano se harmonizam e encontram diversidade na utilização dos demais recursos que entram no seu apaixonado jogo musical.

O segundo, pelo contrário, é um trabalho sem dúvida mais experimental em que Ozzetti  participou e em que o seu carácter lúdico está completamente evidenciado. O grupo é mais um dos projectos em que o som muito característico da guitarra de Kiko Dinucci é um dos recursos mais constantes. Composições que saem da sua cabeça e da cabeça dos outros três loucos que fazem parte do quinteto:  Romulo Fróes, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos. Na página oficial do grupo – em que se podem descarregar os seus três trabalhos experimentais editados até agora: www.passotorto.com.br – pode ler-se o seguinte: “Passo Torto e Ná Ozzetti é cinema”.

É música e palavra em curto-circuito que provoca a imaginação do ouvinte: imaginação e acção, imagem em movimento… É cinema, uma sugestão de ambientes e espaços, planos e enquadramentos, de climas e texturas quase palpáveis… Aquele cinema novo, a nouvelle vague e o cinema marginal… Uma voz madura, a de Ozzetti, que com os seus 58 anos se posicionou como cúmplice das mentes mais inclassificáveis da cena musical de São Paulo.

 

Juçara Marçal

juçara marçal_pose_divas brasilCom 55 anos, a morena Juçara Marçal é a mais jovem destas cantoras que hoje enfeitiçam o Brasil, a quem já conhecíamos antes de mais como a voz inconfundível dos Metá Metá, grupo com o qual produziu quatro álbuns até à data, entre eles o celebrado “MM3”, de 2016. Não satisfeita com isto, Marçal ainda decidiu iniciar uma carreira a solo em 2014. “Encarnado”, a sua estreia nessa faceta, é o disco que o portal Miojo Indie destacou como o mais relevante desse ano, uma espécie de mano-a-mano entre a sua garganta e as seis cordas esquizofrénicas de Dinucci, que é de certo modo o seu fiel escudeiro musical.

A plasticidade da voz de Marçal passou a ser um dos recursos mais valiosos da cena musical paulista contemporânea. Assim, além do que tem feito a solo e com os Metá Metá – os seus discos estão disponíveis para download gratuito em: metametaoficial.com.br -, ela colaborou tanto em “Bahia Fantástica” como em “Conversas com Toshiro”, ambos álbuns de Rodrigo Campos; e também no trabalho experimental que realizou com Cadu Tenorio, intitulado “Anganga” — em download gratuito no site bandcamp deste produtor electrónico carioca—, trabalhos que os próprios definem como “reinterpretações contemporâneas de vissungos (um estilo de cantos africanos interpretados no dialecto bantú que geralmente aludem ao trabalho nas minas), recolhidos por Aires de Mata Machado Filho, em São João de Chapada, município de Diamantina, em Minas Gerais, assim como cantos de Congado Mineiro”.

Um disco que transmite perfeitamente o carácter artístico de Marçal, que vai do ancestral ao vanguardista num piscar de olhos. Uma cantora no auge da sua carreira e que, sem dúvida, iremos seguir de perto daqui em diante.

 

Dona Onete

dona_onete_pose_divas_brasil_pura_mestizaÉ uma cantora que finalmente pôde dar-se a conhecer, aos 72 anos, através do lançamento do seu aclamado disco de estreia, “Feitiço Caboclo”, editado internacionalmente pela prestigiada etiqueta britânica Mais Um Discos, em 2012. Um álbum que a converteu numa estrela tanto dentro como fora do Brasil.

Foi o diário The Guardian que a baptizou como “a veterana rainha do carimbó”, aludindo a um dos estilos que marcam a sua sonoridade, para além da evidente presença do samba, do folclore do Pará, salsa do Caribe, bolero e brega.

Falta dizer que Onete cantava desde menina, dando rédea solta à sua infalível espontaneidade. No entanto, a vida levou-a para outros caminhos: foi secretária da Cultura e também professora de História em estudos amazónicos, duas profissões que revelam, tal como o seu papel de cantora de música tradicional, um profundo amor pela sua terra, o Estado do Pará, no norte do Brasil.

Hoje, com 77 anos, Dona Onete converteu-se numa figura destacada na tradição musical de um país em que a idade não parece ser um impedimento para ela. “Banzeiro”, o seu segundo álbum, editado em 2016, confirmou tanto a vivacidade do seu carácter como a sua versatilidade para mover-se entre estilos musicais. O seu sucesso foi tal que o complementou com a publicação das suas memórias, “Menina Onete – Travessias & Travessuras”, livro que nos apresenta a maravilhosa história de uma mulher que jamais pensou que a sua vida iria mudar tão drasticamente em plena maturidade.

 

Elza Soares

elza-soares-poseTeve que ser a portentosa saída de “A Mulher do Fim do Mundo” – o título mais recente de uma discografia que arrancou em 1960 -, álbum que Elza Soares gravou com 86 anos e que finalmente trouxe a sua voz inconfundível, a sua obra e o fantástico retrato da sua vida ao reconhecimento que merece. Um papel importante na redescoberta desta cantora mulata foi o do guitarrista Kiko Dinucci, que para além dela também é, de certo modo, o responsável pela presença activa de Ná Ozzetti, com quem trabalhou fazendo parte do ensemble de vanguarda Passo Torto; assim como do álbum de estreia a solo de Juçara Marçal, com quem também integra o acamado trio Metá Metá.

Entrar na personalidade de Elza Soares através de “A Mulher do Fim do Mundo” é reconhecer de imediato uma sede insaciável em chegar ao fundo da sua produção discográfica e a necessidade de conhecer a sua colectânea “Negra”, que contém gravações feitas entre 1960 e 1977 e reúne mais de vinte temas de uma discografia, na sua maioria, esquecida. Agora que ressurgiu e que reforça o seu prestígio internacional, a sua idade escorre de um rosto que recorreu a múltiplas cirurgias plásticas, numa tentativa de esconder a passagem do tempo; (um rosto) emoldurado por uma enorme cabeleira afro de cor roxa que combina com sobrancelhas que destacam o seu olhar penetrante e nada ingénuo. Mas, no entanto, a sua voz brota natural e não esconde a magia de alguém que exala vida, dor e alegria em cada suspiro.

Mas o mais deslumbrante é a sua vida, o facto de ter-se apaixonado por Garrincha – aquele futebolista espectacular, para muitos o extremo-direito mais incrível da História -, quando ainda estava casado. A história da sua relação escandalosa com ele que perdurou durante mais de 16 anos. Duas estrelas que tinham nascido no submundo do seu povo e que confrontavam os seus demónios quotidianos: o alcoolismo dele e a frustração dela por ser apontada como “pecadora” pelo seu povo. Isso e o facto de, antes, Soares ter sido mãe com apenas 12 anos, para além de ter enviuvado em idade precoce, fazendo frente a um destino marcado pela miséria e com quatro bocas para alimentar e dar sustento.

A voz de Soares surge-nos desgastada pela vida, não podendo esconder a nostalgia, mas redimida pela beleza selvagem do sentimento que transmite. Em “Coração”, a primeira faixa de “A Mulher do Fim do Mundo”, ela canta a capella com essa força tão própria do brasileiro que de imediato evoca compositores de extracção popular como Cartola ou Jackson do Pandeiro. “Pra Fuder”, uma das suas canções mais atrevidas, cujo título e letra aludem graficamente ao acto sexual, é cantada com a convicção de uma mulher que parece pronta a engravidar, sobre uma instrumentação de jazz frenético. “Benedita”, a mais surpreendente de todas, é uma colagem de sons e ritmos que evolui caprichosamente e sem lógica, aparentando Soares a alguns dos mais imprevisíveis compositores brasileiros, de Os Mutantes a Tom Zé.

 

Enrique Blanc

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)