José Afonso por Alcides Bizarro : O Tempo e O Modo (Parte 5)

O Fado & Outras Músicas do Mundo orgulha-se de partilhar uma biografia de José Afonso assinada por Alcides Bizarro, originalmente publicada no Boletim Municipal da Câmara Municipal de Grândola. É um documento preciosíssimo e um testemunho inédito nas páginas virtuais da internet, que aborda – e contextualiza no tempo e no espaço – muitos momentos marcantes da sua vida e obra. Hoje, deixamos aqui a quinta (e última) parte deste extenso trabalho.

XIV

Após o 25 de Novembro de 1975 José Afonso vive um período de algum desencanto acompanhando o refluxo do movimento popular revolucionário que marcara o Verão Quente de 75. Apesar disso envolve-se activamente em 1976 na campanha para as primeiras eleições presidenciais em democracia em que concorrem Ramalho Eanes, Pinheiro de Azevedo, Octávio Pato e Otelo Saraiva de Carvalho. José Afonso coloca-se, obviamente, ao lado de Otelo e participa activamente no movimento de unidade popular que se constitui um pouco por toda a parte para apoiar Otelo, e que agrupa praticamente toda a esquerda à esquerda do PCP. É aliás nesse período que José Afonso sofre os maiores ataques dos militantes do Partido Comunista, chegando ao ponto de ser praticamente vaiado em Grândola, durante uma sessão de apoio a Otelo. Sobre a campanha para as presidenciais eis o que conta José Afonso: “Depois do 25 de Novembro houve uma certa paragem do movimento popular e maiores dificuldades no avanço unitário das massas. A primeira campanha eleitoral do Otelo foi um acontecimento que contrariou esse retrocesso. Efectivamente, a experiência em Angola foi das mais felizes, a de Trás-os-Montes foi extraordinária, mas a candidatura de Otelo, em 76, foi das coisas mais compensadoras que vivi. Essa campanha teve bastante imaginação, o staff era avalizado, e apesar das grandes carências de meios conseguiu-se movimentar muita gente, sobretudo gente popular e trabalhadora. Fiquei impressionado e apercebi-me de uma relação directa entre a figura de Otelo e os movimentos de massas que se desencadearam durante a campanha, Era uma relação que se devia ter mantido sempre. (…) Vivi situações felizes de que não me esqueço (…) Podia ter sido um caminho se as formações políticas que apoiaram Otelo não tivessem tantos vícios: todas eram a vanguarda e se autonomearam representantes das massas. Assim rebentaram os GDUP…”

josé_afonso_comasminhastamanquinhas1Apesar do bom resultado obtido por Otelo com mais de 16 % dos votos, e votações expressivas em muitas zonas do País (em Grândola, por exemplo, Otelo derrota claramente o candidato do Partido Comunista Português, Octávio Pato, conseguindo 42,2% dos votos dos grandolenses, contra 21, 3% de Octávio Pato) as grandes movimentações populares não se repetem e José Afonso volta a dedicar-se mais à música, através dos concertos que vai fazendo um pouco por todo o país e pelos trabalhos discográficos que continua a publicar com regularidade. Em 1977 sai o álbum “Com as minhas tamanquinhas” a que alguma crítica atribui o prémio do pior disco saído nesse ano em Portugal. O disco tem a surpreendente participação de Quim Barreiros. É, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido (…) hoje». Em 1978 edita “Enquanto há força” e em 1979 é a vez de “Fura fura”. As canções destes álbuns são autênticas crónicas do período revolucionário e pós revolucionário que José Afonso vive intensamente e constituem ainda hoje elementos de enorme valor sociológico e histórico, dando, com a ironia que sempre caracteriza José Afonso, uma imagem muito precisa daqueles tempos.

Durante esse período continua obviamente ligado à actividade política, de forma mais ou menos activa. Em finais de 78 associa-se ao movimento para a libertação dos dirigentes do PRP-BR, Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Apoia a causa de Timor-Leste e volta a apoiar a segunda campanha presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, em 1980. Dado o extremar de posições entre o candidato apoiado pela direita – Soares Carneiro e a de Ramalho Eanes, apoiado por toda a esquerda, em que se inclui o PCP, a campanha de Otelo, não passando despercebida, não suscita a adesão popular que tivera a anterior e o candidato, apesar de ser o terceiro mais votado (depois de Ramalho Eanes e Soares Carneiro) obtém um resultado modesto, deixando uma vez mais o cantor desencantado com a vida política.

Em 1976 Mao-Tsé-Tung morre com 82 anos abrindo uma intensa luta pelo poder na China. Na África do Sul milhares de sul-africanos negros saem para a rua como protesto contra mais uma medida do apartheid. A polícia sul-africana é autorizada a disparar sobre a multidão para impor a “ordem a qualquer custo”, como proclama o primeiro-ministro Vorster. Em Julho comandos israelitas desembarcam no aeroporto de Entebe para libertarem reféns aprisionados por comandos terroristas pró-palestinianos. A operação é um sucesso para os israelitas apesar da morte de 3 dos cerca de 100 reféns. 20 soldados ugandeses são mortos bem como os 7 comandos terroristas. A grave crise económica na Argentina leva o exército a derrubar o governo de Isabel Péron e a tomar o poder. Noutro país do mesmo continente, o democrata Jimmy Carter é eleito para a presidência dos estados Unidos derrotando Gerald Ford.

Em 1977 realizam-se as primeiras eleições espanholas em 41 anos iniciando um processo gradual e sem sobressaltos de regresso ao regime democrático, tal como Juan Carlos havia prometido na sua proclamação como rei de Espanha. Elvis Presley é encontrado morto na casa de banho da sua mansão em Graceland, deixando consternados milhões de fãs, que ainda hoje se recusam a acreditar na sua morte. Em 1998 o conflito do Médio Oriente parece à beira do fim. O primeiro-ministro Menachen Begin e o presidente do Egipto, Anwar Sadat assinam os acordos de Camp David com cedências e vitórias de parte a parte. Um novo Papa é eleito e para surpresa do mundo é o primeiro papa não italiano em 400 anos. O antigo cardeal polaco Wojyila, de 58 anos, adopta o nome de João Paulo II.

Em 1979 o movimento islâmico ganha um impulso significativo. Reza Pahlevi, o Xá do Irão é forçado a abandonar o país e os líderes religiosos, que contestam fortemente a ocidentalização do Irão movimentam-se para a conquista do poder. Um nome vai sobressair entre todos. O ayatolla Khomeini arrastará o país para um fanatismo religioso sem precedente. No Reino Unido Margaret Thatcher vence as eleições tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro. “Queremos trazer a harmonia onde reina a discórdia, e a esperança onde reina o desespero” declara Thatcher em frente ao n.º 10 de Downing Street. No final do ano a URSS invade o Afeganistão, com o pretexto de responder ao pedido de ajuda do governo pró-soviético afegão, a braços com crescentes dificuldades perante a guerrilha. Em África o autoproclamado imperador Bokassa é afastado do poder do Império Centro Africano pelo seu sobrinho e antigo presidente David Dacko. O país torna-se de novo uma república depois de anos de ditadura feroz em que Bokassa, à falta de melhores argumentos, comia os seus adversários. Em 1980 o mundo assiste com admiração à corajosa luta dos operários navais polacos, liderados por Lech Walesa, pelo direito a se organizarem em sindicatos livres. O regime comunista é forçado a ceder e surge o Solidariedade, o primeiro sindicato nacional independente do regime. A Rodésia de Ian Smith desaparece para dar lugar ao Zimbabwe de Robert Mugabe, após as realizações das primeiras eleições democráticas naquele país, e após anos de resistência armada e boicote internacional ao poder da minoria branca. Na Jugoslávia morre o marechal Tito, responsável pela união de diferentes povos de 6 repúblicas da Jugoslávia. A sua morte provocará o reacender das pulsões nacionalistas, em torno das rivalidades étnicas e religiosas. São também razões de ordem étnica e religiosa que levam o Irão e o Iraque a iniciar em Setembro uma guerra pelo controlo do Golfo Pérsico. Em Agosto o mundo ocidental boicota a realização dos Jogos Olímpicos de Moscovo, como forma de protesto pela invasão do Afeganistão. Nos Estados Unidos Jimmy Cárter perde as eleições para o republicano Ronald Reagan, um conhecido ex-actor de cinema. Finalmente em Dezembro, John Lennon é morto a tiro à porta da sua residência por Mark Chapman, que conquista deste modo um triste e estranho lugar na história.

Constituição Política da República PortuguesaEm Portugal vive-se a ressaca do período revolucionário e a estabilização da democracia. A 2 de Abril de 1976 é promulgada a nova Constituição da República Portuguesa, com os votos contra do CDS. A 25 de Abril realizam-se as primeiras eleições para a Assembleia da República. O PS vence novamente as eleições, com 35% dos votos e Mário Soares é o primeiro chefe do governo eleito após o 25 de Abril. Em Julho Ramalho Eanes vence as eleições para a Presidência da República, apoiado pelos principais partidos à direita do PCP. Em Dezembro realizam-se as primeiras eleições autárquicas, com nova vitória a nível nacional do PS. Em Grândola vence o PCP por larga maioria, levando à Presidência da autarquia António Figueira Mendes. Em 1977 o governo português pede e vê-lhe ser concedida a integração do país na CEE. Em Julho a Assembleia da República aprova a lei da Reforma Agrária e do arrendamento rural que fica para a história como lei Barreto e que é fortemente contestada pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda. A 6 de Dezembro cai o primeiro governo constitucional de Mário Soares após a rejeição no Parlamento de uma moção de confiança ao governo. A 20 de Janeiro de 1978 Mário Soares é novamente empossado no cargo de primeiro-ministro, chefiando desta vez um governo em coligação com o CDS. Em Julho Ramalho Eanes demite este governo dando início a uma série de governos de iniciativa e confiança presidencial, o primeiro dos quais chefiado por Nobre da Costa. Em 1979 o PSD, CDS e PPM assinam um acordo para criação da Aliança Democrática, liderada por Francisco Sá Carneiro. Em Julho Ramalho Eanes dissolve a Assembleia da República e convoca eleições antecipadas. O governo intercalar até às eleições é entregue a Maria de Lurdes Pintassilgo. A 2 de Dezembro a AD vence as eleições obtendo 45% dos votos, quase maioria absoluta. Em Outubro de 1980 em novas eleições legislativas a AD conquista a maioria absoluta. A 4 de Dezembro, a 3 dias das eleições para a Presidência da República, o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, Amaro da Costa e Snu Abecassis morrem num desastre de avião em Camarate, lançando para sempre a dúvida entre acidente ou atentado. Finalmente a 7 de Dezembro Ramalho Eanes é reeleito Presidente da República, vencendo claramente o candidato apoiado pela AD.

É em 1982 que José Afonso conhece os primeiros sintomas da doença que acabará por o vitimar alguns anos depois. Em 1981 o cantor participa em sessões de canto de solidariedade com Carlos Antunes, Isabel do Carmo e Fernanda Fráguas, militantes do PRP-BR detidos desde 1978 e condenados a elevadas penas de prisão. José Afonso é um dos mais activos defensores da aplicação da amnistia a estes detidos, insurgindo-se com aquilo que considera ser a disparidade de critérios existente entre as penas que são aplicadas aos membros do PRP-BR e as que não são aplicadas aos ex-agentes da PIDE-DGS. Após dois anos de silêncio regressa à actividade discográfica e a Coimbra com o álbum Fados de Coimbra e Outras Canções, em homenagem ao seu pai e a Edmundo Bettencourt. Deste álbum, que os críticos consideraram de “uma beleza imaculada” fica uma história que José Afonso conta assim: “O Júlio Isidro telefonou-me para o Algarve, para ir ao programa dele, quando saiu o meu álbum “Fados de Coimbra”. Disse-me logo que só podia cantar fados de Coimbra e nenhuma das minhas outras canções…Lá fiz a parvoíce de cantar dois fados em play-back”. Nesse ano actua em Paris, no Théatre de la Ville. Em 1982 visita Moçambique e é recebido pelo Presidente Samora Machel com honras semelhantes às de um chefe de Estado. Solidariza-se com Sérgio Godinho quando este é preso no Brasil por posse de droga. É-lhe diagnosticada uma esclerose lateral amiotrófica, uma doença incurável que se caracteriza pela destruição lenta e progressiva do tecido muscular e que se pensa ser causada por um vírus instalado na espinal-medula. Apesar do diagnóstico José Afonso procura combater a fatalidade e viaja pela Roménia, Inglaterra e Estados Unidos, à procura de uma solução. Ainda nesse ano actua em Brouges, no festival de Printemps.

José Afonso_Concerto_Coliseu

Em 1983, 9 anos depois do 25 de Abril e 17 anos depois de ter sido afastado compulsivamente, é finalmente reintegrado no ensino oficial e é destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. A doença agrava-se e já com visíveis dificuldades, realiza os últimos espectáculos, nos coliseus de Lisboa e Porto. É publicado o duplo álbum «Ao Vivo no Coliseu» e no Natal, retomando a tradição, sai «Como Se Fora Seu Filho» um álbum que é, nas palavras de José Salvador “um disco belíssimo, (…) um verdadeiro testamento político, estético e artístico, e nos revela em definitivo o rosto humano da utopia, o rosto de José Afonso envolvido numa luz láctea de infinita alegria”. Ainda nesse ano a Assírio e Alvim publica o livro “Textos e Canções de José Afonso”.

Em 1984, já com a saúde muito debilitada, recebe dos doze participantes no Concerto pela Paz e Não Intervenção na América Central, realizado em Manágua, uma das mais significativas homenagens: uma mensagem assinada, entre outros, por Pete Seeger, Chico Buarque Carlos Mejía Godoy, Sílvio Rodriguez, Daniel Viglietti, Isabel Parra e Amparo Ochoa. Nesse ano são editados os livros “As Voltas de um Andarilho”, de Viriato Teles, uma extensa reportagem sobre a vida e a obra de José Afonso e “Livra-te do Medo” um importante e detalhado trabalho biográfico da autoria de José António Salvador. Mantém o espírito de lutador e de defensor das causas sociais e políticas, manifestando o seu apoio aos trabalhadores com salários em atraso e insurgindo-se contra a prisão de Otelo e de outros elementos acusados de pertencerem às FP-25 de Abril.

1985 é o ano em que, um pouco por todo o lado, se procura homenagear a carreira e a vida ímpar de José Afonso. Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade, e Mendes Silva, presidente da autarquia refere na ocasião: «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua». «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», responde José Afonso. Em Grândola, por proposta da comissão para as comemorações do dia do concelho, a Câmara organiza durante dois dias um concerto de homenagem ao cantor que ligou para sempre o nome de Grândola aos ideais de liberdade, solidariedade e democracia, conquistados com o 25 de Abril. O Presidente da República, Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário.

josé_afonso_galinhas_do_matoÉ editado o seu último álbum, «Galinhas do Mato», onde já só dá voz a dois dos temas. Os restantes têm interpretações de Janita Salomé, Helena Vieira, Luís Represas, Né Ladeiras, Catarina e Marta Salomé e José Mário Branco. Dele diz José Afonso: “Pela primeira vez isto deu-me um prazer muito grande. Talvez pelo facto de serem outras pessoas a cantar, mas também pelo tipo de músicas. (…) “Galinhas do Mato” é uma canção demasiado africana, demasiado ligada às minhas memórias de infância e pensei que nunca encontraríamos solução instrumental para ela. (…) Fiquei surpreendido porque o resultado final é de tal forma que eu me senti transportado aos meus quatro ou cinco ano, quando estive no planalto do Bié”.

Em 1986 apoia a candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo. Relembra José Afonso: “Decidi (…) apoiar a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo. A política não é o reino do absoluto, estamos numa conjuntura que não aponta para nenhuma acção popular e revolucionária. (…) Portanto eu apoio um candidato que dê margem para determinadas movimentações a que eu chamo de contra-poder… E começo a desconfiar a sério da rigidez partidária. Entendo que, efectivamente, há partidos mais aconselháveis que outros e sou de opinião que não há conciliação entre uma perspectiva de esquerda e uma perspectiva de direita, autoritarista e reaccionária. Continuo a perfilhar convictamente estes pontos de vista, mas isso não me impede de apoiar uma personagem interessante, de grande carisma pessoal como é a Lourdes Pintasilgo. Que, a meu ver, está muito mais ligada a uma conotação de esquerda, de mudança, do que os outros. Há quem se esqueça que o Salgado Zenha foi o arauto do antigonçalvismo, do antipêcêpismo, da ‘Carta Aberta’. E que foi pela boca dele que se fizeram os mais duros ataques à CGTP. Há quem se esqueça, mas eu não tenho falta de memória, pelo menos nestas coisas… Podes escrever isto tudo que eu disse…”

José Afonso morre no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada. O funeral realiza-se no dia seguinte, e demora duas horas a percorrer os 1300 metros que separam a Escola Secundária de S. Julião do cemitério da Senhora da Piedade. Acompanham José Afonso na sua última viagem mais de 30 mil pessoas. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna é transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais. À frente segue a banda da Sociedade Musical de Fraternidade Operária Grandolense a tocar “Grândola, Vila Morena”.

Em Portugal e no mundo de 1981 a 1987 muita coisa aconteceu. Daí em diante muita outra acontecerá. Não se cumpriu entretanto nenhuma das utopias sonhadas por José Afonso e o mundo está muito longe de ser o lugar pelo qual ele tanto lutou e se empenhou. Mas permanecem e hão-de sobrar os valores verdadeiros que guiaram toda a sua vida: a liberdade, a solidariedade, o respeito pela pessoa humana. E para sempre há-de permanecer a sua música, a sua poesia, e a voz belíssima, tranquila e cristalina.

Ouçamo-lo uma vez mais. Ouçamo-lo sempre:

“Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for”.

“Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os álibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta.”

“ (…) Sou, no fundo, fruto de muitas gentes, de muitos lugares, de muitos dissabores.”

Até sempre, José Afonso…

Alcides Bizarro

Fontes principais: “José Afonso – O Rosto da Utopia”, de José A. Salvador (Terramar); “José Afonso – andarilho, poeta e cantor” (catálogo de exposição; AJA – Associação José Afonso); “Século XX – homens, mulheres e factos que mudaram a história” (Público/El País); “O século XX ano a ano” (O Independente)