João Afonso : De “Missangas”… Aos Buganvília, Um Redondo Vocábulo e Terra do Zeca

O cantautor português João Afonso lançou o seu álbum de estreia, “Missangas”, há vinte anos. Mas, antes disso, já muito tinha acontecido na sua vida de cantor, poeta e compositor. E ainda mais estava para acontecer. Nesta entrevista, João Afonso fala desse disco, do que aconteceu a seguir, da digressão comemorativa dessa data e de outros projectos seus actuais como o duo Buganvília (ao lado de Rogério Cardoso Pires), Um Redondo Vocábulo (com o pianista João Lucas) ou Terra do Zeca, ao lado de Davide Zaccaria, José Medeiros, Maria Anadon e Filipa Pais, de homenagem a José Afonso, que tem agora em curso uma campanha de crowdfunding para a gravação do seu próximo álbum (ver vídeo em baixo).

Pode dizer-se que “Missangas” foi o teu grito do Ipiranga em relação ao peso que o teu tio José Afonso exercia sobre o teu nome e a música que tinhas feito até aí, nomeadamente, dois anos antes, no disco – e anteriores concertos – do espectáculo “Maio Maduro Maio” (com José Mário Branco e Amélia Muge)?

Sim, de certa maneira podemos usar essa imagem. Mas, mesmo nessa altura de afirmação, nunca deixei de cantar temas do meu tio a quem, aliás, dediquei o “Missangas”. O que quis, na verdade, foi mostrar as minhas canções e ao mesmo tempo assumir, com muito gosto, a influência que a sua obra teve, e tem, na minha forma de inventar cantigas e possivelmente também na forma como interpreto as canções.

A vinte anos de distância, de que forma é que olhas para a importância de “Missangas” no resto da tua carreira, em termos musicais, poéticos, interpretativos? A base já estava toda lá ou faltava ainda muita coisa?

Vejo um trabalho de um músico que deixou amadurecer as canções que na maioria já tinha. O “Missangas” é quase todo composto por canções de memórias de infância, canções de alguém que, como muitos outros, teve de abandonar a sua terra, os espaços abertos, as cores e os cheiros e a intensidade humana única. O “Missangas” eternizou em mim este gosto pelo jogo de vozes, da pergunta e da resposta muito ao jeito dessa região da África Austral. Creio que esta forma suave da minha interpretação com o meu irmão Toninho está presente também nos meus outros discos. Em termos poéticos, são letras muito trabalhadas mas também muito naife que, penso, já não mantenho nesse nível nos dias de hoje. O Júlio Pereira fez um magnífico trabalho de produção e de arranjos a partir da base que lhe levei com as canções, bastante cozinhada com guitarra e com o trabalho de vozes gravado numa bobine de fita magnética Fostex.

Se fosses agora gravar – como se fosse a primeira vez – essas mesmas canções, mudavas alguma coisa (nos arranjos, na intenção, etc…)?

Acontece-me sempre com todos trabalhos pensar que poderia tirar isto ou acrescentar algo mas, de uma maneira geral, do “Missangas” ao “Sangue Bom” não mudaria nada na essência do que queria transmitir. As guitarras e rendilhados das guitarras, mais as nossas vozes que sempre pretendi para o CD, estão lá e creio serem a alma do “Missangas”. Orgulho-me de, ao longo dos meus discos, reconhecer uma identidade própria e ao mesmo tempo diferenciada. Esta procura de novos “mundos musicais“, apesar do fio condutor, é o que me dá gozo.
João Afonso_MissangasNa gravação desse disco contaste com cúmplices muito próximos, como o teu irmão António (Toninho Afonso) ou Júlio Pereira, que também trabalhou com José Afonso e que foi o produtor e arranjador de “Missangas”… Isso deu-te uma maior segurança para entrar em estúdio e gravar as tuas canções?

Sem tirar importância, que tem, a esses “créditos”, para mim o que foi mesmo essencial, o que me deu confiança, foi principalmente a amizade e proximidade que tinha, e tenho, com o Júlio, que me permitiu transmitir abertamente para onde gostaria que as canções fossem. Esse à vontade e franqueza foi fundamental para chegarmos onde chegámos.

E de onde é que apareceram Las Hijas del Sol, um grupo feminino da Guiné-Equatorial, que te acompanham no tema “Na Machamba”?

Tinham-me oferecido o CD das Las Hijas del Sol em Madrid e quando o Júlio as sugeriu para a introdução da “Mariana” foi acolhida por mim e pelo Toninho com muito gosto. Deram uma “cor” e alegria muito especiais a essa canção.

A que se deve a forte influência da música africana que sempre se reflectiu na tua música, nomeadamente no mais recente “Sangue Bom”?

O “Missangas”, o “Zanzibar”, o “Outra Vida” e agora o “Sangue Bom”, todos têm um pouco do meu lado híbrido africano. Talvez a excepção seja o “Barco Voador”. Acredito que Moçambique ficou para sempre em mim, no meu jeito de tocar guitarra e na sonoridade que ainda me acompanha dos miúdos que ouvia na rua, muitas vezes pela mão do meu pai. A dinâmica das canções “redondas”, a circularidade das ideias e dos sons continuam muito presentes na minha maneira de compor e na maneira como sinto a música.

Quem é que te acompanha ao vivo nesta digressão comemorativa dos vinte anos de “Missangas”?

São músicos por quem tenho uma enorme estima e com os quais criei uma grande empatia. Nas guitarras, o António Pinto e o Miguel Fevereiro; na secção rítmica, o Vitor Milhanas (baixo elétrico) e o João Ferreira (percussão e bateria). É com eles que levo estas “Missangas” comemorativas, com muitas das outras canções que se seguiram, para os palcos. Dá-me um enorme prazer voltar a cantar as minhas primeiras canções. Algumas trazem agora novas roupagens e dinâmicas diferentes e essa renovação é também muito compensadora, em especial nos espetáculos ao vivo, onde as pessoas nos dão um feedback muito positivo.

Para terminar, fugindo a “Missangas”. Este ano vais editar o projecto Terra do Zeca, com outros artistas como o Zeca Medeiros e a Filipa Pais. Podes falar um pouco sobre isto?

O Davide Zaccaria, que é um excelente músico e tem uma abordagem muito interessante, desafiou-me para, juntamente com o Zeca Medeiros e com a Filipa e a Maria (Anadon), dar voz a um trabalho com canções de José Afonso. Com todos estes ingredientes, não hesitei em aceitar, apesar de estar envolvido em vários projectos. Além da digressão dos vinte anos do “Missangas”, tenho um projeto chamado Buganvília com o Rogério Cardoso Pires, excepcional guitarrista e um amigo especial. É um concerto intimista que temos levado a diversos espaços em Portugal e Espanha. Também continuo a ser chamado a apresentar Um Redondo Vocábulo”, um trabalho a piano e voz sobre palavras e canções do meu tio, que foi gravado por José Fortes e conta com as mãos virtuosas no piano do grande João Lucas, também um querido amigo. Como se vê, apesar do meu grito do Ipiranga, continuo a fazer viver as canções do meu tio, seja em projetos próprios, como Um Redondo Vocábulo, seja a participar em projetos de outros músicos, e felizmente são muitos, que continuam a mostrar as canções intemporais de Zeca Afonso. Por exemplo, tive o prazer de aceitar o convite de Patxi Andión para o concerto “Zeca no Coração”, que foi há poucos dias à Casa da Música. A Terra do Zeca vai ser especial, estou certo.

Orlando Leite