Elza Soares : A Mulher que Cantará até ao Fim (do Mundo)

Na noite do dia 03 de junho de 2017, em um Coliseu dos Recreios com somente cerca de metade dos assentos ocupados, a Mulher do Fim do Mundo subiu – literalmente – ao seu trono para aquilo que faz de melhor há mais de 60 anos: cantar. Elza Soares dominou o tradicional palco lisboeta acompanhada de Rodrigo Campos na guitarra e cavaquinho, Rafael Barreto nas guitarras, Marcelo Cabral no baixo e Guilherme Kastrup, que também é diretor musical do show, na bateria e samples.

Quando a cortina se abriu, Elza entoou – à capella – os versos de Oswald de Andrade em “Coração do Mar”, seguida sem pausa de “Mulher do Fim do Mundo”, canção que é quase um apelo: “me deixem cantar, eu quero é cantar, até o fim”. Claro que é um pedido retórico, pois Elza Soares não precisa da permissão de ninguém para soltar sua voz, portanto a apresentação continuou com “O Canal”. Ouvidos mais atentos puderam perceber que em alguns momentos das três primeiras canções Elza se adiantou no andamento, desencontrando-se ligeiramente do resto da banda, possivelmente por causa de pormenores técnicos. Entretanto, o concerto entrou nos eixos e correu muito bem a partir de “Luz Vermelha”, na qual a cantora divide os vocais com Guilherme Kastrup. Após quatro temas de A Mulher do Fim do Mundo (2015), a cantora busca em Do Cóccix Até o Pescoço (2002) a próxima canção: “A Carne” é um forte retrato da discriminação sofrida pelos negros no Brasil, configurando um dos momentos mais emocionantes da noite. Voltando ao seu último disco, temos “Dança” e “Firmeza”, a qual conta com um descontraído diálogo entre Elza e Rodrigo Campos.

O oitavo tema traz mais um emocionante momento ao concerto: “Maria da Vila Matilde” é um grito contra a violência doméstica sofrida pelas mulheres, onde as presentes cantaram em coro “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim!”. Mais do que um desabafo, é um chamado para que as agressões sejam denunciadas. Durante a canção, Elza Soares anuncia o número da linha de apoio a vítimas de crimes na União Europeia, o 116 006. Recado dado, seguimos com “Pra Fuder”. O próximo número leva o nome da personagem principal da história, “Benedita”, e teve a participação do cantor e compositor Rubi que, após sua performance, descansou no colo de Elza durante “Malandro”, na qual ele e toda platéia entoaram em coro o “laialaia” . O penúltimo tema foi “Solto”, antecedendo “Comigo”, canção que Elza Soares canta sozinha enquanto os músicos se levantam e a reverenciam, num final apoteótico.

Após um breve intervalo, os artistas retornam para o bis: “Volta Por Cima”, clássico samba de Paulo Vanzolini, com toda a platéia já de pé a cantar junto e, finalmente, para fechar a grande noite, temos “Pressentimento”.

Elza Soares deu um concerto como poucos cantores dariam. Para além de sua grande voz e excelentes músicos que a acompanham (com menção especial ao baterista e director musical Guilherme Kastrup), suas músicas contém um teor político e social que nem de longe soa panfletário, fazendo com que tivéssemos todos uma noite de arte e reflexão acerca de questões muito sérias, abordadas com a maestria que só essa mulher de 87 anos poderia fazer.

Luiz Sangiorgio