A Origem do Fado : O Início de Uma História (Alternativa), por José Alberto Sardinha

José Alberto Sardinha_A Origem do Fado_Capa_Livro

 

 

A Origem do Fado

José Alberto Sardinha

Tradisom

 

Polémico, desviante, alternativo, sedutor e agitador, o livro “A Origem do Fado” – só o título, impositivo na certeza de uma verdade única sobre a paternidade (e não de eventuais múltiplas e putativas paternidades) do género foi, desde a sua edição, motivo de controvérsia – é, no entanto, um preciosíssimo contributo nesta longa história que pretende conhecer, fazer ou explicar a História do Fado. Porque, no meio das teorias todas – das  (quase) unanimemente aceites de José Ramos Tinhorão ou Rui Vieira Nery, entre outros, de que há uma origem afro-brasileira do fado ou as entretanto maioritariamente afastadas  como as origens árabes, “marinheiras” ou até irlandesas – faltava algo da ruralidade portuguesa na equação. E, principalmente, alguma coisa que ligasse o fado à prática centenária dos romances que circulavam de aldeia em aldeia, de feira em feira, de mão em mão ou de boca em boca – quais testemunhos de jograis, os “griots” ocidentais ou euro-menestréis medievais -, notícias épicas e picarescas, picantes ou protestantes, relatos de enormes feitos guerreiros ou de meros assassinatos conjugais (ai o ciúme, o destino, o fado). Transmitidos muitas vezes por ceguinhos que só tinham uma guitarra portuguesa – ou nem isso – para os acompanhar, os “fados” de José Alberto Sardinha – e a sua Origem – estão aqui para nos abanar também. E O Fado & Outras Músicas do Mundo tem o prazer de publicar os dois primeiros capítulos de “A Origem do Fado” e ainda todo o índice de conteúdos, para assim se perceber melhor por onde viajam as suas palavras e a sua tese. A palavra dada a José Aberto Sardinha:

 

Concepções antigas

O nosso interesse pelo Fado é relativamente recente. Quando, vai para trinta e sete anos, dávamos os primeiros passos na investigação da música tradicional portuguesa, a atenção que dedicávamos a este género musical era praticamente nula. Recebíamos então a influência de Fernando Lopes-Graça, cujo magistério musical marcou várias gerações, e que, sobre o Fado, tinha uma posição radical, considerando-o uma canção urbana e, como tal, “pobre e incaracterística, banal e incolor” e chegando mesmo a tratá-lo por “execrando fado, produto de corrupção da sensibilidade artística e moral, quando não indústria organizada e altamente lucrativa”.

José Alberto Sardinha_A Origem do Fado_CeguinhosPadecia essa perspectiva, da qual genericamente comungávamos, de duas fundamentais incorrecções: analisava o fenómeno de um ponto de vista exclusivamente, restritivamente, musical, negligenciando a dimensão antropológica do mesmo, e partia do princípio, puramente romântico e desfasado da realidade, que a tradição urbana é essencialmente corrupta, e que no campo, entre os rústicos, é que se encontraria a pureza imaculada da genuína tradição popular, a Volksgeist, a alma do povo, profunda e imutável, que representaria a verdadeira identidade nacional.

Sucedeu, porém, que, como muitas vezes acontece, a teoria veio a encontrar desmentido na prática. À medida que, ano após ano, recolha após recolha,província após província, a nossa pesquisa no terreno, por todo o país, ia avançando e nos ia dando a conhecera realidade musical das diferentes regiões, e à medida que fomos realizando estudos musicais comparativos entre essas províncias, e também com as restantes músicas populares europeias, nomeadamente a espanhola, fomos constatando inquestionáveis traços comuns entre todas elas, bem como a extrema mutabilidade dos fenómenos da tradição popular. Os estudos de etnologia que, entretanto, aprofundámos, foram-nos mostrando que a mobilidade é, efectivamente, uma característica geral dos fenómenos populares: mobilidade temporal (variação de época para época histórica), mobilidade geográfica (de terra para terra, região para região, país para país) e mobilidade social (interacção cultural entre os vários estratos e classes sociais).

Não existe, na verdade, tal coisa como a música popular (tradicional) pura, genuína ou intemporal. Ao invés, estamos mesmo perante um género musical dos mais variáveis e contaminados, na medida em que a música do povo está em mutação permanente e sofre constantes influências externas, de outros tipos musicais, de outras camadas sociais, de outras regiões. Daí que o seu estudo apresente tantas dificuldades, mas seja tão rico e fértil de sugestões.

As músicas de tradição oral não têm certidão de nascimento: não se sabe onde e quando nasceram, não se lhes conhece a paternidade. E, contrariamente ao que pensaram os românticos – e ainda hoje se encontra muito divulgado e repetido – não vêm do fundo dos tempos, nem brotam espontaneamente da alma popular ou da criação colectiva, coisas que aliás nunca existiram. Acontece até que, por vezes, são bem recentes – e podem mesmo ser facilmente reconhecíveis com um módico de conhecimentos e objectividade.

José Alberto Sardinha_A Origem do Fado_Baile Popular com Guitarra PortuguesaMais (e isto é particularmente importante para a questão do Fado, como adiante explicaremos): não existia, pelo menos em Portugal até aos princípios do séc.XX, a separação entre tradição popular (música) urbana e tradição popular (música) rural. À excepção, naturalmente, de alguns fenómenos exclusivos (salientemos: actualmente exclusivos) do campo (aboios e, em geral, os cantos dos trabalhos agrícolas – e mesmo aqui, lembremos a existência de quintas à volta e por vezes dentro das próprias cidades, lembremos que, em séculos passados, grande parte dos transportes de mercadorias era tirada por animais, lembremos que as leiteiras mugiam as vacas pelas ruas da cidade à vista das clientes ainda no séc.XX, etc.), quase todas as outras tradições populares existiam, em tempos não muito longínquos, tanto nos campos como nas zonas urbanas, como expressão de um substracto cultural comum.

 

1. À guisa de explicação

O projecto inicial deste livro era diferente do que veio a resultar. Tínhamos pensado apenas numa pequena homenagem musical a duas antigas fadistas ainda vivas, Alcídia Rodrigues e Noémia Cristina, através de umas breves notas biográficas e de um disco com gravações recentes de ambas, antecedida por uma nota introdutória sobre as origens do Fado. Tal introdução não comportaria grande desenvolvimento, visto que estávamos reservando esse tema para um trabalho de fundo que há muitos anos tínhamos em vista, como resultado da nossa investigação etnomusical por todo o país ao longo dos três últimos decénios. Todavia, o tempo vai passando, os afazeres profissionais são absorventes, outros livros de recolhas musicais vamos publicando e o tal estudo sobre as origens do Fado ia ficando para trás, não obstante continuarmos a coligir elementos para o mesmo. Por outro lado, o interesse sobre o Fado e concretamente sobre a sua génese tem crescido, vindo nos últimos anos a aumentar significativamente os estudos que sobre ele se debruçam.

Alcídia-G.P.1935Como não sabíamos quando teríamos disponibilidade para dar a público uma obra autónoma sobre a génese do Fado, e como a edição e distribuição de livros em Portugal apresenta sérios problemas, o projecto inicial sofreu uma transformação radical e aquilo que se previa ser uma curta introdução passou a constituir o núcleo do livro, acabando por se destinar a apêndice a dita homenagem às duas mencionadas fadistas. Não que a nossa tese sobre as origens do Fado estivesse directamente ligada à vida dessas duas fadistas ou concretamente aos fados que elas intrepertavam.

Nada disso. Tais fados não eram demonstrativos da
tese que se vai explanar, até porque pertencem a uma fase relativamente avançada da evolução musical na
história do Fado, a fase artística, chamemos-lhe assim.

Não obstante, pensávamos incluí-los num disco anexo a esta obra, como forma complementar de homenagem, para além da biografia de cada uma delas. Esta foi uma fórmula que encontrámos, dada a urgência em publicar a dita homenagem, atenta a avançada idade de Alcídia Rodrigues.

Por isso, tínhamos previsto o título de Dois Fados. Dois fados porque eram duas vidas diferentes as das duas homenageadas, como diferentes eram os tipos de fados por elas cantados. Dois fados também porque o fado artístico protagonizado por essas duas fadistas, cada uma de sua forma e com expressão própria, representava
uma fase diferente da do fado primevo ou primitivo, a que dedicávamos a primeira parte da obra. Com a referida transformação do projecto inicial, também o título sofreu alteração e passou a privilegiar a matéria que se tornou dominante – A Origem do Fado.

Mas até esta fórmula veio, por um motivo infeliz, a sofrer alteração. O tempo ia passando, pretendíamos publicar o livro, mas as habituais dificuldades de edição em Portugal foram obrigando ao sucessivo adiamento do projecto. Deu-se, porém, recentemente, já em 2007, o súbito passamento de Alcídia Rodrigues, com 95 anos de idade, facto que sentimos como seu amigo, mas que nos entristeceu particularmente por não termos conseguido publicar em sua vida a referida homenagem que ela tanto desejava e merecia. Este funesto acontecimento acabou por ditar uma última transformação neste livro: retirámos-lhe a parte das homenagens, que reservamos agora, passada que está a urgência, para um livrinho próprio, ficando o presente livro exclusivamente dedicado às origens do Fado.

José Alberto Sardinha

ÍNDICE

José Alberto Sardinha_A Origem do Fado_Guitarras Portuguesas em Contexto RuralNota do Editor 7

Prefácios 9

Capítulo 1

À guisa de explicação 19

Capítulo 2

Concepções antigas 21

Capítulo 3

Tradições rurais versus tradições urbanas? 23

Capítulo 4

O romanceiro tradicional 39

Capítulo 5

Revelações da pesquisa rural 43

Capítulo 6

Súmula da tese das origens 47

Capítulo 7

Identificação popular entre o fado e os romances tradicionais 51
ou
Nas províncias, os mais velhos identificam o fado com os cantos narrativos

Capítulo 8

Dos jograis aos ceguinhos, do romanceiro ao fado 61

a)- Os jograis 61

b)- Do canto narrativo antigo (gestas) ao canto narrativo moderno (fado) 63

c)- Os ceguinhos, continuadores dos jograis 86

d)- Notícias históricas sobre os cegos músicos 98

e)- Informações de campo 123

f)- O nome “fado” 179

Capítulo 9

Filiação musical 209

a)- O tronco musical do fado primitivo 209

b)- Problemas de autoria 214

c)- Apenas semelhanças musicais? 225

d)- A génese do corrido 245

e)- Fados humorísticos, duelos cantados, modas bailadas 258

f)- Fado, chula, rusga, cana-verde… et alii 274

g) – Análise dos exemplos musicais seleccionados para os Discos 1 e 2 279

h)- Análise das músicas seleccionadas para o Disco 3 295

i) – Explicação do Disco 4 309

Capítulo 10

Guitarra portuguesa especialA guitarra 311

Capítulo 11

Lisboa, a capital 327

a)- As tabernas de Lisboa e o reconhecimento da nobreza 327

b)- O ambiente musical das tabernas não era exclusivo de Lisboa 348

Capítulo 12

Outras teses das origens 357

a)- Observações gerais 357

b)- Alberto Pimentel e Tinop 362

c)- Adopção acrítica da tese do lundum 375

d)- Rodney Gallop e o conceito de síntese cultural 379

e)- Os livros de Ramos Tinhorão e de Rui Vieira Nery 387

f)- As primeiras notícias brasileiras 389

g)- A “voluptuosidade” do fado-dança 400

h)- Relatos de viajantes estrangeiros sobre as danças portuguesas 414

i)- Danças da tradição portuguesa – análise comparativa 426

j)- Danças da tradição popular europeia – alguns exemplos 440

l)- A síncopa musical 443

m)- Novos erros da tese brasileira 450

Capítulo 13

Notas ao jeito de conclusão 455

Agradecimentos 481

Notas 483

Bibliografia 503

Apêndice 1

Relatório sobre as Marchas de Lisboa 2002 511

Apêndice 2

Guia de Audição dos Discos 517

Obras do Autor 551