Miguel Araújo : Giesta

Miguel Araújo_capa

 

 

Miguel Araújo

Giesta

Parlophone/Warner Music Portugal

 

Tem sido catalogado como um disco de memórias, uma colecção de histórias da infância de Miguel Araújo. “Giesta” é, de facto, uma viagem a um outro tempo – aquele em que Araújo vivia em Águas Santas (Maia) – mas consegue sê-lo sem apresentar uma ponta de saudosismo ou nostalgia exacerbada.

Mais caseiras e menos radiofónicas, as canções que compõem o terceiro disco a solo (e o primeiro desde que saiu d’Os Azeitonas) do músico portuense são, cada uma, uma nova história. Se “1987 “- single de apresentação do disco – nos conta a história da cidade do Porto aos olhos de uma criança de 9 anos, no ano em que a equipa local foi campeã europeia, “Meio Conto” apresenta-nos o filho de Maria e José, que viaja do Oriente a Belém e ainda passa pela Estrela (tudo em Lisboa, claro), e em “Lurdes Valsa Lenta” passamos o dia com Lurdes e sua gata, aguardando o marido Mário, que há 12 anos não volta. Já em “Axl Rose” (a par de “1987” a faixa mais cantável do disco), a viagem é até ao início dos anos 90 e o princípio do fim do rock n’roll, encabeçado pela famosa birra do vocalista dos Guns N’Roses em Alvalade.

A capacidade de contar histórias através de simples melodias já era reconhecida em Miguel Araújo, mas a simplicidade de “Giesta” realça o talento do escritor de canções como narrador e cantor. Seja a descrever o lado mais obscuro da “Via Norte” ou a embalar o filho em “Acalanto”. Às canções caseiras juntam-se cuidados arranjos de cordas que realçam as belas melodias sem se sobreporem à canção.

Mas o momento maior de Giesta dá-se em “Sangemil”, onde tudo se encontra num balanço perfeito. “Uma canção é só uma canção”, canta Miguel Araújo, enquanto relata os tempos na cave da casa de Sangemil a ouvir os ensaios da banda dos tios – ouvem-se Animals, Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan ao fundo -, onde terá nascido essa devoção pela arte da canção. Qualquer pessoa que partilhe da devoção vai encontrar em “Sangemil” o retrato musical desse momento mágico.

Teresa Colaço