Pedro Jóia Trio e Ney Matogrosso : Um Encanto Para a Alma no Mosteiro dos Jerónimos

O Mosteiro dos Jerónimos acolheu ontem, 26 de Junho, Pedro Jóia Trio e Ney Matogrosso, num espectáculo marcado pela genialidade e carisma de dois artistas únicos nas respectivas áreas.

Pelas 20:00 já a fila junto da principal entrada dos Jerónimos era extensa. A expectativa era elevada para um espectáculo que prometia ser único, quer fosse pelo espaço em que se realizaria quer pelos intervenientes do mesmo. No final, a expectativa foi ultrapassada, tal a qualidade atingida ao longo de hora e meia.

A relação de Pedro Jóia e Ney Matogrosso já vem de longe, com o artista brasileiro a participar no disco “Jacarandá” do português e com Pedro Jóia a participar nos discos “Vagabundo” e “Canto em qualquer Canto” de Ney Matogrosso. A química é mais que visível e passa de imediato para o público que reagiu com fortes ovações, mas já abordaremos esta harmonia mais à frente.

Com um ligeiro atraso, pelo qual pediu desculpa, Pedro Jóia subiu a palco sozinho (com a sua guitarra clássica) para abrir o espectáculo com a interpretação de três peças de Carlos Paredes, referindo que faz sempre questão de lembrar este artista único no panorama musical português. Confessou estar “muito honrado por poder tocar num espaço como o Mosteiro dos Jerónimos e numa noite tão bonita”. Uma temperatura agradável, um espaço mágico e um desenho de luz que criava uma atmosfera que nos fazia querer ficar ali para sempre.

O trio de Pedro Jóia ficou completo com a chamada a palco de João Frade no acordeão e Norton Daiello no baixo, seguindo-se a interpretação de “Meditando” de Armandinho e ainda uma viagem pelo Fado Lopes. O público estava conquistado, mas os artistas iam crescendo e soltando toda a sua qualidade com o desfiar dos temas que tinham propostos para uma noite que ficará na memória de todos os que ali foram.

Da autoria de Norton Daiello foi interpretada uma variação sobre “Se correr o Bicho Pega”, antes de relembrarmos Sivuca em “Feira de Mangaio”.

Vicky Marques, conhecido percussionista, foi também ele convidado neste noite. O rimto dançante das Bulerías foi vivido nos Claustros antes de nos relembrarmos do ícone Paco de Lucia em “Zyryab”. Pelo meio espaço para um corridinho algarvio e ainda uma evocação a Luiz Gonzaga.

Ambiente fantástico no Mosteiro dos Jerónimos com um público que vivia entre fortes aplausos entre temas e um respeitador silêncio em cada tema. Público que explodiu em festa quando Ney Matogrosso subiu a palco para cantar alguns dos temas mais conhecidos da sua discografia.

“Balada do Louco”, “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroxima”, “Duas nuvens”, “O mundo é um moinho” e Bandolero” deixaram o público em êxtase perante o poder interpretativo do artista brasileiro que continua com uma voz inconfundível sem marcas do tempo. Denota um respeito enorme pela palavra, pela sua dicção e por uma correcta transmissão das mensagens. Ney Matogrosso esteve igual a si próprio, com pouca interacção mas com um sentido de espectáculo absolutamente incrível. Destaque ainda para uma cumplicidade artística, que extravasa para a amizade, entre Jóia e Matogrosso. É algo de único e que emociona quem vê.

O público queria mais e obrigou os artistas a dois encores. No primeiro para a interpretação de “Assim Assado” e no segundo para “Bandolero”, um dos temas de Ney mais aclamados pelos portugueses. Destaque ainda para o trabalho das equipas técnicas de som e luz que engrandeceram um espectáculo que esperamos se repita em breve.

Rui Lavrador
(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Infocul)