Do Meio-Mundo à Descoberta do Meio do Mundo : Uma Rubrica de Carlos Norton

 Chegou o Verão e como sempre chega o desfile de festivais de música. Felizmente para nós cada vez são mais e mais fortes os que se dedicam às mesmas músicas que nós e anualmente assistimos a uns quantos serem nomeados ou mesmo galardoados como o melhor festival XYZ do concelho, da Península Ibérica ou da Galáxia. Há para todos os gostos, espalhados por todo o país e que oferecem música de todo o mundo. De todo o mundo? Será mesmo?

Há uns quantos anos atrás, descobri tanta coisa dentro de uma tenda no Seixal. Alguém que se dava ao trabalho de trazer artistas da região de Tuva, da Finlândia, de Cabo Verde ou do Irão. Na altura uma coisa estranhíssima, depois começou a ganhar adeptos e para o fim a tenda já estava cheia de gente interessada. O que ficou para mim e para outros tantos foi um interesse em paisagens longínquas, em culturas remotas, em arte genuína, em conhecer o mundo que desde há uns séculos para cá tornou-se assumidamente redondo, mas não tanto quanto isso. Música do Mundo, significa pelo próprio denominador, música proveniente do mundo, mas será de todo o mundo?

Olhando para os principais e secundários festivais em Portugal, na Europa e noutros continentes. Olhando para as grandes e as pequenas revistas dedicadas à world music. Olhando para os grandes e médios eventos de divulgação e promoção de música. Olhando para a internet, youtubes, canais de música e outros que tais.

Que vemos? Todos os continentes representados. Todos os países da Europa representados (apesar das vulgares ausências do Luxemburgo, de Malta, de Chipre e das Ilhas Faroé). A América está lá quase toda, a do Norte toda, a Central e a do Sul na sua maioria. Agora quando vamos para África, presumo que só tenha umas 15 nações, porque tudo o que é world music de África será do Mali, do Senegal, de Marrocos, do Egipto, da Costa do Marfim, Guiné e do Congo. Talvez dos Camarões, de Angola, Moçambique e África do Sul.

Fico por isso a achar que no Ruanda, na Eritreia, no Botswana, na Namíbia, no Zaire ou no Zimbabwe, no Malawi, no Togo, no Chade, no Burundi ou na Tanzânia, simplesmente não há música nem músicos.

O mesmo deve acontecer no continente asiático. Pobres países como o Turquemenistão, o Uzbequistão, Tadjiquistão, Butão, o Bangladesh, o Laos, as Filipinas ou a Indonésia.

A Oceânia, bem essa não deve passar de um mito.

Se calhar e vendo bem, o Mundo da Música é um meio-mundo apenas. Então porque fica a outra metade de fora? A não ser que esses países só tenham bandas de covers e de tributo aos xutos, acredito que existam muitos e fabulosos músicos e que se cantem e toquem coisas fantásticas desses povos, desses países. Mas por alguma razão não chegam ao “mundo”. Porque será?

Na verdade, muitos deles não têm os recursos tecnológicos de outros. É mais difícil gravar, filmar, enfim mostrar o trabalho musical dos artistas. Noutros casos, são países que ou por estarem em guerra ou em situação de conflito, ou apenas por desorganização institucional, não têm estruturas de desenvolvimento artístico nem de promoção. Mas esperem lá… Não me parece que o Mali seja uma potência tecnológica. Nem que Portugal tenha grandes estruturas institucionais. Então haverá outra razão?

Talvez a “culpa” não esteja no ponto de origem, mas do outro lado do mundo. Talvez não haja falta de boa música nesse meio-mundo, mas um simples desinteresse por quem compra e vende música, por quem programa, por quem assiste, porque quem pesquisa, por nós e por todos nós. Talvez a culpa seja precisamente de todos nós, embalados numa ignorância colectiva e focados em pontos de interesse ditados pelas correntes globais. Honestamente, alguém se interessará pela música tradicional do Lesoto?

Estou curioso para ver os cartazes completos dos festivais deste Verão. Talvez tenha que engolir algumas palavras que escrevi, mas seria para mim um enorme prazer!

Carlos Norton