Cento e Onze Discos Portugueses – A Música na Rádio Pública : De Beatriz Costa (1935) a Capitão Fausto (2016), por Carlos Borges Ferreira

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Cento e Onze Discos Portugueses – A Música na Rádio Pública

Henrique Amaro e Jorge Guerra e Paz

Edições Afrontamento

 

“Cento e Onze Discos Portugueses – A Música na Rádio Pública”, um livro das Edições Afrontamento, com coordenação editorial de Henrique Amaro e Jorge Guerra e Paz, teve o seu lançamento no dia 20 de Junho, pelas 18h00, no Rive Rouge (Cais do Sodré). Foi durante essa sessão de lançamento que foram recolhidos as fotos, os depoimentos e os sons que serviram de base a este texto.

I – O Nascimento

Na sua origem, esta iniciativa da Antena 3 pretendia assinalar os oitenta anos da rádio pública em Portugal: oitenta anos, oitenta discos.

Evoluiu naturalmente para um projecto mais ambicioso (primeiro cem, finalmente cento e onze obras), transformando-se numa antologia de discos fundamentais para contar a história da música portuguesa e simultaneamente homenagear quem em 1994 criou a Antena 3, Jaime Fernandes, falecido o ano passado e a quem o livro é dedicado.

Nuno Artur Silva, membro do Conselho de Administração da RTP, começou por situar a génese deste livro, “um projecto que nasce da Antena 3, mas que foi acarinhado por toda a RTP, por todas as rádios da RTP, por toda a RTP (Rádios e Televisão). Um projecto que expressa aquilo que eu acho que é a missão da RTP, do serviço público de media”.

II – O Elogio

O país estava ainda a tentar refazer-se do “Inferno e Tragédia de Pedrógão Grande“ do fim-de-semana anterior e o adiamento daquela sessão chegou a ser pensado, acabando por se decidir mantê-la, explica Nuno Artur Silva “tendo em conta que um dos méritos dos músicos portugueses tem sido o de contribuírem, sempre que são chamados para as causas, como a causa que naquele momento nos movia a todos”.

Na sala não estavam, infelizmente, muitos dos músicos cujos discos passaram a estar inscritas no livro que ia ser lançado, mas quem lá estava não pôde ficar indiferente à homenagem pública que Nuno Artur Silva trazia preparada: “Em Portugal, a música pop tem sido uma das áreas mais vibrantes da criatividade nacional, e isso está espelhado neste livro, que é um livro que sinaliza cento e onze discos fundamentais, mas mais do que discos, também cento e onze músicos ou bandas absolutamente essenciais na história da música popular portuguesa”.

Mais tarde, em conversa, dá para confirmar a sinceridade das suas palavras, que dão consistência a toda uma estratégia de mudança: “A orientação anterior era de concentrar todo o esforço na RTP 1 e torná-la competitiva, em termos de audiência. A nossa interpretação do ‘Contrato de Concessão’ não é essa, o que nós fizemos foi reposicionar aquilo que nos parece ser uma lógica de ‘Serviço Público’ e não pensar sobretudo num canal, mas pensar no conjunto dos canais de Televisão, Rádio, Multimédia. Devemos encontrar a força do grupo RTP no seu conjunto e não devemos ter objectivos comerciais; devemos ter como objectivos fazer precisamente aquilo que as estações comerciais não fazem, porque têm objectivos comerciais… Temos de dar voz, dar antena, assegurar diversidade nas Rádios, diversidade nos canais de TV, apostar em formatos e em géneros em que os outros não apostam. Foi esse o caminho que fizemos e estamos a fazer. A oferta da RTP hoje é muito diversificada e aquilo de que estamos hoje aqui a tratar, é um exemplo disso”.

Henrique Amaro, da Direcção da Antena 3 e um dos coordenadores editoriais do livro, não podia estar mais contente por “ter levado o barco a bom porto”, adiantando que “embora seja um livro motivado pela Antena 3, é um livro da rádio pública. É um elogio da rádio pública, como difusor das músicas portuguesas. O trabalho que a Antena 2 faz, que a Antena 1 faz, a RDP África, a Internacional, a Antena 3, cada uma tem um propósito na sua emissão. Acho que é um livro que reflete isso. Vai atrás no tempo, buscar um disco da Beatriz Costa de 1935, acaba num dos Capitão Fausto, de 2016, e pelo meio vai completando a sua narrativa”.

III  – A Organização

A narrativa encontra-se organizada em cinco períodos da Rádio Pública, caracterizados contextualmente, através de excelentes textos dos separadores, da autoria de João Carlos Callixto (entre parêntesis indica-se o número de discos incluídos em cada período):

A Fundação da Rádio Pública – 1935

A ligação estreita entre as primeiras décadas da Emissora Nacional e o período de ouro da canção ligeira em Portugal (dois discos).

O Vinil em Portugal – 1954

Durante toda a década de 60 e início da década de 70, o EP (extented playing) é o formato de eleição (vinte e seis discos).

A Revolução de Abril – 1974

O canto de intervenção, a modernidade, a renovação do fado e o rock a espreitar (seis discos).

A Afirmação em FM – 1979

O surgimento da Rádio Comercial em 1979, o Rock Português dispara em 1980, as músicas de inspiração tradicional ganham protagonismo e o CD é o novo formato da indústria (quarenta e oito discos).

O Novo Século Digital – 2000

Cruzamentos, mestiçagens, os novos nomes do fado e a música portuguesa a gostar dela própria (vinte e nove discos).

IV – Critérios/Processo

O primeiro passo foi juntar na Antena 3 uma espécie de “Comité Central” (Isilda Sanches, Luís Oliveira, Henrique Amaro, João Carlos Callixto e Rui Miguel Abreu) e decidir quais os discos que iriam ser incluídos. O mesmo Henrique Amaro acrescenta: “Se alguns destes cento e onze discos se manifestaram de forma imediata, outros exigiram alguma reflexão no sentido de cumprir um dos principais critérios: um disco por artista. Às vezes não é o melhor disco do artista que lá está, mas foi o que lhe deu visibilidade, que abriu um caminho para outros, discos que no nosso entender, subjectivo, tem um determinado tipo de importância, tiveram uma determinada visibilidade de rádio: todos eles têm uma história”. Depois, numa fase seguinte, foi proposto aos convidados (um total de cinquenta e um) que iriam escrever sobre os discos: os discos escolhidos são estes, sobre quais é que gostariam de escrever?”.

Henrique Amaro prossegue, com a emoção a cavalgar-lhe as palavras: “Algumas escolhas foram muito facilitadas pelo facto de existir, logo à partida, um elo de ligação, algo de interessante para contar sobre o disco ou o músico. Todos os autores dos textos têm uma ligação à rádio. Por exemplo, o Ricardo Alexandre foi a pessoa que escreveu a biografia do João Aguardela, é jornalista da RTP, ligado à informação, não tem uma ligação à música, mas devido à relação que tinha com o João, foi ele que escreveu sobre o Megafone. O Armando Carvalheda, devido à ligação que tem com Brigada Victor Jara, foi ele que escolheu. As pessoas tinham de ter um vínculo à rádio, para o escrever. Não é um livro feito na redacção de um jornal, é um livro feito pelas pessoas que estão nos corredores da rádio, seja o António Macedo, o Viriato Teles, o Henrique, o Rui Miguel Abreu, o Armando Carvalheda, a Ana Sofia, o Edgar Canelas, tem de haver esse vínculo para podermos pôr a assinatura naquele livro. Fui ter com o Júlio Isidro: Júlio, qual é o disco, “se calhar os Heróis do Mar, que tenho uma história boa para contar”… O Rui Pêgo tinha uma história boa para contar sobre o António Variações…  Cada um tem uma história, algo que o liga, do ponto vista de afinidade, a determinado disco… Eu, por exemplo, só escrevo sobre dois: o dos Xutos & Pontapés e o dos Peste & Sida; foram discos que marcaram um determinado período da minha vida”.

O “Inesquecível” Júlio Isidro confirma a estreita ligação da música incluída no livro com a vida de quem faz (e sempre fez) Rádio: “Destes discos, à excepção de dois deles, eu tenho-os todos em casa. Todos eles me recordam diversas fases da minha vida em termos radiofónicos. A Rádio tem uma força de tal maneira grande, uma capacidade de se inventar e reinventar que extravasa um livro. Creio que as pessoas que vierem a ler este livro, também vão ter muita vontade de ouvir este livro”.

O leitor/ouvinte tem ainda acesso à totalidade das capas das cento e onze obras seleccionadas (com fotografias de Pedro Nascimento e design gráfico de Susana Fernando), o que lhe permite também acompanhar a evolução e as tendências que foram marcando o design gráfico das capas dos discos e a forma como se relacionam com o conteúdo musical que envolvem.

Com o Festival da Eurovisão, já passado, ainda fresco e o do próximo ano já em perspectiva, no meio de uma agradável conversa, Nuno Galopim, com o profundo conhecimento transversal que tem da música do nosso país, avança a frase consensual sobre esta obra:

“É um retrato de referência de cento e onze, dos muitos discos, que fazem a história da música gravada em Portugal”.

Carlos Borges Ferreira

(Director da CBFwebRADIO  – cbfwebradio.com)