O Gajo : Longe do Chão

O Gajo_Capa

 

 

O Gajo

Longe do Chão

Rastilho Records

 

Querido Tó Zé Bexiga, Está tudo bem contigo, desde que nos encontrámos em Salvaterra do Extremo? Espero que sim! Olha, isto até pode não ter importância nenhuma, mas queria avisar-te de uma coisa que eu acho que precisas de saber. E peço-te, claro, que mantenhas esta minha missiva o mais confidencial possível. Isto é mesmo só para ficar entre nós. Vou ser claro: depois dos míticos Jorge Caranova – que Ernesto Veiga de Oliveira “descobriu” ainda nos anos 60 –, António Jacinto, Manuel Bento, Francisco António, Manuel Inácio Verónica e António Emídio – que José Alberto Sardinha deu a conhecer em “Viola Campaniça, o Outro Alentejo” (início dos anos 80) -, foi o caríssimo Pedro Mestre que pegou nesse riquíssimo legado da viola campaniça tocada de forma tradicional, o transmitiu, desenvolveu e expandiu (até em direcção ao Brasil, com pontes lançadas aos irmãos brasileiros da viola caipira). E estou certo que tanto tu, músico, como eu, fã e jornalista de música, lhe estamos imensamente gratos por isso.

Depois existes tu, o maluco da campaniça, com a tua pedaleira feita para guitarras eléctricas ligada àquilo, com a tua inventividade interminável, a tua loop station que usas como um BOSS (piadinha) e os teus mil projectos, que isto de ser músico – e jornalista de música, já agora – voltou a ser coisa de pobre: Bicho do Mato, Uxu Kalhus, Bonecos & Campaniça, No Mazurka Band, Ocarina, Há Lobos Sem Ser na Serra… Eu sei lá! E lá andas tu, com a tua violinha, armado em alentejano pós-moderno, a fazer de Jimi Hendrix, Robert Fripp, Thurston Moore, Devin Townsend e Masami Akita da campaniça. Eu gosto muito da tua música, sabes que sim. Mas andaste para aí tão entretido com os teus grupos todos que te esqueceste de gravar um álbum a solo; um álbum que iria lançar a campaniça para a estratosfera.

E quilhaste-te. Porque agora apareceu um gajo, O Gajo, que nem sequer é alentejano e que gravou um soberbo álbum de viola campaniça solo (por vezes há por lá umas percussõezinhas, que deve ser ele que toca, e uns sons ambiente – gaivotas, vento, mar, essas coisas… -, que deve ser ele que gravou; e uma única voz, a de Telma Pereira, que canta assim a modos de Lisa Gerrard, dos Dead Can Dance, em “Trânsito de Vénus”) e que é absolutamente desviante da tradição mas em que não usa cá essas coisas da distorção, do wha-wah, do fuzz, do overdrive, da reverberação nem uma máquina que lança playbacks de cenas pré-gravadas ao vivo e em directo (tu às vezes pareces os gaiteiros – aquilo fica a tocar mesmo depois de se ter “soprado”, pá!)… O Gajo – que se chama na verdade João Morais, é de Lisboa (tanto quanto pude apurar) e tem andado por aí a tocar guitarra eléctrica em grupos punk e afins como os Corrosão Caótica, Carbon H, Gazua, Eletro Cordel, Osso Duro de Roer ou No-Counts – tem aqui este disco, “Longe do Chão”, em que a campaniça é tratada com respeito, em modo acústico e está a milhas da tradição. E olha que aquilo é mesmo muito bom.

Não é nada virtuoso como tu e o Mestre conseguem ser muitas vezes mas isso desculpa-se facilmente: afinal, o único guitarrista virtuoso vagamente aparentado com o punk que existe no mundo é o Cabeleira. Mas, de resto, o disco é bem interessante. Andam ali uns ecozinhos de Ry Cooder, de Dead Combo, de John Fahey e Jack Rose, logo também de Norberto Lobo, mas também do fado e de Paredes, da música medieval, dos blues e das ragas indianas – o punk, esse, só se nota por vezes na abordagem musical. E, muitas vezes, no meio de todas as paisagens sonoras que ele vai criando, até damos connosco mesmo no meio do Alentejo. Põe-te a pau, Tó Zé, põe-te a pau ou O Gajo ainda te tira o emprego nessas bandas todas (tem é que comprar os pedais e a maquineta das voltas) ou vir a ser contratado pelo Pedro Mestre para sideman (e aí já não vai ter que comprar os pedais nem a maquineta das voltas). Um enorme abraço e um beijinho na testa das crianças! O teu amigo,

António Pires