La Ruta de las Almas : Da Pérsia à Patagónia, por Pavel Urkiza

Em mais uma partilha com a revista de música ibero-americana Pura Mestiza, O Fado & Outras Músicas do Mundo orgulha-se de começar a publicar nesta edição um extenso e importante trabalho assinado por Pavel Urkiza, La Ruta de las Almas, que poderíamos ter traduzido por “O Caminho das Almas” ou “A Rota das Almas” mas que decidimos manter na sua grafia original por uma razão que já a seguir se perceberá. De origem cubana, Pavel Urkiza é compositor, arranjador, guitarrista e cantor. Aclamado pelas suas contribuições para a música afro-cubana, Urkiza tem-se destacado num estilo de fusão chamado Filin Progresivo. É o criador do projecto “La Ruta de las Almas”, um documentário que explora as conexões culturais entre a Península Ibérica e a América Latina.

Parte I. O Melro

Abulhasán Ali ben Nafi_ Ilustração de Pavel UrkizaNo ano 822 D.C, chegou a Córdova, capital do Al-Andalus durante o Califado de Abd al-Rahman, Abulhasán Ali ben Nafi, mais conhecido como Ziryab, “Melro” em árabe, pássaro negro. Assim lhe chamaram devido à sua intensa pele morena e à profunda beleza da sua voz.

Nascido em Bagdad em 789 D.C., filho de escravos libertados, quis escapar da vida dos seus pais, reconvertidos em comerciantes, e embora respeitasse as regras do Islão, preferiu os prazeres que lhe proporcionavam a música, o vinho, a comida, o amor e o cultivar da mente.

Ishaq al-Mawsulí (767-850 D.C.), o músico preferido do califa de Bagdag Hurun al-Rashid, foi o seu mestre nas artes musicais e também o causador do seu desterro. O imenso talento do seu discípulo provocou-lhe um impacto muito mais forte que a sua bondade. Ziryab chegou a construir o seu próprio Oud (alaúde), ao qual juntou uma quinta corda às quatro originais. Também começou a usar uma garra de águia para as pressionar, em vez do plectro tradicional de madeira, o que redundou num som mais intenso e profundo do instrumento. E como se isto ainda fosse pouco, criava e cantava a suas próprias melodias que enfeitiçavam quem as escutava, incluindo o califa. No final, Ishaq ameaçou-o e obrigou-o a ir-se embora da cidade.

A partir daqui imagino uma enorme viagem do “Melro”, uma migração forçada que o levou a deambular por cidades da actual Síria. Cruzou desertos, viveu no Cairo e no reino dos Aglábidas, uma dinastia de emires muçulmanos sunitas do norte de África, convertendo-se num músico errante sem dinheiro que cantava e tocava para ganhar a vida.

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O seu nome foi percorrendo distâncias mais rapidamente que ele próprio. Finalmente pássaro, voava de boca em boca, de história em história. A sua fama foi crescendo e quem o conhecia já não podia esquecê-lo. Posso sonhar, inclusive, que conheceu outros poetas, músicos, pintores e artesãos. Posso sentir que se alimentou das vozes ancestrais dos antepassados, que lhe chegavam de além-Sahara, e que à noite, enquanto dormia, lhe revelavam melodias guardadas no mais profundo da sua alma.

Um belo dia ouviu falar da fulgurante Córdova. E então decidiu que tinha que chegar a essa terra próspera em arte e cultura. Conta a história que escreveu uma carta ao emir al-Hakem em que solicitava ser recebido na corte. Este tinha ouvido falar tanto dele que o instigou a empreender a viagem de imediato.

Ziryab pisou a Península Ibérica pela primeira vez em Algeciras no mês de Maio do ano 822 D.C. E ali recebeu uma notícia alarmante: a recente morte do emir. Durante alguns momentos acreditou que a sorte não o acompanhava e, enquanto pensava numa forma de regressar ao norte de África, alguém lhe perguntou de súbito se ele era Ziryab. Quem lhe fez a pergunta era Nasr Mansur, músico judeu da corte cordovesa, o qual tinha passado ali muito tempo à sua espera. Tinha vindo em nome do novo emir, Abdal-Rahman II, que desejava fervorosamente manter o convite do seu pai e, como prova da sua hospitalidade, lhe enviava uma bolsa cheia de moedas de ouro.

córdovaO destino quis então que Ziryab viesse a ser o fundador das diversas tradições musicais da Espanha muçulmana, a pessoa que concebeu em Córdova o que poderia considerar-se o primeiro Conservatório de Música do mundo islâmico e, quiçá, do Ocidente no ano de 850 D.C. Desenvolveu um estilo próprio e alimentou uma tradição que ainda hoje está viva no mundo muçulmano. A sua memória foi capaz de registar mais de dez mil canções e os seus avanços técnicos transformaram profundamente a arte musical da época. Com o seu génio revolucionou a música. E assim abriu um caminho, como uma semente plantada que germinou e se multiplicou ao longo do tempo, modelando e originando uma identidade cultural.

A herança muçulmana do Al-Andalus, juntamente com a herança judia sefardita, criou um património sem precedentes e de uma enorme riqueza que, apesar dos acontecimentos posteriores da História, sobrevive subtil e abertamente na maioria das manifestações musicais da Península Ibérica e da América Latina.

Um Melro, pássaro negro, voltou a voar, viajando através dos séculos com esse legado da música do Al-Andalus, para cantarmos no presente o mais profundo da música ibero-americana.

Texto e ilustração: Pavel Urkiza

(Uma partilha O Fado & Outras Músicas do Mundo/Pura Mestiza)