A Mulher nas Músicas do Mundo : Preconceito, Aberração e Fascínio, por Carlos Norton

Olá a todos.

Ou melhor, portuguesas e portugueses, ou talvez senhoras e senhores.

Penso que todos começamos a ter dúvidas nestas formas de abordagem. Os tempos correm cada vez mais em direcção a uma uniformização dos indivíduos em consequente detrimento da personalidade e em prol do colectivo. Sim, já o vimos em Zamiatine, em Huxley ou em Orwell, mas com o claro objetivo de nivelar por parâmetros pré-concebidos. Por enquanto neste primeiro quartel do séc. XXI ficamos pelo bestial conceito do “politicamente correto”. Não ofendemos ninguém quando não especificamos absolutamente nada em relação a um indivíduo. Por isso em Londres decidiram abordar os passageiros do metro com um (foggy) “Olá a todos”. Verdade que assim não ofende ninguém que eventualmente se considere situar numa possível zona cinzenta, mas certo que assim também ninguém se identifica no chamamento.

Assuntos encadeados, pouco depois deste tópico merecer tintas a escorrer, começou o campeonato europeu de futebol e Portugal estava na fase final. Desta vez não vi bandeiras nas janelas, não ouvi os relatos em directo na Antena 1, nem parangonas jornalísticas. Claro, era “meramente” a selecção feminina. Mas vi, num café, uma miúda que teria uns 3 anos a gritar para a avó e a apontar para a televisão (durante o jogo Portugal – Escócia):

– Ó Avó, elas não podem estar ali, têm que sair dali!

Apesar de a senhora ter pacientemente explicado que as meninas também jogam, a criança insistiu nos mesmos argumentos, demonstrando um preconceito obviamente impingido por terceiros.

Falamos cada vez mais da igualdade de géneros, vamos ao ponto de forçar quotas, combatemos injustiças e preconceitos, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

O que vale é que na música é tudo um paraíso. Logo a começar pela própria denominação da profissão. Ele é músico. Ela é músico. Coitada, nem tem direito à forma feminina na designação da carreira que escolheu. Vamos lá à parte artística propriamente dita. Percentagem de mulheres no mundo da música? Ridícula. Dependendo da área, podem estar pouco representadas ou quase ausentes. Música clássica – diria 1/5, e excluída de percussões, contrabaixo, fagote, trompa e mais uns quantos. Fiquem lá com um ou outro violino, os violoncelos e flautas transversais, talvez um piano. O mundo da pop? Quase exclusivamente masculino, sobram as cantoras e de quando em quando aparece uma teclista. DJs? Pelos dedos.

A excepção estará nas bases, nas formações mais simples, como os agrupamentos filarmónicos, onde encontramos um maior equilíbrio entre géneros.

Avançando para a world music. Grandes mulheres temos na música do mundo, aliás alguns dos maiores nomes de world music são precisamente femininos. Veja-se o caso do Fado onde a desigualdade funciona ao contrário. Ninguém quer homens fadistas (deveria dizer “queria” pois felizmente isto tem vindo a mudar nos anos recentes).
Claro que dependendo da origem, várias tradições incluem a mulher a tocar alguns instrumentos específicos, mas é certo que de forma geral e acima de tudo nas novas gerações o papel feminino está focado essencialmente na parte vocal. E pouco mais. Tantas bandas, grupos, projectos e a mulher canta. Tantos instrumentos pelo mundo fora e a mulher canta. Não só canta, claro, também toca alguns instrumentos. Casos do Adufe, do Pandeiro, da Harpa.

Podemos ir um pouco mais longe e designar mais uns quantos, mas depressa entramos no regime de excepção. E por tudo isto ficamos todos muito maravilhados quando vemos uma gaiteira, uma saxofonista, uma baterista, uma baixista em cima de um palco. Mas vemos nisso um misto de aberração e fascínio. O primeiro porque o preconceito é de tal ordem que nos faz alguma confusão. O segundo porque queremos acreditar que tal é possível, que tal deveria acontecer e que aquelas são mulheres de coragem e atitude!

Mas então qual o problema? Como o combater? Valerá a pena combater? Na maior parte das vezes (falando exclusivamente nos países onde há liberdade na acção cultural da mulher) são as próprias mulheres que não querem seguir por tais instrumentos, mas será uma questão genuína, de razões meramente genéticas, ou será a influência do preconceito enraizado em séculos e milénios?

Não quereríamos ter mais mulheres a tocar em cima de palcos?

Definitivamente nas áreas em redor da intrepretação a presença até acontece em profissões como professoras de educação musical, managers, road managers ou relações públicas. Por outro lado é preciso dotes de Sherlock Holmes para encontrar mulheres na área do som, produção ou gravação. A tocar, bem… Normalmente é mais “groupies”.
Aliás, façam uma pesquisa com “homens e mulheres músicos”, o que mais aparece são referências a SER MÚSICO ATRAI AS MULHERES. Muito bem, senhoras e senhores (ou muito bem, todos), talvez um dia…

Carlos Norton