Pedro Jóia : Vendaval, O Retrato dos Bons Ventos do Pedro Jóia Trio

Com 25 anos na estrada e seis discos na bagagem, Pedro Jóia é sem dúvida um dos maiores nomes da música de Portugal e do mundo. Em 2017, o guitarrista edita o seu mais novo trabalho, Vendaval. O disco é o primeiro lançamento do Pedro Jóia Trio, cuja formação conta também com o baixo de Norton Daiello e o acordeão de João Frade. Pedro Jóia falou com O Fado & Outras Músicas do Mundo na esplanada do Museu de Marinha, em Lisboa, numa agradável manhã de agosto. Na ocasião, conversámos sobre o novo disco, o Trio, o flamenco – sua escola primordial – e muito mais, num descontraído papo entre músicos.

Em Vendaval há algo já perceptível nos trabalhos anteriores: por mais que os temas tenham origens diversas (música brasileira, portuguesa, flamenco), essas referências conversam entre si. Com isso, notamos que esses géneros se misturam nas canções. Como essas referências funcionam para você no momento de compor ou fazer arranjos? Elas são aplicadas de forma pensada ou surgem naturalmente no decorrer do trabalho?

Não, eu acho que é assim: acho que como tu sabes, a guitarra flamenca  – o violão flamenco – é uma coisa muito absorvente, não é? Um guitarrista, quando se põe nessa linguagem não consegue entrar só um pouquinho e ficar fora, não é? Ou entra todo… Foi o meu caso: eu entrei na adolescência, vindo do clássico, entrei no flamenco e então eu já só pensava em flamenco, guitarra flamenca. E então esqueci tudo o resto. E esse mergulho profundo, nessas águas profundas, marcam-te como músico pelo resto da tua vida. Ou seja, o teu ADN é esse. Por mais que tu queiras fugir, está lá sempre. Tu não pensas em: vou colocar um rasgueado aqui ou um picado ali ou… não, aquilo sai naturalmente, não é? É a tua linguagem. De maneira que, a mim, o que me aconteceu foi: a partir do momento em que decidi que não queria ser um guitarrista de flamenco puro – porque em Espanha há muitos e bons, e há a linguagem espanhola e eu sou português, embora eu ame de paixão o flamenco e a guitarra flamenca -, a partir do momento em que decidi que não queria fazer daquilo a minha vida profissional como guitarrista, queria ser um guitarrista livre mas muito influenciado pelo flamenco. Então iniciei um processo de – não digo afastamento, mas digo de desconstrução – ou seja, tudo que eu fazia tinha obviamente o traço e o sabor da guitarra flamenca, mas numa medida que acho que é a medida certa, ou seja, eu de repente com este trabalho e com outros anteriores quis resgatar a minha portugalidade. Porque este é um país que tem muita guitarra também. Diferente, muito diferente do flamenco, mas muito rica. De maneira que eu, pegando neste ADN, transportei-o novamente para a minha música. Agora, tenha a certeza de que vai ficar pelo resto da vida. Porque para largar o flamenco eu tinha que mudar a técnica, mudar de postura enquanto músico… Tinha que ser outro músico, não é?

Não tem como, não é? Aquilo fica…

Não tem como e eu sou orgulhoso dessa herança…

Sim, e funciona tão bem. Porque às vezes eu vejo artistas que querem colocar algo “aflamencado” na música e aquilo fica estranho, inorgânico. E quando eu ouvi o Jacarandá, disse: nossa, como isso fica bonito…

pedro jóia_pose2Por exemplo: o tema “Jacarandá” é uma coisa que eu tentei puxar muito para o Brasil, para o maxixe, para o choro, que tem lá umas alusões, tem um bandolim também, mas aquilo volta e meia tem ali um remate flamenco que não escapa, não é? E aquilo está… Eu não fugi, foi uma mistura mesmo de (vamos lá ver, vamos misturar) uns tangos flamencos com o maxixe. E ver o que é que dá, não é?

E mesmo quando o Ney Matogrosso canta, ele faz tantos melismas – claro que não soa tão flamenco, mas o seu canto é tão melismático que…

Muito, bastante…

Numa entrevista anterior para O Fado & Outras Músicas do Mundo você disse que quando pensou em montar o Pedro Jóia Trio, pensou num formato portátil. Porque você trabalhava a solo ou acompanhado de orquestras de cámara. Portanto, quando montou o grupo, você pensou nos músicos ou nos instrumentos?

É interessante a pergunta porque eu pensei… É engraçado, eu pensei nos músicos, não pensei nos instrumentos. Pensei no João Frade, porque é um músico incrível, e que por acaso toca um instrumento que é inusitado nessas formações, que é o acordeão. O Norton já era uma camaradagem que vinha há mais tempo, o Norton já fazia parte, digamos, porque eu já tinha essa ideia: quero ficar com o Norton mas depois podia ser uma flauta, podia ser um bandolim, podia ser um piano… Não, já sei: o Frade é aquela coisa, aquele instrumento muito harmónico, é um super músico e depois com os efeitos com que ele trabalha, a linguagem que ele tem, tudo aquilo abriu uma nova perspectiva, não é? E resolvi logo: não, a formação é esta!

E há quanto tempo o Trio está junto?

Tem uns dois anos, creio. Acho que em setembro próximo vai fazer dois anos que fizemos o primeiro show.

E depois de dois anos, você sente que o Trio superou as expectativas que você tinha quando pensou em montá-lo?

Lá está: música instrumental, não é? É um universo muito particular em que não podes fazer planos como fazes na música cantada. E eu acho que cada show que nós temos, cada passo, cada degrauzinho que nós subimos, estamos no lucro. Portanto… Porque temos que conquistar um espaço, não é? E eu, como músico instrumentista, que vivo neste país como instrumentista há 25 anos, sei o que é isso, sei o quão é difícil isso é, não é? Afirmar-se como um músico instrumentista. De forma que estou muito contente com o disco, estou muito contente que tenhamos feito este registo agora, passados os dois anos desde que começámos a tocar juntos. Porque a coisa está mais madura e acho que foi a altura – o timing – certo para gravar o disco. E sinceramente eu não sei se… Não faço grandes planos com o Trio, o único grande plano que eu faço com o Trio é: é a gente conseguir tocar cada vez melhor e cada vez ter mais prazer em tocar juntos. Agora, se vai ter uma digressão na América p’ró ano que vem, é bem provável, pode rolar, vai ter shows na Europa em clubes e festivais de jazz também… Mas não te posso falar de grandes planos neste momento.

Não tem aquele plano de carreira…

Não, a única coisa que eu espero é que daqui a dez anos continue este trio e nós a tocarmos juntos.

O João e o Norton já estavam familiarizados com a linguagem o flamenco?

Já, já… O Norton é um profundo conhecedor da música do Paco de Lucia e o Frade também. O Frade, aliás, toca muito com o Jorge Pardo, que era flautista do Paco… E é tudo pessoal aqui do Sul. A proximidade do Algarve com a Andaluzia é muito grande; é ao lado. A sorte que eu tenho é ter nascido em Lisboa, que é muito próxima de Córdova, onde estudei muito com o Manolo Sanlúcar e – numa altura em que não havia internet – esta proximidade era muito importante.

Outro facto interessante é o de vocês utilizarem efeitos nos instrumentos…

pedro jóia trio_pose3Muitos efeitos. Isso é uma coisa que me agrada muito. E a forma subtil como eles a utilizam. Há temas que começam absolutamente com efeitos, por exemplo o “Evocação a Luiz Gonzaga”, “Variações Sobre o Fado Menor”, começam com efeitos mesmo. E a guitarra vai pura. É como disse: talvez seja o mais conservador ali no meio. Os dois são… O Norton muito rock’n’roll, o Frade muito jazz e improvisação, e eu muito chão.

É o melhor dos três mundos então…

Eu, na verdade, tento ser uma bateria aqui. Eu sou o cajón e a bateria aqui.

E a guitarra, da forma como você a toca, é muito percussiva, não é?

Muito percussiva. Daí uma razão para não termos um percussionista. Além de que o trio é mais compacto, não é? Viajar com um trio não é a mesma coisa que viajar com um quarteto; é diferente.

O que cada músico traz de único para o Trio?

É curioso. Eu sinto-me aqui neste trio como um, assim numa linguagem futebolística… eu sou o defesa central mas ao mesmo tempo posso jogar ali na meia até chegar ao número 10. Faço aquele bloco central e aí distribuo o jogo para esses dois caras que são dois extremos. Um é o Ricardo Quaresma e o outro é o Cristiano Ronaldo. E eles é que… O Frade é o Cristiano Ronaldo: eu dou a bola p’ra ele e ele inventa. Eu só chuto a bola para ele.

E de onde surgiu o disco? Ele veio da ideia de registrar o Trio ou já havia planos de um novo trabalho e calhou ele ser feito com o Trio?

Não. Nasceu o Trio como formação, como show, como concerto e depois achámos que tínhamos duas hipóteses: ou gravamos um disco ao vivo – mas a logística é sempre complicada, o meu disco anterior já tinha sido um disco ao vivo (Nota: Pedro Jóia Ao Vivo com Orquestra de Câmara Meridional, editado em 2015) e eu achei… Não, vamos gravar uma coisa em estúdio, depois um dia vamos gravar um DVD… Aliás, aqui no Mosteiro dos Jerónimos, no mês passado, em junho, o show que fizemos com o Ney (Matogrosso), nós gravámos em DVD. Pode ser que daqui nasça um show ao vivo.

Como foi a escolha do repertório? Foi baseada no que vocês já faziam ao vivo ou compuseram para o disco?

Há coisas que tocamos ao vivo e que não gravámos aqui. O início de tudo isto foi este primeiro tema, “Alma Algarvia” – isto é um corridinho, é uma música própria do Algarve. A minha família é toda do Algarve. E o João Frade é do Algarve também. E o Norton tem uma grande ligação com o Algarve… É a região do país de que ele mais gosta; está lá sempre… De maneira que o corridinho foi o ponto de partida; ainda para mais é uma linguagem muito acordeonística. Portanto, a partir daí nós começámos a juntar peças: o João Frade compôs dois temas, eu trouxe mais dois, o Norton mais um – um baião – aí o Paco de Lucia – é claro – era obrigatório… Aí eu lembrei-me: gostava de gravar coisas do Sivuca ou do Luiz Gonzaga, aqueles acordeonistas do Nordeste (do Brasil), e a coisa foi surgindo. Algum fado, claro…

Tem até uma coisa meio country…

Tem, tem aquela “Cauboiada” que é uma brincadeira…

E a ideia foi sempre se fazer um disco só do Trio, sem convidados?

pedro jóia_pose3Puro e duro, um disco só do Trio, só instrumental. Acho que é importante afirmar a música instrumental. Porque assim, não é politicamente correcto dizer isto, mas não ir sempre a reboque de um cantor. Tudo bem, a música vocal é importantíssima, e eu adoro tocar com cantores, mas pronto… A música instrumental é música tão válida quanto a outra.

É verdade. Outro dia ouvi um lindo disco instrumental, dez temas, com uma música cantada no meio…

P’ra quê? É só p’ra dizer que… E isso entristece-me um pouco: instrumentistas que têm que ter sempre essa muleta do cantor…

O que costumo ver também, não é a mesma coisa, mas penso que há uma relação: um compositor escreve em Português, onde há muitas músicas do disco em Português e uma em Inglês…

P’ra ver se pega… P’ra ver se rola uma carreira internacional…

E o processo de gravação foi todo ao vivo?

Foi essencialmente ao vivo. E depois, é claro que fizemos edições. Porque sempre há detalhes para acertar. Há que ser honesto com isto: gravar ao vivo é uma coisa boa porque a energia está lá também, mas depois é claro que temos que… Porque o disco tem que ser uma coisa perfeita.

Quando, no estúdio, acende-se a luz vermelha…

Acabou… E depois é assim: quem vai ouvir isto (o disco) daqui a vinte anos ‘tá cagando se o cara estava mal disposto e errou uma nota, quer ouvir  uma coisa perfeita…

Sinto que nos discos de hoje há muito desta busca pela perfeição. Em gravações mais antigas, até mesmo pelo uso de fitas magnéticas, havia mais imperfeições no andamento, por exemplo…

Não vou esconder que a maior parte dos temas que gravámos foi com click (metrónomo), mas isto é normal. Somos três músicos a tocar live, mas cada um na sua sala, com contacto visual. Mas é como te digo: se eu precisar de corrigir alguma coisa no violão, isso é possível por causa do click. Ainda para mais sem percussionista… Esta música não tem percussão. Tem que ser muito rítmico…

É ótimo porque na minha opinião não faz falta a percussão…

Era um dos grandes desafios deste Trio, era não ter percussão. Ou seja, era tocar uma linguagem muito rítmica, mas sem ter um percussionista. Eu adoro a percussão, mas ela tem um problema: tanto nos discos quanto ao vivo come metade do espectro das frequências. Tu botas um percussionista ou um baterista e metade já foi à vida. Está ali, só p’ra ele. E o resto fica ali a tentar… Quer dizer, um violão no meio de um baixo eléctrico e um acordeão já é… Imagina com uma percussão?

E o baixo do Norton também é tão percussivo…

É…

Você disponibilizará o disco (Vendaval) em lojas físicas ou somente on line?

Vou… Na verdade, vou colocá-los na FNAC, mas com uma distribuição direta. Porque hoje em dia, como tu sabes, a venda de discos é uma coisa… Vende-se discos é no show, é sobretudo aí que eu vendo. E nas FNACs porque eu acho que é o único lugar em que a venda de discos ainda tem alguma dignidade. Mas cada vez menos, cada vez se vendem menos discos. As secções de discos das FNACs estão cada vez mais pequenas, já reparaste? Há uns anos, quando a FNAC veio, só a secção nacional tinha de A a Z, uma coisa gigante. E agora é uma salinha… Vendem aparelhos de TV, DVDs, tudo menos discos.

Sobre o show nos Jerónimos, com o Ney Matogrosso como convidado: foi um pré-lançamento do disco?

PedroJoiaTrio@Jeronimos-2976Foi um pré-lançamento. O lançamento mesmo vai ser aqui no CCB no dia 15 de novembro, no Misty Fest. Vamos tocar aqui no Grande Auditório do CCB, vamos ter a Mariza como convidada e vai ser o show oficial de lançamento do disco. Isso aqui foi um pré, só.

E porquê o Ney?

O Ney, porque o Ney – além de ser um artista muito querido p’ra mim, um grande, um amigo muito querido – houve aqui uma conjugação de factores… O Ney estava já em Portugal e eu aproveitei o facto de ele já se encontrar aqui para poder, em termos logísticos, ser mais fácil.

É uma pena pois não pude vir ao concerto…

Foi bom… Mas é como te digo: se calhar, como filmámos tudo em full HD, com cinco câmaras, pode ser que role uma gravação ao vivo.

Vai haver um concerto de lançamento do disco, mas haverá também uma digressão?

Vamos fazer alguns shows em auditórios no outono e no inverno, começámos a trabalhar com uma agência nova, que é o Uguru, que está trabalhando nesta digressão em auditórios e também está a tratar de armar outra em clubes de jazz, clubes mais pequenos na Europa: Holanda, Alemanha… É nisto que estamos apostando.

E como é para você conciliar os trabalhos com o Trio, os Resistência, a Mariza…

Nem sempre é fácil, mas às vezes tenho de faltar a um ou outro, mas este é o problema de trabalhar com tanta gente… Mas geralmente dá certo. Há sempre uma luzinha lá em cima que faz funcionar. Mas acontece muito eu ter que tocar um dia em Lisboa e no dia seguinte ir a Zagreb. Ou seja, faz com que eu tenha que apanhar um voo de manhã cedo para Zagreb, com todo o risco que isso pode ter… Algum atraso na conexão… Mas até hoje tudo deu certo.

A vida do músico se faz na estrada, não é?

É na estrada… E nos intervalos, ver a mulher e os filhos…

E depois ainda gravar…

E depois ainda gravar… Que é o que tem menos graça de tudo isso…

O estúdio é uma coisa…

O estúdio é uma obrigação… Isto na verdade é um cartão de visita, mais do que ganhar dinheiro com isto. Ninguém ganha dinheiro com isto (o CD).

É, eu gosto de pensar no disco como uma fotografia que você tira naquele momento… Em 2016 aquele era o Pedro Jóia Trio.

Naquele instante. No ano seguinte talvez esteja de uma forma diferente. é isto mesmo, é um frame.

Nós, como músicos, temos isto de querer registrar…

É bom… Quer dizer, eu já gravei sete discos meus desde 1996 – ano em que gravei o primeiro – e até hoje passaram 21 anos. E nesses 21 anos tu vais tendo momentos muito diferentes na tua vida como músico. Às vezes tu és mais um músico a solo, às vezes és um músico de conjunto. Eu neste momento, por exemplo, depois de ter passado uns anos em que pensava exclusivamente em solo, pensava muito a solo, e hoje dá-me mais prazer em fazer isto (o Trio). Faço menos shows a solo. Mas quando gravei o meu último disco do Armandinho (Nota: À Espera de Armandinho, 2007), por exemplo, um disco a solo, naquela época eu pensava muito naquele formato.

O Sueste, por exemplo, já era um disco bem flamenco, não é?

O Sueste é. Os meus primeiros dois discos, Guadiano (1996) e Sueste (1999), são bem flamencos. Naquela época eu queria tocar aquilo, só.

E o Jacarandá foi feito no Brasil?

O Jacarandá (2003) foi gravado metade em Portugal e metade no Brasil. Foi uma época em que eu fui para o Brasil morar, então gravei metade cá e metade lá.

E de onde surgiu essa ida ao Brasil?

Foi um convite do Ney Matogrosso. Eu fui, em 2001, ao Rio de Janeiro fazer uma gravação com o Ney, que eu não conhecia pessoalmente. Fui com uma cantora portuguesa (Nota: Né Ladeiras). E o Ney… Gostei muito dele, um artista incrível e o Ney gostou muito do meu violão e ficou no ar aquela coisa: cara, um dia você topa se eu te convidar… Eu falei: Ney, é um prazer. Mas aquilo ficou assim no ar. Então vim para Lisboa e, no ano seguinte, o Ney veio para fazer um show em Portugal e ligou-me: alô, Pedro, vem ter no meu show que eu queria falar com você. E aí fez o show e disse: eu estou armando um show para o ano que vem, 2003, que é um show assim, assado… Com o Pedro Luís e a Parede, que era um grupo carioca, e com o Ricardo Silveira, você topa? Mas para isso tem que vir para o Brasil… Fiquei naquela: pô, morar no Brasil muda muito a minha vida. Então eu tinha uma filha pequenina na altura, meu filho (também) era pequenino, mas ao mesmo tempo eu estava com vontade de mudar um pouco de ambiente musical. E falei ao Ney: Ney, eu topo, vamos embora. Eu tinha uns meses ainda para pensar e a coisa armou-se. Entretanto, eu já estava gravando o Jacarandá, o Ney também era meu convidado, aí rolou… Quando dei por mim, estava no Rio, trabalhando com o Ney em digressão no Brasil todo… Eu fiquei quatro anos lá. Estava com a ideia de ficar um ou dois, fiquei quatro.

Acho que a mesma luzinha que ajuda a organizar a agenda, ajuda essas coisas a acontecerem.

Podes crer, há uma luzinha sempre. Que é também, deixa-me dizer, aquela luzinha que tu tens como músico quando sobes num palco. Aquela coisa de estares num ambiente adverso que é um palco, estás com o público à tua frente – que espera o melhor de ti – e apesar de estares nervoso e ansioso… Mas há uma luzinha que faz-te concentrar-te e fechares-te numa bolha e… Vai ser agora.

Voltando ao repertório do Trio, ele muda muito entre os concertos?

pedro jóia trio_pose2Muda e a gente vai tentando mudar. Inclusive estão aí (no CD) uma ou duas músicas que costumávamos tocar que já não tocamos, porque já não achamos que faça sentido. Agora em setembro, vamos tocar na Festa do Avante. E os caras da Festa perguntaram-me se eu podia tocar alguns temas do Carlos Paredes e do Zeca Afonso. E eu falei: claro! De maneira que eu já liguei para o Norton e para o Frade e disse: pessoal, vamos armar aí um par de temas, um do Zeca Afonso e outro do Paredes – porque já tocámos um do Paredes (Nota: “Verdes Anos”), que não está aqui mas tocámos já ao vivo, porque faz sentido naquela festa, porque é uma festa do Partido Comunista, é um pessoal muito ligado àquilo… Ou seja, quando começarmos a tocar o Zeca Afonso, talvez aquilo dê origem depois a outra coisa qualquer. É assim que as coisas acontecem.

Eu fico curioso pra ver isso, porque transportar uma canção de protesto para um trio instrumental deve ser muito interessante.

Sem letra, não é? Mas acontece muito… Eu já toquei Zeca Afonso em instrumental e acontece uma coisa curiosa: eu toco e o povo canta a letra… É curioso. A letra é muito forte. O mais importante daquilo é a letra, não é a música. Ou seja: tu tocas a melodia e o povo quer é cantar a letra, que é o que eu acho que vai acontecer.

O Zeca Afonso foi um dos primeiros cantores de Portugal que conheci e eu gosto muito da música de protesto.

Claro, com muita mensagem! Era um tempo muito rico nessa matéria política. Hoje em dia a malta vive um tempo…

Acho que hoje em dia fala-se muito dessas questões na internet mas faz-se disso pouca arte.

O Brasil, por exemplo, vive um momento politicamente dramático. Mas eu não vejo reação dos artistas… Eu sei que existe, mas está tudo ali meio… Não é como no tempo da Ditadura em que o Caetano, o Gil, o Chico… Não sei, acho que há aqui um vazio de criatividade… Essa geração foi muito forte.

A impressão que me dá é que os artistas mais velhos sentem que já fizeram sua parte…

Pois é! Esse Temer saltou ao poder e ninguém faz música quanto a isso!?

A nova geração discute muito uma questão de gênero, de sexualidade – que é importante que também seja abordada – mas a política tem ficado um pouco de lado, pelo menos no mainstream. Talvez o rap esteja mais ligado nisso…

Está tudo adormecido. Não sinto aquela onda… Aqui em Portugal também não.

Para finalizar, com relação ao Trio e ao disco, há algo mais que você queira deixar registado?

Eu não digo que tenha perdido o encanto pelos discos, mas acho que todos os músicos em geral já tiveram mais encanto em fazer discos. Este objeto já foi uma coisa que mexia mais com os músicos… “Vou gravar um disco” era assim uma coisa, transcendental, o ir para um estúdio. Hoje gravas um disco em casa, no teu quarto, um microfone… Se eu me revejo neste disco? Revejo-me bastante neste disco, é um disco que estou feliz por tê-lo gravado, mas é o primeiro passo necessário para o Trio ficar institucionalizado. De resto, é um prazer enorme para mim tocar com esses músicos. São incríveis. Um trio não é um cara mais dois, um trio são três mesmo. Isto tem meu nome apenas porque foi eu que juntei esta gente, sou eu que toco isto p’ra frente, mas são três músicos: 33% cada um, ponto final.

Texto: Luiz Sangiorgio

Foto (ao vivo): João de Sousa (Infocul)